Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Manuel Carvalho



O TI ZÉ BORRACHO


O ti Zé Borracho era uma fraca figura, aquilo a que vulgarmente se chama um franganote. Se pesasse cinquenta quilos era muito. Eternamente enfiado num fato-de-macaco azulado de torneiro, um boné axadrezado na cabeça, com aqueles olhos enormes e esbugalhados, tinha a silhueta dos furões nervosos e irrequietos sempre de ventas no ar.
Apregoava ter sido pugilista nos seus tempos de juventude. Astro cujo nome andara de boca em boca, lá por Lisboa, no mundo dos ringues, nos seus tempos áureos quando estivera quase à beira de ser campeão nacional dos pesos-plumas. Que talento a rodos tinha ele para dar e vender, assim a sorte não lhe tivesse sido madrasta. As razões evocadas para o seu fracasso balançavam ao sabor dos humores dos copos dentro dum leque muito amplo que abrangia políticas, saias, borga ou mesmo ajustes de contas do mundo do crime.

- Eu podia ter chegado a campeão do mundo - afiançava quando os bagaços já lhe toldavam a noção das proporções.
Invariavelmente, aparecia no café nos sábados à noite ao soar da meia-noite. Encostava-se ao balcão, emborcava dois ou três bagaços e só então varria com o olhar turvo a fauna noctívaga que ainda se atardava pelas mesas repletas de copos numa tentativa desesperada de prolongar o serão, depois que os últimos acordes do hino nacional jorravam da televisão e só ficava a bocarra negro do ecrã a relembrar que a hora já era tardia.

Chegava então a hora propícia para o ti Borracho dar início ao seu número. Sacava um lenço enorme e esverdeado das profundezas do bolso e, segurando-o por duas pontas, durante uns bons dez minutos atarefava-se a enrolá-lo em movimentos circulares até lhe dar a forma duma torcida cuja resistência testava com dois ou très esticões enérgicos. Com precisão de cirurgião, pegava então numa das pontas com a pinça dos dedos e enfiava-a por uma das narinas, geralmente a esquerda, até que ela ressurgia subitamente na outra narina depois de ter dado longa volta pelas profundezas nazais.
Então, com o lenço bem esticado pelas duas pontas, percorria as mesas, num desafio :
- Puxa aí. Não tenhas medo de me magoar.
Claro que ninguém se atrevia. Mesmo já habituados àquilo, aquele ritual infundia respeito, aquele nariz partido de pugilista era a prova real da veracidade das suas palavras avinhadas quando evocava o seu glorioso passado.

Quando se cansava de andar para ali a dar espectáculo, subitamente voltava-se para um dos presentes.
-Tu aí ! - apontava um dedo acusador. O que tavas para aí a segredar ? Não escondas que eu bem te ouvi e olha que ainda tenho bom ouvido. Estavas a dizer que eu pareço um porco com o arganel, preso pelo focinho. Foi ou não foi ?
Não havia palavras de desculpa que o convencessem. Metia o lenço no bolso e erguia os punhos, esboçava a dança dos pugilistas.
- Defende-te.
Era a vez do Luís do Café intervir. Finório, vendo que a freguesia começava a fraquejar nas rodadas, aproveitava a ocasião para meter o pessoal no olho da rua.
- Isto é um estabelecimento de respeito, quem não sabe beber vinho, beba água. Desacatos cá dentro é que eu não tolero.
Dizia-se até que aquele era o grande momento de glória da sua vida e que aproveitava o acasião para se vingar das agruras que a mulher lhe dava, sempre, por entre as mesas, a roçar o traseiro bem nutrido nos fregueses, e que não se rogava nada em lhe pôr os cornos quando o apanhava pelas costas.

O arraial continuava na rua. No centro da roda, por entre gargalhadas e incitamentos da assistência, o Ti Borracho exibia os seus mais refinados passos de dança, fazia gala do virtuosismo do seu estilo e da pureza do seus ganchos até que, esgotado o reportório, quando o fôlego lhe começava a faltar, subitamente, baixava os punhos e abraçava-se amigavelmente ao adversário.
- Confessa lá que te ias borrando todo. E olha que não era para menos. Eu podia mandar-te para a cova, com um murro. Dá graças a Deus por eu esta noite estar bem disposto.

Nas raras ocasiões em que as coisas começavam a dar para o torto, havia sempre um mar de braços, uma muralha humana que atentamente se interpunha entre os contendores e que cerceava logo à nascença qualquer esboço de violência despropositada.

Mas nessa noite, uma noite que nunca existiu, como adiante se verá, o caso estava feio. A escolha do ti Borracho recaira sobre um forasteiro retorcido, ainda novo e de rijo arcaboiço, que ninguém anteriormente vira pela terra. De humor execrável, não achara graça nenhuma à brincadeira e, irrascível e intratável, mouco às nossas palavras conciliatórias, investia de cabeça baixa, disposto a engalfinhar-se no ti Borracho.
- Deixem-no vir que eu trato-lhe da saúde - continuava a desafiar o ti Borracho, de punhos erguidos , o que ainda acrescentava mais uns graus à fúria do outro.
Levou-nos duas horas avantajadas e bem suadas até conseguir persuadi-lo a montar na motorizada e a ir-se embora em paz.
Esvaido todo o prazer da noitada e extenuados pela faina imprevista, o grupo foi-se dispersando aos poucos até só eu ficar a fazer companhia ao ti Borracho, que teimava em me reter para o acompanhar na vigília até de madrugada, hora em que as insónias, causadas pelas murraças que apanhara no toutiço, como me explicava, o deixavam finalmente adormecer e repousar o corpo exaurido.

Estava eu à procura dum pretexto para me livrar dele quando, subitamente, a mansidão da noite primaveril foi abalada pelo roncar ensurdecedor duma motorizada de farol apagado que, como um toiro enfurecido, investiu na nossa direcção.
Instintivamente, o ti Borracho ainda ergueu os punhos, num esboço de defesa intimidante, mas não havia artimanhas que o salvassem. Sem uma palavra, o forasteiro saltou da máquina com a agilidade dum gato de olhos coruscantes e com um estalo, dado com desprezo, com as costas da mão, atirou o ti Borracho de pernas para o ar, a espernear ali miseravelmente na poeira do caminho.
A motorizada tornou a roncar com raiva e antes de partir à desfilada ainda escarrou um descarga na cara do ti Borracho que, todo mascarrado de fuligem, ficou a tossicar desesperadamente.

Ajudei-o a erguer-se. Penosamente se aguentava nas pernas, consumido por tremura incontrolável.
Olhámo-nos, desamparados. Aquilo lá podia ser ! Traiçoeiramente, o tecto do mundo desabara-nos sobre a cabeça. Era uma pedrada mortífera nas vidraças do nosso universo. Um big-bang incontrolável.
Acompanhei-o até casa, ladeira acima, abraçados um ao outro como náufragos. Ainda hoje recordo aquela caminhada na madrugada silente, só perturbada pelo ladrar dos cães e pelo berreiro dos ralos. Na despedida, falei-lhe com solenidade :
- Ti Zé, o que se passou aqui esta noite, nunca aconteceu. Está a ouvir? - Deixei que as palavras amadurecidas rolassem lentas e sepultantes. - Isto foi um pesadelo, um sonho mau. Concorda ?
O ti Zé Borracho olhou-me com uns olhos onde eu pela primeira e única vez na vida vi os vapores dos bagaços dissipados, compenetrado da responsabilidade que lhe pesava sobre os ombros. Aquiesceu com um aceno de cabeça e, daí para a frente, fique esta verdade em seu abono, nunca se eximiu a honrar o seu compromisso e continuou a animar as nossas noites de sábado, como se nada de anormal tivesse acontecido.
Punha tanta convicção e entusiasmo na sua representação que, passados meses, por vezes chegava a interrogar-me se, de facto, tudo aquilo não fora um pesadelo meu, algum mau sonho que me pregara uma partida. A tal ponto que, certa noite, o chamei à parte :
- Ti Zé, ouça cá, aquela noite...
- Qual noite, Manel ? - interrompeu-me ele , com um brilho irónico nos olhos esbugalhados. - Não me recordo de nada.
Largámos a rir às gargalhadas. Podíamos , finalmente, ficar em paz : aquela noite nunca existira.


Manuel Carvalho
paula@total.net

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