CARTA DA AMÉRICA
EM BUSCA DA HISTÓRIA E DE UM POETA
Dizer que me sinto desanimado, não seria dizer tudo que sinto. Por anos vivi na esperança que um dia a nossa gente encontrar-se-ia com o 25 de Abril, ou o 26, ou 27 - quem sabe que data, realmente - e que daquele dia por diante pararíamos de temer as forças que oprimiam a expressão e que, através da mentirada, ou da história escondida, mantinham vivo um Portugal já há muito falido. Então o povo demonstraria através de seus escritos, de suas opiniões, etc, sua aptidão para enfrentar o Século XXI, apresentando novamente suas grandes capacidades, e aquela parte da nossa história da qual todos nós vivemos e nos orgulhamos.
Como eu errava no que esperava ... Verdade que a censura desapareceu e que velhos ideais terminaram seu sono após um longo inverno. No entanto, é triste ver que a maioria da gente continua adormecida, ou desprezando suas capacidades. Há dias, por exemplo, comunicava com António J. Ribeiro, o qual mantém uma WEB PAGE na INTERNET intitulada PORTUGAL EM LINHA e com a qual é sua esperança um dia unir a nossa gente espalhada pelo mundo através de nossos sentimentos poéticos, ou pseudopoéticos, artigos de opinião, notícias comunitárias, etc.. Enfim, algo comparável às seccões formais e informais de muitos jornais e revistas. No entanto, visto tais jornais e revistas estarem principalmente para servir seus respectivos mercados e áreas relativamente cerca de seus anunciantes, é a intenção de Ribeiro levar PORTUGAL EM LINHA ao mundo, simultaneamente nos convidando a que "regressemos" a Portugal, ou, pelo menos, àquela pátria que é a língua, ou o sangue, português.
Me orgulha em colaborar naquele esforço - da mesma forma que me sinto feliz em colaborar com os jornais que aceitam estas simples crónicas. No entanto, simultaneamente me sinto triste em ver como a oportunidade que Ribeiro nos oferece não tenha sido aproveitada por mais gente. Não falo somente de nós nos Estados Unidos, mas, sim, de gente que talvez ainda sinta algo pela terra onde nasceu. Gente vivendo tanto nas nossas terras natais, como emigrada. Verdade que a maioria de nós ainda está por descobrir como funciona o computador que ajudaria a António Ribeiro na sua missão. Por outra parte, existem entre nós - E FALANDO DE NÓS FALO POR ONDE SE ENCONTRA A NOSSA LÍNGUA - quem passe horas intermináveis jogando infantilmente jogos virtuais, enquanto suas memórias e recordações se quedam estagnadas e. por tal facto, assassinando a nossa história. Porque, realmente, a história não é somente aquilo que se aprende em cartilhas para passarmos exames. A história é tudo a nosso redor - da forma como Fulana lá na terra roubava gatos ao vizinho, ou do Beltrano que todo o mundo considerava preguiçoso visto ele estar desempregado, ou da Sicrana que morreu ao tentar abortar visto seu namorado ter partido de São Miguel para o continente e desparecido de sua vida para sempre, ou da forma que mais ou menos cada sete anos o equivalente da corrente El Niño parecia passar pelos Açores, nem só depositando milhares de toneladas de algas à beira mar, mas, ao mesmo tempo, derrubando muros de pedra seca que delineavam propriedades, ou protegiam quintais, etc..,etc.., etc... É dizer, todos nós somos a história. O facto de havermos chegado ao dia de hoje é comprovante.
Reconhecendo que uma grande parte de nossa gente emigrada tem filhos, netos, bisnetos, etc. cujas línguas escritas se limitam às que eles aprenderam nas suas respectivas escolas, Ribeiro acaba de abrir uma nova secção de PORTUGAL EM LINHA onde línguas além da nossa (inglês, francês, sueco, espanhol, alemão, etc.) serão publicadas. Deve ele a ideia a um micaelense, José Teixeira, de Somerville, Massachusetts, e a Donna Gatinha Gomes Austin, norteamericana da Califórnia, (só ela e as autoridades sabem de que geração) de ascendência madeirense, e açoriana. Teixeira lê e escreve em português, mas devido à idade em que emigrou se sente mais confortável com o inglês. Donna Austin, por sua parte, gostaria de conhecer algo mais de suas raízes. Tão grande é seu interesse em descobrir quem é, que há pouco me perguntou porque razão um irmão que visitou a Madeira causou risadas ao perguntar onde ficava A CASINHA, enquanto sua avó, octogeriana micaelense, lhe dizia que CORISCO é uma praga que Deus não perdoa. Donna, no entanto, não é a única pessoa com perguntas. Um Frank qualquer perguntou-me porquê quando era rapaz tinha que beijar a mão da avó, enquanto dizia: "Vavó sabence", e ela respondia "destabenssoo''. Minha explicação pode ser encontrada na INTERNET (http://www.lusaweb.com/voices.htm), na Seccão FORUM. É dizer, vivemos num mundo que, apesar das histórias oficiais, busca sua história - a história verdadeira da cada um de nós. Vivo no entanto desanimado em descobrir que são poucos os que queiram divulgá-las individualmente, sem reconhecerem que, em conjunto, enriquecer-nos-ão. É uma vergonha, realmente, deixar que a tão importante matéria permaneça somente com aqueles cujos limites se encontram entre duas capas de um livro.
Graças a Deus, no entanto, Ribeiro não se desanima tão rapidamente como eu. Talvez por ser mais jovem, suponho. Recentemente ele me sugeriu que Gilberto Vasconcelos, o "Gilberto 'Explicador'", ou o "Gilberto 'Manco'", como era conhecido no meu tempo, deveria ter um monumento à sua obra poética - um livro, de facto - através de PORTUGAL EM LINHA. Para quem conhece Ponta Delgada, o Gilberto por anos teve uma sala de explicações liceais na Rua João de Melo Abreu, perto da antiga Loja do Meio Quilo. O Gilberto morreu do alcoolismo, do desprezo, e da pobreza em 1971, deixando ao vento a grande parte das poesias assinadas com o nome de Gilvás. Na opinião de Ribeiro, Gilberto Vasconcelos (Gilvás) tem todo o direito a reconhecimento como um dos grandes poetas açorianos de nossos tempos. Agora resta conseguir a possibilidade de encontrar seus trabalhos. Neste momento eu, por sorte, tenho nove em minha casa, os quais enviarei a PORTUGAL EM LINHA, e um pequeno trecho biográfico que me foi oferecido há anos pelo Dr. Ruy Galvão de Carvalho. Gostaria imensamente se quem não tem meios de chegar à INTERNET, mas tenha alguns trabalhos daquele poeta, tivesse a bondade de os enviar a: Manuel L. Ponte, 23 St. Alfred Road, Olivette, Missouri, 63132, ou, caso tenha meios na INTERNET, a: admin@portugal-linha.pt.
Solicito igualmente que, quem tiver alguma foto de Gilberto Vasconcelos que queira, ou possa, dispensar, o favor de enviá-la aos endereços acima mencionados. Agradeço de antemão.
No entanto, uma vez mais solicito que me tirem desta tristeza que sinto apoderando-nos da liberdade da expressão que sempre foi nossa mas que, por décadas, idiotas tentaram nos roubar. Ajudemos a manter nossa história viva e vibrante. Sejamos todos historiadores. Não ténhamos vergonha do que fomos, ou do que somos. Lembremo-nos que, ao menos por uns tempos, Camões não foi grande coisa quando aparecia lá pelo que são hoje os lados do Chiado.
VIVA!...
St. Louis, Missouri
11 de Fevereiro de 1998 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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