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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA
CHOURIÇO, LINGUIÇA, E MORCELA


Minha sogra era uma magnífica cozinheira. Um pouco disso, um pouco daquilo, e, no fim, apresentava um prato rico e farto. Kathy, minha mulher, no entanto, necessita conhecer o que está preparando - cientificamente. É dizer, se o prato não figura na literatura gastronómica, não vale. Com isto, não digo que Kathy não me tenha alimentado bem em mais de trinta e quatro anos. Aliás, tenho comido melhor casado que comia em solteiro, visto que, apesar do que estou confessando parecer heresia, minha mãe nunca se ter distinguido como mulher de cozinha. Com minha mãe, comida era algo preparado para matar fome - tendência derivada do facto que em São Roque da sua época não existia pratos estéticos, mesmo para quem, como meu avô materno, tinha casa farta. Ninguém jamais perderia a alma pelo cozinhar de minha mãe. Com isso não quero insinuar que quando era rapaz não apreciava como ela preparava sardinhas na brasa, uma cavalinha assada no forno, ou uma massa sovada. Jamais, no entanto, tornar-me-ia, mesmo que me pagassem, num de tais tipos que, após contraír matrimónio, tem que regressar a casa dos pais para matar saudades da comida que abandonou. Para estar com meu pai e minha mãe, sim. Para comer bem, no entanto, sempre me aproveitava de outras opções.
Para nós, açorianos, felizmente, já há séculos existem comidas que jamais poderão ser destruídas por uma má cozinheira. Como o chouriço, a linguiça, a morcela, ou mesmo, o queijo de cabra (Se ainda existe) esfregadinho no pão. Infelizmente, para o açoriano casado com bostoniana cuja noção da comida deve aparecer em livros, como mencionado no parágrafo anterior, só o queijo de cabra tem algum valor visto o norteamericano ultimamente ter sido influenciado pela cozinha grega. Lembro-me, por exemplo, de, quando ainda namorava, haver jantado em casa de minha futura sogra e de, por acaso, mencionar queijo de cabra. Minha cunhada, Mary Jean, olhou para mim com um ar de desdém, como se eu fora selvagem, facto que não me molestou visto, já naquela época, saber que não existia pessoa mais inflexível no mundo que o bom católico bostoniano de ascendência irlandesa. Hoje, graças a Deus, e aos gregos, ou talvez ao Papa João XXIII, minha cunhada não torce o nariz se tiver que saborear um pedaço de queijo de cabra na salada. No entanto não digo o que ela faria com o nariz se tivesse que comer morcela - não uma morcela vulgar, mas, sim, uma preparada com boa cebolinha, pimenta bem picante, e defumada por dias após dias até secar e endurecer a tripa. Minha mulher, no entanto, não é assim. De facto, Kathy faz todo o possivel para se afastar de casa sempre que descubra que eu, durante uma viagem à Nova Inglaterra, onde ainda existem algumas charcutarias merecedoras da nossa atenção, me atrevi a comprar umas morcelinhas. Só não corre divórcio por saber que, quando o caso entraria em julgamento, já a morcela estaria acabada e ela não teria nenhuma evidência para mostrar ao juiz. Então usa todos os argumentos que possa para justificar que comer morcela não me faz bem. Por fim, como não presto atenção, queixa-se do aroma que a morcela deixa, argumento infundado visto que, ultimamente, preparo a morcela no meu churrasqueiro no jardim. Na semana do Natal, por exemplo, quando a temperatura era baixíssima, não hesitei em assar uma morcela ao lado de fora.

Uma manhã há poucos dias, por sorte, um mensageiro especial do Serviço Postal dos Estados Unidos passou por nossa casa e entregou-me uma pequena caixa cujo remetente era meu tio, Jacinto da Ponte Rezendes, de Cambridge, Massachusetts. Dentro se encontravam três chouriços, um metro, mais ou menos, de linguiça, e duas morcelas. O envio encontrava-se todavia congelado e em magnífica condição apesar de haver viajado aproximadamente 2.000 kms. de Boston a St. Louis. Por acaso o meu cão, Murphy, que antes havia ladrado fortemente quando o mensageiro chegou, reconheceu que se tratava de coisa valorosa, e aproximou-se de mim imediatamente como para me fazer recordar que ele também era da família. Por minha parte, pensei em fazer uma pequena festa, o que não seria possível sem a colaboração de minha mulher. Foi portanto só uma hora depois que, ao saborear a morcela, pensei em compartir minha riqueza com outra pessoa capaz de apreciá-la. Dirigi-me à Rodier de St. Louis, tenda de últimas modas francesas, onde Maria Fernanda Darling (Micaelense casada com um ex-oficial da aviação americana, neta do Toste, lá da Rua do Valverde em Ponta Delgada) é gerente. "Maria Fernanda," disse ao enfrentar aquela conterrânea, "tenho uma oferta do Natal para ti." E entreguei-lhe uma das morcelas e uns 30 cms. de linguiça.

Os restantes chouriços e linguiça, no entanto, duraram um pouco mais, apesar de minha mulher continuar seu argumento para que eu não os comesse. "Estão cheios de graxa," avisava. "Os médicos dizem que a graxa faz mal."

"Kathy," respondi. "Não me molesta o que os médicos dizem. Em segundo lugar, se falares com qualquer psiquiatra, decobrirás que ele estará completamente de acordo comigo. O homem morre de muitas coisas - e não só do que lhe resta na vias arteriais após a digestão. Meu pai sempre comeu o que lhe apeteceu, violando todas as regras medicinais. Por fim morreu de Parkinson's, que não tinha nada a ver com o seu gostar de chouriços ou morcelas.
Na língua inglesa não existe a palavra saudade. O significado que mais aproxima aquela palavra é nostalgia, que não é realmente o mesmo. No entanto, no meu primeiro idioma existe a expressão 'morrer de saudade'. E morre-se mesmo. Confesso-te seriamente que morrer de saudade é uma morte mais dolorosa que qualquer enfarte." E sem me preocupar mais, passei dias comendo chouriço e linguiça. Ao meio dia vinha do escritório a casa. Tirava um pedaço da geladeira e, colocando-o no descongelador do meu fogão de micro onda, em menos de dois minutos me ponha a preparar o almoço. Em três minutos mais, sentava-me a comer. À minha roda, Murphy, que antes havia comido a pele da morcela, encontrava-se disposto para quaisquer das peles que lhe fossem oferecidas. De quando em quando, eu olhava para ele e descobria que o cheiro lhe havia feito crescer águas na boca. Babava-se, coisa que raramente fazia com comida científicamente americana.

Ao escrever esta carta, no entanto, já se foi a oferta de meu tio.
Contudo seu magnífico gesto gravar-se-á na minha memória por anos.
Confesso que vivo bem em St. Louis e que, apesar de ter uma mulher que, por certas razões (medicinais ou fictÍcias) não se aventura a comer o que herdei da tradição micaelense, como igualmente bem. Aliás, sou o primeiro a admitir que como melhor desde que me casei do que normalmente comia em solteiro. Diz-nos a tradição, no entanto, que nem só do pão vive o homem. Levando o argumento um pouco mais adiante, podemos afirmar que o homem não vive somente da melhor comida. Talvez a morcela, a linguiça, o chouriço, enfim, toda aquela comida do pobre que matava porco quando eu era ainda criança, não seja recomendável pelos melhores professores de cardiologia, a maioria dos quais, ao aconselhar seus pacientes, se esquece que desta vida ninguém parte vivo.

Graças à oferta de meu tio, disfrutei de pequenas recordações que me ajudaram a enfrentar um pouco mais entusiasmado os momentos que seguir-me-iam ao regressar ao trabalho. Talvez a graxa em tal comida tirar-me-ia parte da vida que, assim dizem os actuários de companhias seguradoras, seria meu direito de viver para que meus patrões lucrem um pouco mais do meu suor. No entanto, pergunto: Que sabem tais sabichões? Ao ultrapassar os sessenta anos, e ao ver o que tenho visto pelo mundo, já há muito descobri que a vida é algo que nos é emprestado. Devemos fazer o melhor por guardá-la e, simultaneamente, vivê-la por uma forma para que nunca se torne chata. Agradeço a Deus, portanto, pelo génio que Deus entregou à nossa gente para que ela inventasse o chouriço, a linguiça, e a morcela.
Sinto no entanto que meu tio errou na sua oferta.

Faltou enviar o vinho de cheiro.

St. Louis, Missouri. 18 de Janeiro de 1992
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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