--------------------------------------------------------------------------------------------------- Ao vê-lo aguentar-se essa última vez, já muito a custo, mudei enfim de assunto: liguei o Peugeot e pus a funcionar o limpa-pingas que mandara arranjar na semana anterior. "Já me viste estas escovas? Olha-me que categoria..."
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Quando enfim nos reencontrámos, passados dois anos, já não usávamos Zippo's nem bebíamos Jack Daniels - éramos apenas mais dois homens médios de Lisboa, fumando à ponta de um isqueiro de supermercado e navegando o vazio imenso num scotch novo servido em copos longos. Tínhamos os U2 cantando em fundo e na mesa ao lado o frenesi das mulheres trocando os primeiros conselhos, mas nem as mulheres podiam agredir-nos na sua interminável maldade nem os U2 significavam já qualquer traição ao carácter endurecido da nossa amizade, construída sobre silêncios profundos e feita bandeira de contestação a todos os meninos-bem da Terra. Não éramos sequer felizes - estávamos simplesmente ali, a ruminar as mesmas histórias do passado, as mesmas histórias que havíamos repetido vezes sem conta durante os primeiros dez anos da nossa relação, antes do afastamento. Podíamos ainda vivê-las uma a uma: as aventuras e as desventuras do Pilão, o pau-da-merda que nos obrigavam a cheirar quando éramos caloiros e o preto Geraldes que não tinha medo de nada e nos defendia dos veteranos, um carro que roubáramos junto ao estádio do Benfica e a velha de pacemaker com que o Miguel perdera a virgindade - e cada história que recordávamos devolvia-nos à adolescência e às suas frivolidades, como se aqueles dois anos de separação nunca houvessem existido e tudo estivesse, na verdade, em seu devido lugar.
A certa altura eu arrisquei, certificando-me de que as mulheres não nos ouviam, absortas na sua amizade recente e nos planos conjuntos para acabar com a nossa vida: "Se não querias separar-te, Miguel, não devias ter contado. As facadas no matrimónio só se confessam para provar alguma coisa ao parceiro ou a nós próprios, e os danos que isso causa são sempre maiores do que o consolo que nos possa trazer". Miguel, no entanto, aguentou-se. Tomou uma longa golfada de uísque, apagou a beata no cinzeiro de alumínio e atirou: "Sabes, Pedro, tenho uma dúvida: um transsexual que é homossexual dorme com homens ou com mulheres?" Então rimos muito, rimos de prazer e ousadia, e depois erguemos os copos ao nível do rosto, fizemo-los girar junto ao nariz, ociosamente. Depois voltámos ao pau-da-merda e ao preto Geraldes, ao Renault 5 roubado e aquele anjo envelhecido cujo pacemaker acelerava perigosamente durante o orgasmo. "Homem que é homem papa o que aparece!", rematou Miguel.
Pouco depois estávamos a comparar os carros no parque de estacionamento, com a esplanada em fundo, e apesar de três dias antes a ter encontrado na pele de uma morena raquítica e apagada, discutindo com o meu amigo os preços dos iogurtes no Continente do Fogueteiro, Susana tinha agora o cabelo pintado de loiro e era de facto um estrondo como loira platinada, sentada àquela mesa em que se engendravam planos para acabar com a nossa vida. Então, eu arrisquei pela última vez, escudado na distância das mulheres: "Se calhar fizeste bem, Miguel. As gordinhas, como a Carla, parecem simpáticas, mas na verdade são pessoas amargas. Cultivam a sua rotinazinha de solidão e reagem com amargura quando, ao fim de algum tempo, o homem que conquistaram começa a perturbar essa rotina. Esta Susana parece-me mais equilibrada..." Mais uma vez, no entanto, Miguel engoliu a resposta - e ao vê-lo aguentar-se essa última vez, já muito a custo, mudei enfim de assunto: liguei o Peugeot e pus a funcionar o limpa-pingas que mandara arranjar na semana anterior. "Já me viste estas escovas? Olha-me que categoria..."
Depois voltámos à esplanada, trocámos um sorriso com aquelas mulheres que nos ignoravam e ficámos por um instante em silêncio, a ouvi-las. Manuela falou da sua preocupação com uma dor no peito que me andava a atacar e eu interrompi, com o copo ao alto: "Homem que é homem sofre do coração!" Susana queixou-se de que Miguel deixava o pijama de ursinhos espalhado pela casa e ele protestou, com um sorriso: "Homem que é homem não usa pijama de ursinhos. Eu durmo de fato de treino. Roxo!" Não estávamos felizes - estávamos simplesmente ali, a repetir as mesmas brincadeiras que fazíamos durante os primeiros dez anos da nossa relação e, devagar, a ver aqueles dois anos de afastamento diluírem-se na memória.
Às sete horas a Fonte da Telha deixou-se ofuscar pela neblina de Maio, o ar arrefeceu e viemos embora. Na subida da encosta o meu Peugeot engasgou-se e o Miguel passou disparado, a rir muito, fazendo-me engolir o pó do seu TDI, como quem diz: "Homem que é homem tem um carro a sério!" Desde aí tenho visto o meu amigo quase todos os meses, e já vai para três ou quatro encontros que ele traz a mesma namorada, Elisabete. É gordinha, mas não é feia - tem o cabelo escasso e macilento mas, embora não seja um estrondo como as loiras platinadas, é aquilo a que se pode chamar uma mulher simpática. A Manuela parece apreciá-la - e, juntas, elas continuam a engendrar planos mensais para acabar com as nossas vidas.