O exterminador passa por nossa casa pelo menos uma vez por ano - algo que já faz há muito. Graças às suas intervenções podemos dizer que insectos indesejáveis param pouco ao lado de fora, ou dentro, de casa. $45.00 por ano - um dos meus melhores investimentos. Foi contratado por primeira vez quando descobrímos que uma de nossas paredes adjacentes a um dos banhos estava sendo destruida por uma colónia de "water ants", um tipo de formiga com asas que dorme no verão e no inverno para que assim possa desenvolver energia suficiente para comer uma casa inteira na primavera. Felizmente nossa casa é de tijolo, o que limita àqueles insectos a procurar madeiras interiores - principalmente as situadas perto de lugares com potencial de se molharem, como é o caso com qualquer parede perto de quartos, ou
cubículos, de banho. Para quem desconhece aquela praga, basta dizer que gastei mais de U. S. $1.000,00 para reconstruir uma nova parede interior - gasto não coberto por seguro, visto o trabalho dos insectos haver sido considerado um acto de Natureza. Desde que contratei o exterminador, no entanto, nunca mais tive nenhum problema. De facto nem o cão tem sido vitimado por pulgas.
Minha mulher, no entanto, é un dínamo. Necessita estar constantemente ocupada. Apesar de aposentada da Washington University em St. Louis, Katherine trabalha práticamente de 30 a 40 horas por semana em serviços voluntários. Há anos, aliás, chegou a preparar toda a comida quando o grupo de canto coral da Harvard University visitou St. Louis num percurso de relações públicas. Há que anotar que Katherine nunca estudou na Harvard, mas, sim, na Universidade de Boston e na de Missouri. É dizer não devia nada àquela instituição. Eu, sim, mas nem sequer me foi permitido entrar na cozinha. Além disso, uma vez em casa, Katherine sempre encontra aquelas imperfeições que qualquer casa
tem. Ou é isso, ou aquilo, ou aquele outro. Na primavera, por exemplo, tem que atender ao jardim. Compra, então, dezenas de plantas, as quais transfere para o jardim, permitindo que nossa casa não seja rodeada somente por prado e árvores. Naturalmente, as flores trazem abelhas, apesar do exterminador.
Nossa casa é tipicamente americana, estilo "ranch". A garagem tem espaço para dois carros e demais despejos. Além disso é onde Katherine guarda o novo plantio primaveral até à plantação. Guarda tudo perto da porta num rincão onde nada prejdicará nada. A garagem tem porta com fechadura electrónica, a qual é aberta automaticamente de dentro dos nossos carros, ou dentro da própria garagem - como as demais do gênero. No entanto, no dia de plantação, Katherine, optou por ter a porta da garagem aberta para assim poder estar dentro e fora sem o incoveniente que abrir e fechar causariam - algo que já faz há anos.
Este ano, no entanto, tivemos uma surpresa. Uma tarde, como é meu costume, necessitei alimentar os pássaros. Fui ao armário onde guardo as sementes e descobri que algum outro animal havia entrado na garagem e se aproveitado de uma pequena parte daquela refeição. Minha primeira reacção foi queixar-me dos esquilos, os quais, como já descrevi anteriomente, são os melhores ladrões em qualquer jardim. Aliás, há anos descrevi um caso em Danbury, Connecticut, onde meu primo, António
Francisco da Mota, havia perdido todo o cultivo de amendoim de seu quintal quando o deixou num cafuão a secar. Esquilos normalmente quando roubam deixam pouco para outras espécies. O que me ocorreu quando abri o saco para os pássaros. Como foi possível, perguntei, que o animal teve tempo suficiente de roer, comer, e ainda deixar para outro dia - ou para outros.
Nunca me ocorreu que poderia haver sido caso de "field mice" (murganhos de campo). Em mais de trinta nos de residência no mesmo lugar nunca havíamos sido invadidos, apesar da casa estar no andar
térreo. Até que semanas atrás entrei na garagem pela porta da casa que dá para lá e vi que um daqueles animais fugia de mim, escondendo-se por detrás do armário onde guardo as sementes. "Ah, you son of a
bitch!" disse em inglês. Abri o armário tentado encontrar meu "inquilino", mas sem resultado. Em seguida movi o móvel para ver onde poderia encontrar algum ninho. Nada. Decidi colocar as sementes dentro
de uma lata tapada. Sem que ele tenha que comer, assumi, o bicho buscará onde sobreviver. E buscou...
Há duas semanas, após longa conversa no "Bate Papo" na Internet patrocinado pelo jornal, Folha de São Paulo, decidi deitar-me à 1 da madrugada. Ao entrar na minha sala de dormir descobri que o meu
"amigo" da garagem me esperava em cima da cómoda. Tentei apanhá-lo, despertando minha mulher no processo, e resultando em que ela mudou de quarto. Por minha parte fiquei acordado até mais ou menos as 5 da madrugada, já que o bicho parecia de quando em quando roer, dando sinal de si.
No dia seguinte comprei duas ratoeiras de murganho as quais coloquei sob a cómoda após havê-las recheado de queijo. Estão lá ainda sem que meu "amigo" haja regressado. No entanto minha mulher continua a dormir no quarto que antes era de uma de nossas filhas. Felizmente - ou infelizmente - Katherine descobriu para onde o murganho se havia mudado - para detrás de um armário na cozinha, o que nos levou a inventar novos processos higiénicos para guardar pratos, talheres, etc. Visto aqueles armários estarem permanentmente colocados nas paredes, e visto, como disse anteriormente, nossa casa ser de tijolos e construída para combater os furacões do "Midwest", ter que tirar os armários é algo de pouco sentido. Foi então quando decidímos entrar no Século XX combatendo o murganho com veneno. Infelizmente quatro dias após descobrímos que o bicho deveria ser parente, ou descendente, do
frade russo, Rasputin, o qual apesar de ser envenenado na Corte de Alexandre II com veneno suficiente para acabar com um exército, resultou ainda mais forte do que havia sido anteriormente. Foi
portanto quando decidímos novamente regressar aos processos de sempre. Uma vez mais comprámos duas ratoeiras, as quais recheámos com pedacinhos de queijo "cheddar" - do melhor. Em minha casa, geralmente se come bem.
Ontem à noite, ao chegarmos da Festa de Thanksgiving que celebrámos com nosso consogro, Donald Soffer, dirigi-me imediatamente à gaveta onde eu havia colocado nossa "armadilha". Dois murganhos
encontravam-se presos, um morto, e o outro ainda vivo tentado roer sua cauda para poder escapar. Havia levado o objecto a uns dez centímetros do local onde eu o havia colocado. Peguei nos dois e levei-os para o quarto de banho, onde esperava despachá-los, graças ao forte autoclismo que em breve os mandaria para o sistema de saneamento da Zona Metropolitana de St. Louis. De repente Katherine gritou:
"Não o faças," disse. "E porquê, não?" Perguntei.
"É que um ainda está vivo. Seria mais humanitário levá-lo ao fundo do jardim, longe de casa, e deixá-lo por lá em lugar de o afogar." Além de dinâmica, Katherine é extremamente carinhosa.
Já quando Katherine acabou de falar, o murganinho encontrava-se nadando com seu colega morto esperando a onda de água que em breve os levaria velozmente aos esgotos de St. Louis. Se chegou a seu destino afogado, não sei. O que sei foi que, logo em seguida, armei novamente as ratoeiras. Em menos de uma hora, ao desligar o televisor, ouvi um ruído que pareceu haver procedido da tal gaveta. Fui ver. Mais um murganho se encontrava preso pelas patas, tentando escapar. Katherine já se encontrava dormindo. Desta vez não tive argumento na "compra de passagem" para o visitante. Pela manhã, ao despertar, encontrei mais um, cuja morte foi talvez instantânea. Estou seguro que não será o
último. Aliás, tenho queijo fresco à espera.
COMENTÁRIO
Como sabemos, o humano é o único mamífero que necessita ser educado para que possa sobreviver. Mesmo em sociedades primitivas, pais necessitam ensinar o mínimo que mais tarde seus descendentes
necessitarão. Tão grande tem sido aquela necessidade que na sociedade moderna existe quem por anos necessite ajuda onde altos níveis culturais demandam estudos extensivos. No entanto a verdade é
que, apesar de tudo, o humano tem poucas opções. Geralmente a Natureza nem liga para o que passa entre os vários seres que ocupam o planeta. É dizer, para a Natureza somos todos totalmente insignificantes - ou iguais - cada com sua função no esquema do que nos foi proporcionado.
O murganinho sobre a cómoda da minha sala de dormir jamais se preocupava com que, a poucos metros, uma senhora com dois diplomas universitários se encontrava dormindo. Fazia o que tinha que fazer.
Nada mais, nada menos. Pouco lhe importava que, numa sala adjacente, eu havia estado em contacto com gente onde o clima, estação, e ambiente total era diferente do meu. Seus valores, se tinha alguns,
eram relativos. O que me faz recordar a velha piada de meus tempos adolescentes.
Um pescador da Calheta, em Ponta Delgada, homem quem nem sequer havia frequentado a velha "Escola do Sr. Palha", encontrava-ve com um padre pescando de barco por detrás da "doca", onde o mar era fundo e, de quando em quando, bravo. O padre rezava, missal numa mão, caniço na
outra.
"Sô Padre," disse o pescador, "qu'é que tá fazende? O senhô tá qui p'ra ler, ou pescá?"
"Homem," respondeu o sacerdote. "Estou rezando enquanto pesco. Tu não rezas?"
"A verdade, Sô Padre, é que não sei rezá."
"Filho," disse o padre. "Tens que aprender. Se não rezas, não te salvas."
Mal havia o padre acabado quando uma onda inesperada revirou o barco. Ambos caíram no mar. O pescador, naturalmente, dirigiu-se imediatamente para o ponto mais perto do Molhe Salazar, nadando
fortemente. O padre por sua parte gritava:
"Ajuda-me porque não sei nadar."
Ao que o pescador respondeu oportunamente:
"Reza, Sô Padre. Reza."
Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri.
28 de Novembro de 1997
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