Joe S. era um rapaz de talento. Aliás, se na aula de literatura do Mr. Diehl havia quem eu mais admirasse era ele. Não o Paul Doherty, o líder em notas, ou o Jimmy Howard, que tentava competir com o Paul,
mas, sim, o Joe S., o qual tinha uma capacidade que, convertida positivamente, poderia lhe haver trazido grandes benefícios.
Frequentávamos a Rindge Technical. Dezoito rapazes preparando-se para um futuro universitário numa classe de 186 alunos. Joe S. não se encontrava entre os dezoito, apesar de um professor haver reconhecido seu talento e insistido que ele frequentasse as nossas aulas em lugar das normalmente reservadas para aqueles que, uma vez terminada sua educação secundária, terminariam simultaneamente seus estudos.
Joe S. vivia em East Cambridge, Estado de Massachusetts. Para quem desconheceu aquela parte da cidade nas décadas de '40 e '50 basta dizer que a zona parecia dividida em "bairros étnicos", com talvez
mais igrejas católicas por metro quadrado que o Vaticano. Aliás, ainda tem uma cujos paroquianos de ascendência polaca, apesar de católicos, não obedecem a Roma. Um pouco adiante - a menos de duzentos metros, conforme voa o pássaro - há outra, também polaca, cujos paroquianos seguem o catolicismo romano. A Igreja de São Francisco, no entanto, igualmente a duzentos metros das acima mencionadas, tem italianos como aderentes. Um pouco mais ao norte encontra-se a Igreja do Sagrado
Coração, que, além de servir a colónia irlandesa, serve simultaneamente como "união" das etnicidades quando estas se juntam através de matrimónios, etc.. Joe havia sido baptizado na Igreja do
Sagrado Coração, visto seu pai ser de ascendência italiana e sua mãe polaca. Esta coincidência resultou em que acabei por ir à missa na Igreja do Sagrado Coração, onde eu me encontrava com meu amigo, abandonando a Igreja de Santo António, a qual servia a colónia portuguesa. Ao passar dos tempos, e através da nossa amizade, conheci sua família (Pai, mãe, irmã, e irmão), cada um parecendo ter problemas pessoais que, ao menos para mim, não faziam sentido. A mãe parecia totalmente temerosa do marido. A irmã, por sua parte, casou antes de terminar o liceu, talvez devido a uma gravidez inesperada. Quanto ao irmão, começou jovem a sofrer do alcoolismo e de problemas sociais, ou
legais. O pai, por sua parte, não trabalhava, o que me parecia raro visto eu conhecer muita gente que, apesar do que havia sofrido na Segunda Guerra Mundial, mantinha a dignidade do trabalho. Quando o
conheci por primeira vez ele deveria ter mais ou menos 45 anos. Não bebia, nem fumava. No entanto passava seus dias sentado no segundo degrau ao lado de fora de sua casa, quando a temperatura o permitia, comentando do que acontecia, ou, então, lendo "The Racing Form", periódico dedicado aos hipódromos americanos. De quando em quando era visitado por um ajudante de enfermeiro, Earl Cooke, o qual nunca entrava no edíficio, mas, que, como o pai do meu amigo, também parecia conhecer tudo o que acontecia no Suffolk Downs, em Boston, quando os cavalos lá corriam durante a temporada. Aliás, Cooke muitas vezes abandonava o trabalho por períodos de até noventa dias para se dedicar às apostas até que seu dinheiro desaparacesse. Uma vez sem fundos, regressava ao trabalho e, como residia no hospital, onde tinha cama, mesa, e roupa lavada, desaparecia até poder retornar a seu "vício".
Cooke nunca viajava fora de Boston. Aliás, parecia fazer do lado de fora da porta da casa do meu amigo seu "escritório". Cooke nunca falava mal de ninguém. Era tolerante e extremamente religioso. Apesar
de seu "vício" com os cavalos, ganhava a vida honestamente. O que não podemos dizer do pai do meu amigo, que, a meu ver, ganhava a vida legalmente, mas desonestamente.
O homem era uma enciclopédia de comentários negativos. Durante a Segunda Guerra havia trabalhado nos Estaleiros de Quincy, onde teve um acidente que o "desabilitou" apesar de o deixar capaz de se mover para qualquer parte. Graças à "desabilitação", recebia uma mensalidade do governo e cuidado médico gratuito. Verdade que, talvez devido ao acidente já não se sentisse capaz de trabalhar na sua antiga profissão. Não havia razão no entanto para que passasse a vida como passava, ou, pelo menos, criticando os chinos da lavandaria ao lado da sua casa. "Estás vendo," dizia a quem o escutava. "Já são nove da noite, e os chinos, filhos de p..., continuam a trabalhar. Pai, mãe, filhos, sogras, filhos de p... Não vão p'ra parte nenhuma. E só trabalhar, trabalhar. Gente que não sabe viver. Deveríamos pegar nos filhos de p... e mandá-los p'rá China. É todo o dia a lavar, secar, e passar roupa. Todo o dia. Uma raça que não presta p'ra nada."
Visto não querer contrariar o pai do meu amigo, eu jamais comentava. Além disso, como imigrante, me receava contestar uma pessoa pronta a tirar dos chinos que trabalhavam o que alguns parentes meus nascidos na América haviam afirmado quando lhes informei que eu esperava continuar meus estudos na universidade. "O quê? Universidade? Estás louco. Este país já te deu bastante e só estás cá há três anos. Vá trabalhar porque não és melhor que teu pai, nem que teus primos."
Ser "melhor", para certa gente é algo que pertence somente aos de fora. Não aos nossos. Então, para que não escutasse o mesmo tipo de argumento procedente do pai do Joe, calava-me.
Em 1956, no entanto, mudei-me para Nova Iorque. Apesar de haver regressado a Boston para casar em 1957, continuei a viver naquele estado, onde eventualmente comprei uma casa, na qual permaneci até me
mudar para St. Louis. Em 1960, no entanto, ao passar por Cambridge para visitar meus pais, decidi dar um passeio pela Cambridge Street para matar saudades. É algo que faço ainda hoje. Por acaso passei pela
casa do meu antigo amigo, onde seu pai, como sempre, se encontrava sentado à porta. "Olá, Sr. S.," disse. "Como vão as coisas?..."
"Ah, Manny, se tu soubesses. É cada dia mais horrível..." E começou seu comentário, terminando com: "E não é só isso. Lembras-te dos chinos filhos de p... que tinham a lavandaria aqui ao lado? Bem, já
não estão cá, os filhos de p.... Hoje vivem em Arlington, onde têm uma lavandaria ainda melhor."
"E que tem isso a ver com a desgraça que me descreveu?" Perguntei inocentemente.
"Que tem isso a ver com a desgraça? Estás louco? Olha. Aqueles filhos de p..., que nunca foram a parte nenhuma, que mal falavam inglês, e que só sabem lavar e secar roupa, hoje são os donos desta casa onde eu moro. Olha, eu nasci na América, e fui ferido na Guerra. Mas quem é o dono do lugar onde moro? Os chinos filhos de p..."
"Pensei que o senhor tinha tido um acidente nos Estaleiros de Quincy." Comentei ignorando os chinos.
"A mesma coisa. Me magoei enquanto estávamos construindo barcos para salvar o mundo. A China, inclusive."
"E isto foi suficiente para que o senhor nunca mais trabalhasse?"
O homem fitou-me com olhos de matar. Havia-me atrevido a perguntar uma pergunta à qual, por aproximadamente vinte anos, ele nunca havia querido responder. Preferia, então, atacar quem não o enfrentava, mesmo quando suas alegadas "vítimas" (Como "os chinos filhos de p...") se encontravam entre os pagantes de impostos que alimentavam sua indolência.
Já se passaram mais de trinta anos desde o incidente. O Sr. S. já faleceu. Não sei por onde param os chinos, ou se são todavia donos do prédio onde a familia S. morava. O que sei é que, apesar da forma
acolhedora da América perante seus imigrantes, não deve existir um imigrante que não tenha escutado estupidezes comparáveis às que eu escutava do Sr. S., ou dos meus parentes que consideravam que eu não deveria melhorar minha situação visto meus primos nascidos cá não haverem aproveitado este paraíso que é a América. É dizer, apesar da forma acolhedora do país, somos para uma parte dos que cá já estavam como os tais "chinos filhos de p...". A ironia é que, apesar dos Srs. S., a maioria do povo americano não é assim. É um povo apreciador dos nossos valores e contributos à sociedade. Há dias, por exemplo, para combater uma idiotice similar às idiotices que o New Bedford Standard Times descobre de quando em quando para criticar os recém chegados de língua portuguesa que não se "adaptam", ou não se "americanizam", apareceu uma piada em St. Louis, a qual contradizia os boatos que um
jornalista local havia descoberto com relação aos "gangs" vietnameses que alegadamente começaram a aparecer por estas partes. Apontando para o sul da cidade de St. Louis, onde muitos jovens de ascendência europeia parecem haver perdido os incentivos de seus antepassados e adoptado uma atitude onde a escola é nada mais que um passatempo, e não um lugar onde se aprende a enfrentar o futuro - o que não acontece com o imigrante asiático - a piada então descreve um incidente onde a
polícia é chamada a um apartamento para investigar uma entrada ilegal.
"Foram vietnameses," afirmou a dona da casa.
"Vietnameses," perguntou o investigador. "Como sabe?"
"Fácil." Respondeu a senhora. "Em primeiro lugar, não roubaram nada. Segundamente, completaram todo o trabalho de casa que meu filho já deveria haver apresentado na escola desde o ano passado."
Por acaso, parte do problema do meu amigo Joe quando estudava foi que nunca gostou de apresentar trabalho de casa. Pena, então, que os chineses não pensaram em assaltar seu apartamento em vez de sua
dedicação à lavandaria. Hoje, talvez o Joe S. teria vários títulos universitários - ou pelo menos poderia ser dono da casa onde seus pais moravam.
St. Louis, Missouri
4 de Agosto de 1994 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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