O ti Pimpão aparecia invariavelmente no café nos domingos à tarde para jogar a sua partida de dominó. Sempre de camisa lavada e com aqueles sapatos alaranjados impecavelmente engraxados, mantinha um aprumo invejado pelos cinquentões da sua criação, a maioria já com as carcaças arruinadas por cirroses galopantes.
Chegava por volta das três horas da tarde, bebia a sua bica e a sua água mineral, traçava a perna e acendia calmamente um cigarro à espera dos comparsas da jogatana. Quando nos via esparramados pelas mesas, devorados pela ociosidade e pelo vazio de projectos, abanava a cabeça desolado.
- Não têm mais nada que fazer do que andar por aqui a polir as cadeiras dos cafés ? Tanta rapariga que por aí há à espera de serem consoladas. Cambada de maricas, têm de ser os homens da minha idade a defender a honra do convento. É uma vergonha.
Humilhados, com o brio espicaçado, fartos de encaixar de cabeça baixa os insultos, acabámos, com o tempo, por romper os diques do respeito devido à diferença de idades e ripostar à provocação com uma insolência a que só a gente nova se atreve, quando derruba as barreiras que lhe entravam o livre curso das pulsões.
- Consta que vocemecê tem uma grande língua que regala as raparigas.
- E esse nariz afiado é das entaladelas que apanha quando elas apertam as pernas.
- É verdade que vocemecê já emprenhou uma gaja com a língua?
A princípio, o ti Pimpão, escudado num sorriso de desdém, ainda se atrevia a enfrentar-nos.
- Maricões ! Se eu vos contasse...Mas vocês ainda são uns garotos para saber os segredos dos homens.
A guerrilha atingiu tais proporções, que chegou a uma altura em que mal o ti Pimpão assomava o nariz à porta, o café fervia com as assobiadelas e apupos que choviam de todos os cantos. Apoplético, completamente descontrolado, o pobre homem, sem saber para que lado se voltar, inevitavelmente, acabou um dia por meter o rabo entre as pernas e desandar porta fora, perseguido pela enxurrada das nossas gargalhadas vitoriosas.
Tudo isto se passava em meados dos anos sessenta. Corriam os tempos em que as aldeias das redondezas se esvasiavam dos seus filhos mais robustos e corajosos que todas as noites, em ininterruptas carradas clandestinas, transpunham a fronteira, rumo à França, em busca duma vida mais desafogada. Para colmatar esta sangria de braços de que tanto careciam as indústias locais de plásticos e madeiras que começavam a florescer à sombra do festim europeu, entretanto radicaram-se na região inúmeras famílias migrantes, oriundas do Alentejo e Ribatejo, escorraçadas das suas aldeias pela miséria e pela rapinice dos grandes latifundiários.
Entre elas, chegou, um belo dia, um viúvo acompanhado pela filha. A rapariga, com cerca de dezoito anos, era aquilo a que naquele tempo se chamava um trasalhão. Fresca como uma alface, passeava pela aldeia uns olhos, profundos e verdes como as lezírias que a viram nascer, que jorravam labaredas de promessas nunca cumpridas, a blusa empinada por um provocante par de seios que ateavam os sonhos mais enlouquecidos e alimentavam os nossos delírios noturnos.
Era um sábado à noite invernal. Chovera todo o dia a cântaros e o temporal mostrava forças para continuar pela noite adentro, a bátega a apedrejar com fúria a vitrina do café. Na televisão decorria mais um episódio do Bonanza, um filme de aventuras do oeste americano. A malta em delírio com a irreverente coragem do Joe Pequeno, não despregava os olhos do ecrã, quando a porta do café se escancarou com estrondo deixando entrar uma tromba de ar glacial. Ainda o pessoal não se conseguira recompor da abrupta interrupção, precisamente a meio duma arrebatadora cena em que o Joe se preparava para beijar uma escultural amazona, e já o viúvo, encharcado até aos ossos, irrompera pelo café adentro, com fúrias de toiro escumante, até à barreira do balcão. Empunhados pelos atacadores, erguia na mão encordoada , como troféus de caça, um par de sapatos. Toda a gente reconheceu logo os inconfundíveis sapatos alaranjados do ti Pimpão.
- A quem pertencem estes sapatos ?
A nossa primeira reacção foi desatar às gargalhadas mas o olhar ensanguentado do homem secou-nos a garganta. Com meticulosidade de esbirro, devassava-nos o corpo e a alma; inspeccionava-nos os pés com aplicação de príncipe louco à procura da sua cinderela.
Ninguém tugia em mugia, as respirações suspensas, paralisados pelo medo dum tiro, duma facada tresloucada, sabia-se lá, que o homem estava perdido da cabeça, capaz de tudo.
Mas foi sol de pouca dura. Afinal, era um fraco. Bastou que o Zé do Café, no seu zelo de guardião da tranquilidade dos clientes e da paz do lugar, lhe viesse por uma mão timorata no ombro para que o arreganho do homem se esboroasse, a carcaça desmoronada contra o balcão.
Debulhado em lágrimas, lamuriou-se da sua triste sina de viúvo, dos sacrifícios passados para criar aquela filha ingrata que , com ardores de cadela com o cio, lhe estava sempre a meter homens portas a dentro, mal o apanhava fora de casa.
- Mas a este estive quase a apanhá-lo com a boca na botija. Nem teve tempo de calçar os sapatos. - Fungou, enxugou lágrimas e ranhos a um lenço surrado. Abanou a cabeça, desolado. - Foi melhor assim, podia ter acontecido uma desgraça. Por causa duma cabra com aquela.
- As mulheres são todas umas ingratas - assentiu o Zé do Café, atirando um olhar desgostoso à mulher que, passado o vendaval, rebolava o traseiro por entre as mesas, atiçando o cio da freguesia.
Os sapatos alaranjados do ti Pimpão, presos por mão cada vez mais mole, acabaram por tombar no chão onde ficaram de ventas arreganhadas por um sorriso trocista atirado aos nossos olhos.
No dia seguinte, domingo, às três horas da tarde em ponto, o ti Pimpão reapareceu no café. Sem nos conceder a mercê dum olhar, pediu uma bica e uma água mineral, acendeu um cigarro e traçou a perna. Nos pés, um cambado par de botas de trabalho. No acto de pagar a conta, as suas palavras soaram como pedradas :
- Ouve lá, ó Zé, não estão para aí uns sapatos meus que alguém veio cá trazer ?
Agarrou os sapatos que o Zé, com cara de poucos amigos, lhe estendeu, meteu-os debaixo do braço e sempre com um sorriso desdenhoso fisgado nos lábios, dirigiu-se sem pressas para a porta de saida.
Já com um pé na rua, voltou a cabeça e atirou-nos a pedrada mortífera :
- Cambada de maricas.
Estávamos destroçados.