Biológicamente, Murphy era um cão. Um boxer, de facto.
Em relação à minha vida, no entanto, Murphy foi algo mais. Foi um amigo fiel, um companheiro na solidão - alguém com quem eu podia expor meus pensamentos como se estivesse enfrentando um problema matemático onde a solução restava comigo e mais ninguém.
Murphy nasceu um pouco fora da Cidade de Nashville, no Estado de Tennessee, em Agosto de 1986. Morreu esta manhã, 14 de Maio de 1988, em Olivette (St. Louis), Missouri. Seu nome foi-lhe dado por minha filha, Laura, com quem viveu durante todo o ano em que ela frequentou seu último ano na Universidade Vanderbilt.
Conheci Murphy por primeira vez quando visitei Laura. Era um lindo e simultnâneamente gentil animal. Em Junho de 1987 Laura regressou a St. Louis temporariamente, antes de começar sua posição com a Citicorp, em Nova Iorque. Como não lhe era permitido ter animais no seu apartamento, então deixou-o connosco. Já Murphy e eu havíam-nos acostumado um ao outro, de tal forma que eu, sem mentir, dizia que a única maneira pela qual Laura readquiriria Murphy seria através de meu último testamento. Quando ela regressou a St. Louis, onde eventualmente casou e montou sua própria casa, adquiriu um segundo cão. Murphy era meu sem questão.
Dizem que todos os atributos que demonstramos vêm de Deus e que nos foram concedidos através dos tempos. Se assim é, Deus foi altamente generoso com Murphy. Nunca encontrei um ser com tanto carinho e amor, ou quem me tivesse ensinado tanto. Por natureza, Murphy era um cão forte. Ao morrer pesava aproximadamente 27 quilos. Poderiamos dizer que, dada sua raça, Murphy era suficientemente forte para causar danos a quem atacasse. Por acaso nunca atacou niguém. Aliás tinha um pequeno
temor de meus netos quanto estes apareciam na sua frente com qualquer objecto na mão que lhes poderia servir de material ofensivo. Sua única agressão consistia em perseguir coelhos, lebres e esquilos no meu jardim. Há anos, num Domingo de Páscoa, por exemplo, apanhou um pequeno coelho, o qual lhe serviu de almoço para aquele dia.
"Ah, Corisco," observou minha mãe, "lá comeste um coelhinho." A crítica foi feita mais com satisfação que por zanga. Aliás, em várias ocasiões ela falou alegremente do incidente.
Quando minha mãe, por exemplo, fechou sua residência em Cambridge, Massachusetts, para em seguida viver connosco em St. Louis, senti que, talvez ela não se acostumasse ao ambiente em que minha mulher e eu vivemos. Temos outros contactos sociais, uma vida completamente distinta da que ela havia conhecido tanto em São Miguel, como na América. Confesso que minha ansiedade foi totalmente inútil. Minha mãe e Murphy fizeram uma parelha inigualável. O animal dormia ao pé de sua cama sobre um tapete que, por fim, foi designado como "o tapete do Murphy". Nunca minha mãe me falou de saudades de Cambridge, apesar que de quando em quando falava de tempos passados, de fulano tal e tal... Sua preocupação no entanto era o Murphy. Naturalmente, quando minha mulher e eu estávamos fora de casa, não era difícil imaginar com quem minha mãe compartia sua comida.
Aproximadamente dois anos antes de morrer, minha mãe, visto já não termos meios físicos adequados para cuidar dela foi viver para uma residência de gente de terceira idade. Um dia, ao visitar aquela casa,
perguntei se as leis de saúde pública permitiam a entrada de animais. "Sim," respondeu a funcionária. "De facto, encorajamo-lo. Animais nem só incentivam idosos a viver, como também a reduzir-lhes a depressão". Então Murphy obteve uma nova missão. Sempre que eu passava a visitar minha mãe, Murphy me acompanhava. Por sua parte, minha mãe sempre guardava um pedaço do que lhe era servido durante suas refeições como brinde para seu gentil amigo. Tão grande era a comunicação entre os
dois que, logo que Murphy entrava no apartmaneto de minha mãe, dirigia-se imediatamente para perto da gaveta onde sabia que lá encontraria seu brinde.
Outros visitantes, ao verem Murphy entrar, então igualmente começaram a trazer seus animais. De tal forma que, por fim, a residência obteve uma cadela, antes abandonada, e em pouco tinha uma residente
adicional, a qual, apesar de não pagar por estar, oferecia em câmbio uma alegria a quem por ela cuidava.
Murphy parecia entender que a Purina Dog Chow, sua comida granulada, logo que eu a jogasse pelo jardim, ou por cima dos quarenta metros da rota de entrada para a minha garagem, estava designada para os corvos e gaios dos quais temos muitos nesta zona. Então deixava-os comer descansamente, muitas vezes estirado no chão testemunhando o evento. Se algum esquilo aparecesse para compartir da comida, no entanto, era perseguido. Desconheço se Murphy apanhou algum, fazendo dele uma
merenda.
Podemos dizer que Murphy parecia transformar todas as vidas em que tocava.
Há tempos, no entanto, minha mulher e eu estávamos numa sala da nossa casa quando ouvímos algo que parecia haver caído de algum lugar alto e batido fortemente contra algum móvel. Fomos ver. Murphy estava pelo chão, cuspo a sair da boca, seus olhos fechados, seu corpo tremendo.
Tentei dizer algo, chamando-o por seu nome. Pouco a pouco voltou a si, primeiro tontamente e, em seguida, como se nada tivesse acontecido. Telefonámos ao veterinário indicando o que havia passado. "Podem passar por cá?" Perguntou. Dissemos que sim. Em menos de quinze minutos estávamos no consultório. Murphy parecia estar bem, mas, como já conhecia o local, e talvez se recordando que quando sempre por lá passava se submetia a algum tratamento, tremia um pouco medrosamente.
O Dr. Frank Levenson levou-o para o quarto de exame, onde já o aparato de extracção de sangue esperava.
No dia seguinte, quando o veterinário recebeu os resultados hematológicos, o Dr. Levenson confirmou que doravante Murphy continuaria a sofrer ocasionalmente ataques similares, os quais não
lhe causariam dores, mas, sim, o deixariam um pouco fora de si. "Há que reconhecer que Murphy já tem doze anos, " disse.
Foi quando de repente este cínico que sou se humanizou. Verdade que, conforme passavam os dias, reconhecia que a morte espera e que jamais se detém permanentemente. Além disso, havia possibilidade de que Murphy morresse antes de mim. O Dr. Levenson, no entanto, recomendou um medicamento, enquanto me fazendo recordar que Murphy teria que o tomar para o resto da vida. E, uma vez mais, na expressão "para o resto da vida" me fez reconhecer que o infinito de quem vive é realmente inexistente.
Esta semana minha mulher percebeu que, apesar do medicamento, Murphy continuava sofrendo seus ataques. Não tão notáveis como o primeiro, mas notáveis no entanto. Além disso, descobrímos que Murphy, apesar de haver sido extremamente limpo, já não era de confiança. Uma vez, por exemplo, sem indicar que queria ir ao jardim, urinou no colchão onde dormia. Por outras vezes, tentando urinar fora, jamais o podia fazer sem grandes dificuldades. Ontem, no entanto, pareceu perder todo o interesse em viver. Pela tarde estirou-se ao sol ao lado de fora de casa como se estivesse morto. Seu pelo antes acastanhado e brilhante, se havia transformado num grisalho indicando que a velhice havia chegado. No entanto seu procedimento demonstrava que, ou estava em dor, ou a morte se aproximava.
Telefonámos uma vez mais ao veterinário. Por sorte não se encontrava. No entanto, enquanto eu esperava sua chamada de volta, pedindo a Deus que fizesse a terra parar sua gira, a chamada do Dr. Levenson chegou.
Contei o que passava e, uma vez mais, fui aconselhado que levasse Murphy ao consultório. Desta vez Murphy nem tremia. Olhava para mim como para dizer, "está bem. Não te preocupes. Chegou a hora de dizer adeus."
A ajudante do veterinário tirou-lhe a coleira e colocou-lhe uma outra. Murphy, que sempre antes refilava ao entrar no quarto de exames, desta vez entrou sem sequer olhar para mim. Antes sempre olhava para trás como se solicitando minha ajuda.
Esta manhã, Murphy respirou por última vez. Doze anos. Quando Murphy nasceu eu tinha uma neta recém nascida. Hoje tenho um total de nove netos. Quando Murphy nasceu eu ainda trabalhava. Hoje estou aposentado. Meus pais ainda viviam. Há um pouco menos de dois anos, fui atacado por uma afasia e uma trombose. Por sorte conquistei a afasia. A trombose deixou-me parcialmente manco. É dizer, minha vida, como a dos demais, tem seguido. Nada fora da normalidade. No entanto, apesar de psicólogos e outos profissionais do género insistirem que na vida se aprende mais nos pimeiros cinco ou seis anos, Murphy comprovou que, logo que se viva, se aprende. Se aprende a amar, a sentir, a ver que o mundo nem começa nem termina connosco, que nossas funções são indeterminadas, mas válidas.
Murphy Elvis Brown - americano, um simples cão, boxer (Agosto, 1986, Nashville, Tennessee - Maio, 1998, St. Louis, Missouri).
Thank You, Nice Boy. Thank You...
St. Louis, Missouri. 14 de Maio, 1998 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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