O ti Augusto era um homem atarracado, enxuto de carnes, rosto afilado sombreado por uma boina preta enterrada até aos olhos esquivos. Passou pela vida como uma sombra até ao dia em que, por força de nefastas circunstâncias, foi protagonista de acontecimentos que durante algum tempo puseram a aldeia em polvorosa.
Casa, trabalho, horta. Nem sol nem chuva o demoviam da sua rotina cristalizada pelos anos. Durante a semana, às sete horas da manhã em ponto, içava-se na sua velha bicicleta, dava a saudação às raras pessoas com quem se cruzava e lá ia ele rua abaixo, sem tergiversar, direito à serração onde trabalhava e era estimado como carpinteiro parco de palavras mas inexcedível de zelo e pontualidade. À tarde, depois do trabalho, de regresso à sua casita à beira do pinhal, mal os dias começavam a crescer, metia
uma bucha apressada à boca e lá tornava a montar na bicicleta, desta vez direito à horta que amanhava, ali para os lados da quinta da Carvalha e donde só regressava muitas vezes já sol posto.
Nunca ninguém lhe viu a sombra numa taberna e se algum vizinho mais casmurro e inconformado teimava em o desafiar, a sua desculpa era invariavelmente a mesma : não sou homem para beber a sopa dos meus filhos.
E verdade seja dita, os três filhos que a mulher, a ti Felismina, lhe deu, andavam sempre asseados e bem tratados, ao contrário da maioria da garotada da aldeia que crescia para ali ao Deus dará, descalços e maltrapilhos e a maior parte dos dias com a barriga a dar horas e os lombos raquíticos derreados de tanta pancada caída ao capricho das turbulentas bebedeiras paternas.
Quando o filho mais velho, o Zé, carpinteiro como o pai, lhe anunciou que estava mobilizado para Angola, o ti Augusto não deu palavra. Montou na bicicleta e foi-se refugiar na horta donde só regressou altas horas da noite, já a família estava inquieta e pronta e ir procurá-lo. Na mão trazia uma cana altíssima que nos dias seguintes, de navalha em punho, se entreteve a rebarbar e a limpar de nós e irregularidades, vigiado pelas olhadelas atravessadas e intrigadas da mulher, dos filhos e até mesmo da
vizinhança.
Terminada a obra a seu gosto, o ti Augusto pousou a mão tremente no ombro do Zé.
- No dia do teu embarque em Lisboa, estarei lá com uma folha de couve espetada na ponta desta cana. E o mesmo acontecerá no dia do teu regresso.
Dito e cumprido. No dia do embarque, no cais, aquela folha de couve, lá no alto, a planar num voo silente sobre a mole humana retorcida pela dor das despedidas, foi o último elo de ligação do Zé à terra e às raízes familiares, antes que o sacolejar do Império, prenhe de dois batalhões, o atirasse para as garras dum enjoo que quase lhe ia arrancando as tripas durante os nove dias que durou a viagem até Luanda.
Depois, quando eu passava perto da casa do ti Augusto, para os meus inesquecíveis passeios de bicicleta pelas profundezas do pinhal, detinha-me sempre para perguntar pelo filho.
- Então, o Zé tem mandado notícias ?
A cara do homem abria-se num sorriso rasgado numa loquocidade que até então nunca ninguém lhe vira.
- Mandou sim, Manel. Ainda ontem recebemos uma aerograma dele. Está bem, numa zona sossegada sem guerra. A cana está ali à espera do dia do regresso dele.
Eu tinha de me escapulir para que ele não me repetisse pela milhenta vez a história daquela cana e a razão da sua existência tranquila, ali encostada à casa, apontada ao céu, como um soldado disciplinado à espera de ordens e de cumprir galhardamente a sua última missão.
- Até à próxima, ti Augusto. Hoje estou apressado. Mande um abraço ao Zé.
Infelizmente, o novelo da vida nunca se desenrola como nós vaticinamos. Certo dia, os ventos da desdita trouxeram à aldeia o anúncio da morte do Zé. Num estúpido acidente de viatura, esmagado pelo rodado dum unimog lá para o norteangolano, numa picada traiçoeira e enlameada perto de Maquela do Zombo.
Durante dias e noites a fio os gritos de dor agitaram a ramaria do pinhal e ecoaram pelos requebros dos valados.
Mas a vida não se compadece com dores irreparáveis. A primeira a reagir foi a ti Felismina. Tinha dois filhos ainda rapazotes para acabar de criar e lá conseguiu encontrar forças para nadar até às margens da razão.
- Águas passadas não movem moinhos, Augusto. Reage, homem de Deus, pel’amor dos dois filhos que ainda tens. Olha que não te custou mais do que a mim.
O ti Augusto consentiu com um aceno de cabeça. Reencontrou a rotina de antigamente. Casa, trabalho, horta. Mas a cana continuava encostada à casa, projectando uma sombra esguia e sinistra que corria pelo pátio nas noites de lua cheia.
- O que faz ali aquela cana, homem ? Aquilo não tem préstimo para nada. Qualquer dia vou dá-la ao garoto da nossa vizinha Amélia que já ma pediu para fazer uma cana de pesca.
- Ai de ti. A cana fica ali enquanto eu quiser.
Entretanto, começaram a correr rumores de que certas noites mais propensas a tais fenómenos, a cana ganhava contornos de cruz e, para cúmulo, a ti Belmira, a maior bisbilhoteira da aldeia, afiançava que já chegara a ver o corpo do Zé lá crucifixado.
- Cruzes, canhoto - persignavam-se as pessoas.
Estes murmúrios acabaram inevitavelmente por chegar aos ouvidos da ti Felismina que tornou a enfrentar o marido, resolvida a pôr um ponto final naquele desaforo.
- Ou fazes tu alguma coisa ou tomo eu uma decisão. Escolhe. As pessoas já nem atrevem a passar diante da nossa porta, sempre com o credo na boca.
Como o ti Augusto, enleado até ao fundo da alma por sentimentos que nem ele próprio compreendia, não atava nem desatava, passadas duas ou três semanas, a cana desapareceu subitamente do seu lugar.
O ti Augusto, já amolecido, não teve forças para interrogar a mulher que não tugia nem mugia como se nada tivesse acontecido, agarrada aos preparativos do jantar. A partir deste desenlace, a única diferença que se notou no comportamento do ti Augusto foi que passou a gastar mais tempo na horta, cada vez mais murcho de palavras. Mas, na serração, continuou sempre o mesmo trabalhador zeloso e pontual.