Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Manuel Carvalho



O TI MAGALHÃES


O ti Magalhães nascera num berço de oiro, no seio duma das famílias tradicionais da região. Ainda muita gente se recordava do pai dele, um daqueles médicos de aldeia, meio aristocrata, meio lavrador, distante e inacessível, a cuja passagem os camponeses timoratos dobravam servilmente a espinha e descobriam as cabeças. O próprio irmão, o senhor coronel Magalhães, reformado do exército, que habitava o solar familiar, situado à saida da aldeia, a caminho da Ponte da Pedra, ainda suscitava, à sua passagem, naturais manifestações de deferência e respeito devidos à sua estirpe.
"Uma cavalgadura", referia-se-lhe com desdém o ti Magalhães, ultrajado com este inadmissível, a seus olhos, servilismo. Mas é muito provável que, em tempos recuados, na sua juventude, quando ingressara na academia naval e, depois de concluido o curso, dava os primeiros e promissores passos como oficial da marinha, também o ti Magalhães tivesse beneficiado do mesmo tratamento respeituoso. Mas isso é pormenor que não posso comprovar e que, bem vistas as coisas, não interessa muito para o desenrolar da história. Quanto muito, só poderá ter certa utilidade para ajudar a precisar certos traços da sua personalidade, tais como uma certa propensão para a arrogância e para o autoritarismo.
Como geralmente acontece no caleidoscópio da vida, os acontecimentos precipitaram-se de modo imprevisto. Após a morte súbita do pai, fulminado por uma apoplexia, o jovem marinheiro regressou inesperadamente à aldeia. Refugiou-se na casa, encostada à igreja, que lhe tocou em herança, e que, ainda hoje, já em ruinas por falta de conservação, lhe serve de guarida.
Esquecidos galões, fardas e promissora carreira, entregou-se a um eremitismo só quebrado à hora do entardecer para ir saborear uma bica ao café, altura que aproveitava para vazar em público as elucubrações congeminadas durante as longas horas de reclusão. E trazia a boca cheia de palavras secas e rudes que afugentavam os aldeões timoratos. Falava de ascetismo, de frugalidade, de renúncia aos prazeres e, o mais assustador naqueles tempos negros, de liberdade. A liberdade nascida da renúncia. Conceito incompreeensível para aquelas pobres gentes que sonhavam, dia e noite, com uma mais farta côdea de pão.
Quando, mal administrado, o naco da herança que lhe tocou se esfumou, devorado pelo bando de abutres que acorreu ao banquete farto e inesperado, o ti Magalhães começou a alugar a força dos braços em ocasionais trabalhos agrícolas sazonais ou então pelas serrações que começavam a proliferar. Acredito que foi nesta transição da sua vida que a tábua-rasa dos aldeões o atirou para o rol dos ti-todo o mundo, sem que ele tivesse prestado qualquer atenção a esta degradação de tratamento.
Entrava eu então nos meus dezoito anos cheios de sonhos e revoltas. Vezes sem conta perdi festas e romarias para ficar à sua beira a sorver-lhe as invectivas contra o pobre rebanho humano que caminhava, pelas veredas da vida, de olhos cegos pela ambição e pela luxúria.
Já devorara então umas boas dezenas de livros, experimentara o sabor dos primeiros amores e emborcara uns avantajados copos de tinto ao balcão ensebado das tavernas. Sentia-me, pois, no direito de deixar crescer a barba e de substituir o cigarrito furtivo por um fumegante cachimbo que empestava os ares por onde passava.
Um dia o ti Magalhães, quando me viu entrar no café naquele preparo, chamou-me à parte. E deu-me uma daquelas lições devastadoras que ficam para sempre gravadas na memória.
"Ouve lá! Perdeste o juízo? Ainda aqui há dias te ouvi, e muito bem, criticar o senhor Afonso que anda para aí a exibir o seu mercedes, como uma provocação à miséria do povo e tu acabas por fazer exactamente como ele? Enquanto ele exibe os seus bens materiais, tu fazes gala dos teus atributos intelectuais, atirados ofensivamente à ignorância e ao analfabetismo do povo a quem foi negado o direito ao saber e ao conhecimento. Vai já cortar essa barba e atira imediatamente esse cachimbo para o lixo."
Saí dali murcho e de orelhas a escaldar e só não lhe obedeci devido a um daqueles acessos de rebeldia juvenil próprios da idade. Mas passei a evitar os dardos acerados dos seus olhos dum azul metálico e incriminatório.
Passados dias, o ti Magalhães, rodeado e escutado por um grupo de rapazolas enleados pela sua verbe, perorava mais uma, com inspirada eloquência, sobre a decadência humana. Foi quando o Chico, inquietado por profundo imbróglio metafísico, se lhe dirigiu com humildade: "Mestre, esclareça-me uma coisa ..."
O ti Magalhães voltou solenemente a cabeça calva para o discípulo e, para espanto meu, vi-lhe rebentar no lago profundo dos olhos azuis, uma quase imperceptível bolha de fatuidade.
Desde esse dia, o ti Magalhães começou a passear pela aldeia o seu título de Mestre, com a mesma presunção com que o senhor Afonso exibia o seu mercedes ou com que eu ostentava a minha barba e o meu cachimbo.
Afinal, o Mestre era feito do mesmo barro humano que todos nós.


Manuel Carvalho
paula@total.net

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