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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA
"SELF-MADE MAN" E DOIS PADRES


"Self-Made Man". Tradução: "Homem Feito Por Si Mesmo".

A versão portuguesa não tem o impacto da norteamericana. "Self-Made Man" tem uma certa inflexão que parece gerar mais cabelo no peito. O "Self-Made Man", ao meu ver, fuma Marlboros sem temer as consequências do fumo. Já votava por Ronald Reagan, antes da concepção do presidente que pouco sabia e de que ainda menos se recorda. Apesar de viver onde não existem árvores, o "Self-Made Man" desperta-se pela madrugada disposto a derrubar metade da floresta.

Enfim, o "Self-Made Man" é geralmente um idiota sem noção de que todos nós somos um pontinho no universo onde tudo o que conseguímos foi-nos deixado na rota evolucionária em que viajamos. Dizer, portanto, que somos "feitos por nós mesmos" é contrariar-nos. Eu, por exemplo, devo muito a padres. Tais, como o Padre João Amorim, de São Roque, ou o Padre Couto, de Ponta Delgada. Influenciaram-me sem que soubessem que o faziam. Da mesma forma que muitas outras pessoas me influenciaram sem que eu lhes atribuisse seu devido crédito.

O Padre João, por exemplo, eliminou a culpa que minha mãe sentia, quando ainda em solteira roubou uma galinha. Pobre Isabel "Figueira". Vivia na última casa de São Roque - isto é, utilizando Ponta Delgada como ponto de partida - a última do Pico das Canas, antes de chegar à Canada das Silvas, e ao Livramento. Era uma casa de lavrador, abastada, com adega e cocheira ao lado, e um grande pomar. No quintal havia comida de sobra. Dois chiqueiros e não sei quantos galinheiros. Sua irmã maior, Maria da Luz, no entanto, vivia na Canada das Figueiras, um pouco mais abaixo. Era casada com um camponês, João da Mota, que nunca havia gostado da vida do campo, a não ser que a propriedade fora sua. É dizer, trabalhava pouco para outros. Defendia-se, então, da estiva, quando havia trabalho.

Maria da Luz, no entanto, tentava manter-se sob tais desagradáveis circunstâncias vivendo como podia. Por sua parte, minha mãe, ao ver a pobreza da irmã, e a má nutrição a que se submetia, um dia decidiu levar-lhe uma galinha - "da casa de seu pai", visto naquela época direitos humanos "da porta p'ra dentro" serem nada mais que os direitos do "papá".

Naturalmente, a galinha não escapou seu destino. Isabel, no entanto, recordando seu "crime", temia a possibilidade de se confessar. Até que um dia, reconhecendo que sem o Sacramento da Penitência não subiria ao altar matrimonial, submeteu-se, contando o assunto ao Padre João.

"Mulher," disse-lhe o vigário. "Qu'é agora isso. Tu não roubaste nada. Levaste uma galinha de teu galinheiro para alimentar tua irmã. Deverias ter levado ainda mais". Nem uma Ave-Maria lhe mandou rezar. Tempos após, Isabel "Figueira" casou-se. Sou produto de sua união.

Em reflexão, me sinto seguro que, mesmo que minha mãe houvesse cometido pecado, o Padre João seria a primeira pessoa a dizer-lhe que ela não o havia feito. O santo homem, nem so aliviava almas em São Roque, como, também, corpos. Foi a primeira pessoa que conheci dedicada à homeopatia. E, dado que em São Roque da minha infância eram poucas as famílias com dinheiro suficiente para médicos, imaginemos a confiança e bem estar que o Padre João proporcionava a quem lhe batia à porta. Além disso, o Padre João vivia com uma velha amante. Verdade que quando cheguei a conhecer-lhe, já o cura era idoso demais para que a quizesse por mais que uma companheira. Sinto-me seguro, portanto, que o Padre João vivia em forma mais ou menos aceitável à classe sacerdotal. Contudo, o Padre João não era celibatário. Seu neto, e meu colega liceal, António Frazão foi um dos resultados da união do Padre João na sua juventude com uma moça, ali p'ró lado do Cabouco.

Naturalmente, conhecendo a história do Padre João, sinto-me semi tolerante quando enfrento ultra piedades, a quais em geral considero como cínicas ou confissões de homem incompleto - ou frustrado. Para mim, o bom padre é aquele que sabe pecar. Apresentem-me a um padre pecador, a um que não queira me salvar a alma, e apresentar-me-á a um amigo íntimo. O que me leva, então, à minha relação com o Padre Couto.

Era um pobre, já velhinho quando o descobri. Vivia para o lado da Rua da Vitória, e todas as manhãs se dirigia com uma velha pasta e uma sacola na mão ao que tinha que fazer na Igreja Matriz de Ponta Delgada. Geralmente caminhava pela rua ao lado do Liceu, atravessado o jardim em frente, baixando pela Travessa da Conceição, e, algumas vezes, continuava pela Rua do Brum, até chegar ao velho Açoriano Oriental. Voltando à esquerda, seguia então para a igreja. Em outras ocasiões, optava por voltar da Conceiçao para a Machado dos Santos, descendo pela António José de Almeida até seu destino. Não sei porquê, mas sempre que me encontrava com o Padre Couto era dia de mau azar para mim. Naquela época ainda não tínhamos psicólogos capazes de nos explicar os problemas da adolescência. Em casa, qualquer questão acabava em pancadaria. No Liceu, em falta, ou outros tipos de punições. Verdade que nem um nem outro sistema me melhoravam os problemas, ou me ajudaram a ser pessoa melhor, mas, enfim, não convém recordar estupidezes usadas como opções de amor, paciência, e profissionalismo.

Por má sorte, nunca tive grande capacidade manual. Minha caligrafia, por exemplo, é péssima. Quanto ao meu desenhar, nem falar. Sofria o diabo quando tinha que apresentar meus trabalhos à Dona Maria Emília, ou ao Dr. António da Silveira. Uma tarde fui informado por um dos professores que, se eu não melhorasse, seria chumbado na matéria. Foi-me então oferecida mais uma oportunidade para me salvar, a qual acabou por não me deixar dormir na noite antes do exame. Rezei como nunca. Mais que tudo, pedi a Deus que não me deixasse topar com o Padre Couto.

Pela manhã, antes que visse o sol, dirigi-me ao Liceu, tentando chegar antes de me encontrar com o tal padre "azarento". Tomei caminhos pelos quais ele jamais caminharia, adicionando um ou dois quilómetros à minha costumária rota entre São Roque e o Liceu. De repente encontrei-me frente ao grande portão liceal. Entrei feliz e, ao fazê-lo, benzi-me. Com olhos fechados, agradeci a Deus. Ao abri-los, no entanto, quase que morri. Do fundo do pátio liceal, onde se situavam as retretes, saia o Padre Couto, sua sacola e pasta na mão... O desgraçado, sem dúvida, havia saído de casa mais cedo para aliviar-se quando ainda havia pouca rapaziada no Liceu. Talvez tinha alguns problemas com os esgotos de sua casa... Não importa. Acabei chumbado em desenho. Só passei após as férias de verão, talvez porque os professores sabiam que eu em breve emigraria.

Nunca mais me submeti a nenhum curso de desenho. Quanto ao Padre Couto... Pobre homem. Ainda não o perdoei.

St. Louis, Missouri. 1 de Fevereiro, 1993
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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