"Parlor" - equivalente americano ao inglês "parlour", palavra derivada do latim "parabolare", a qual significa "acto de narração alegórica no qual se evoca, por comparação, outras de ordem superior", ou, no vernáculo brasileiro, um bom "bate papo".
"Pala" - sinónimo açoramericano de "parlor".
Desde 1946, quando Robert Levitt demonstrou como construir casas acessíveis a qualquer classe, e principalmente a veteranos retornados da Segunda Guerra Mundial, "parlor" tem perdido parte de seu
significado. Aliás, a maioria da juventude americana talvez nem saiba o que significa, tendo a palavra sido substituida por "living room".
"Parlor", no entanto, era uma das ambições de muita gente, visto ser a sala onde a classe média americana recebe convidados, ou, para a nossa gente, onde normalmente demonstrávamos mobílias que jamais usávamos - a não ser que estivessem cobertas.
Ter uma "pala" em 1946, por exemplo, era atingir o sonho americano.
"Ah, que santa terra," disse-me uma senhora uma vez."Sempre qu'ei passava pela loja de mobílias, na Rua do Brum, parava pr'admirar. Vivi anos e anos e o único que fiz foi mirar. Mas agora, estando cá só três anos, já tenho uma 'pala' linda, graças a Deus." Por acaso aquela senhora tinha um filho da minha idade e muito mais inteligente do que eu. Perguntei-lhe então se ela pensava em mantê-lo na escola. "Home, credo! Qu'é 'gora isse? Dar escola a filhos? P'raquê? Depois se casam e a gente nunca mais vê o dinheire que gastou."
E assim se acabava o sonho americano... Nem só para aquela senhora, como muitos outros da nossa gente. Era como a tal piada do homem que, ao inscrever o filho na escola, indicou que queria que o rapaz
aprendesse umas letras, mas, sendo homem pobre, insistiu em que não fossem mais de cinco ou seis.
O filho da senhora, no entanto, casou antes de chegar aos dezanove anos. Talvez nem dando lucro suficente para pagar a "pala" - a tal verde, vermelha, e de outros tons, colocada num "carpete" onde ninguém ponha pé. Já a senhora e o marido faleceram. A "pala"? Bem talvez ficou para o lixo, ou para algum neto com meios de transportá-la.
Uma das primeiras compras de meus pais, após sua primeira casa, foi uma "pala" - vermelha, castanha, verde, e de outros tons,a qual permanecia coberta de plástico transparente para que quem olhasse para
o quarto apreciasse a atrocidade das cores. Foi muitos anos após, quando a poeira penetrou sob as cobertas e começou a manchar o material, que o plástico desapareceu. A "pala", no entanto, ficou só
para "visitas de cerimónia" as quais, quando servidas o chá, retiravam-se para o humilde quarto de jantar que, realmente, era onde a família passava a maior parte de seu tempo. Em casa de meus pais era
proibido manchar qualquer coisa que fazia parte da "pala". Chá quente, portanto, tinha que se tomar distante de lá visto que, como dizíamos na ilha, "p'ró mal tudo aprova".
A ironia é que, apesar de meus pais terem conseguido na América benefícios que jamais poderiam haver conseguido em São Miguel, os quais ultrapssaram o valor da "pala", aquele mobiliário permaneceu
como símbolo do que o país representava para eles. Era então na "pala" onde exibiam as fotografias de meus êxitos académicos, do meu casamento, de minha falecida irmã, Lúcia, das netas, e, naturalmente,
de uma imagem do Senhor Santo Cristo acompanhada por uma bandeirinha do Espírito Santo. Foram tais artigos mais tarde acompanhados por uma pequena bandeira dos Açores, não a aprovada, mas, sim, a que havia sido determinada pelo povo açoriano antes que o governo central - em forma colonialista - determinasse a bandeira "oficial".
É interessante, no entanto, notar que, apesar de que a "pala" era merecedora de todo o cuidado, não podemos dizer que o açoriano com uma "pala" era uma excepção em procedimento. Ainda hoje, para muitos americanos, principalmente os descendentes de imigrantes chegados nos últimos cem anos, mais ou menos,"the living room" é algo que, como a "pala" de meus pais, existe para ser "apreciado", mas não usado. Em 1959, por exemplo, quando vivia em West Hempstead, Long Island, conheci uma família de ascendência italiana. Seus avós haviam imigrado para Brooklyn, onde até que meus amigos se mudaram para West Hempstead, permanecerem com seus filhos, onde estes se casaram, e, por
sua parte, criaram seus filhos. Um dia minha mulher e eu fomos convidados a uma festa em casa dos amigos, os quais, imediatamente após nossa chegada, apontaram-nos para a cave da casa, onde tinham o
"finished basement" e onde já se encontravam outros convidados. Ao passar pelo "living room" parámos brevemente para "apreciar" o mobiliário e suas cores vibrantes, não como as da "pala" de meus pais,
mas em tons amarelados tendendo para bege. O tapete era branquíssimo, de lã artificial, e coberto de plástico para que não se manchasse. Na época, ainda a Dupont não havia inventado materiais inmancháveis - ou, pelo menos, mentiras publicitárias suficientes para garantir ao público tapetes indestrutíveis.
Mais tarde, já em St. Louis, fui convidado por outros amigos a uma pequena reunião. Viviam numa zona onde, como é costume com gente de ascendência alemã ("Scrubby Dutch"), os prados se encontravam
aperfeiçoados, as vidraças totalmente limpas, enfim, viviam como diziam de South St. Louis, "onde nos Sábados, primeiro se lava o carro, depois as janelas, o cão, e, por fim, a casa". Limpeza é um dos
grandes atributos dos "Scrubby Dutch". Limpeza e uma cave ("Rathskeller") que para muitas famílias é o seu grande orgulho. Porque, para quem analiza as casas naquela área, seu formato exterior é mais ou menos igual. Os jardins normalmente são ornamentados com a mesma flora, a não ser que de quando em quando haja quem tenha casado fora dos "Scrubby Dutch". Então é possível, principalmente se o novo
casal tiver alguém de ascendência italiana, por exemplo, que o jardim apresente também algumas estatuetas, geralmente de cisnes, ou veados, todos em cerâmica que, quando eu era rapaz, a gente associava com Louça da Lagoa e Barro de Santa Maria. No entanto, apesar de todos os méritos e limpeza das partes exteriores de qualquer residência, o que conta em South St. Louis é a tal "Rathskeller", onde os convidados são imediatamente conduzidos ao chegar. Porque é na "Rathskeller" que o americano de ascendência alemã, duas ou três gerações distantes dos cervejeiros que fizeram da Anheuser-Busch a maior fábrica do género no mundo (e mantiveram um catolicismo que rivalizava a versão irlandesa de Nova Iorque e Boston, e a polaca/irlandesa de Chicago, garantindo a Roma que os episcopalianos "ianquis", os luteranos, e as demais seitas passageiras, jamais predominariam nesta zona) demonstra sua independênciada vizinhança. Para eles, então, o "living room" ligado à adjacente sala de jantar é onde de quando em quando a família bate papo após haver celebrado privadamente tais festas como, por exemplo, o Natal ou a Páscoa. Para recepções gerais, no entanto, a vida celebra-se na "Rathskeller", talvez em caves comparáveis às que os antigos teutónicos usavam para que escapassem frios nórdicos - mas que, dados os sonhos americanos, os novos construiram em formas mais luxuosas que as anteriores, e com televisão por cabo constantemente ligada como se fora ornamento.
Naturalmente, dados os costumes acima designados, é natural que os Estados Unidos não se considerem com uma fundiçao de material humano, mas, sim, um mosaico em constante transformação, onde de quando em quando se perde uma peça ou duas para que assim o país crie novas formas já enraizadas.
No meu caso, por exemplo, casei com uma americana da quinta geração de ascendência irlandesa, a qual já havia chegado ao que em Boston classificamos de "Lace Curtain Irish" (Irlandês de Cortina de Passamanaria). É dizer, a alguma distância de outros irlandeses que, para os angloamericanos, eram designados como "Shanty Irish" (Irlandeses de Barracão) apesar de seus "barracões" haverem sido apartamentos comparáveis aos que parentes distantes dos mesmos angloamericanos ocuparam na Nova Escócia. Aliás grande parte dos apartamentos em questão, principalmente em Boston, haviam sido
construidos por tais "parentes". De qualquer modo, com uma cultura como o do minha mulher, era natural então que a "pala" do açoriano na América estivesse a uma distância cultural que nem por telescópio se
observaria. Ha três anos, no entanto, Katherine e eu, reconhecendo que minha mãe já não tinha meios físicos para viver só, decidímos que ela se mudasse para St. Louis. Minha mulher, naturalmente, querendo se orgulhar da sogra, comprou generosamente o que, a seu ver, minha mãe necessitaria. Infelizmente, Katherine nunca viveu no Pico das Canas, em São Roque e, sendo norteamericana, nunca, ao ver de minha mãe, "pensou no dia de amanhã". Em casa de meu avô materno, apesar de ser casa abastada, "condutava-se o queijo p'ra não fazer esquecer" e para que restasse algum para o dia seguinte, naturalmente. Minha mãe, por acaso, nunca perdeu aquele hábito. Com o resultado que, logo após sua chegada a St. Louis, procedeu a retirar o que tinha sobre a cama, e a substitui-lo pelo que havia trazido de Cambridge. O que minha mulher havia programado para condizer com o ambiente do resto da casa foi repentinamente obliterado a favor de cobertores de cores diversas, e outros materiais que sem dúvida teriam sido apreciados no Pico das Canas entre 1920 e 1990. "Avó," gritou Katherine. "Por amor de Deus. Gastei um dinheirão e esforço em fazer do seu quarto o mais lindo da casa. E agora você faz isso?"
Minha mãe, cujo inglês era deficiente, olhou para mim. "Qu'é quela tá dezende?"
"Mãe, porque fez isso?" Perguntei.
"E porque não? O que tinhas posto era muito novo p'ra s'usar, e bom demais p'ra todos os dias. Não estou p'ra te gastar o dinheiro. Temos que poupar."
Foi então o meu momento de gritar. "Minha mãe já tem mais de oitenta anos. Está poupando para quê? Para a velhice?"
Os conflitos começaram. Verdade que, graças ao facto que Katherine e minha mãe falam idiomas diferentes, têm sido conflitos pacíficos. Além disso, durante estes três anos tenho sido mediator apesar das chatices que a situação me causa. No entanto, como dizíamos na ilha, "não há mal que não acabe em bem". Há dias, partes do Estado de Missouri foram atingidas por cheias devastadoras que deixaram muita gente sem nada. Convenci minha mãe a dar suas roupas caseiras antigas aos inundados. Hoje, graças a Deus, os artigos comprados com tanto cuidado e carinho por Katherine, e rejeitados por minha mãe, figuram por fim onde deveriam haver figurado sempre. O nosso "living room", no entanto,
continua um pouco fora do limite a minha mãe, não por imposição nossa, mas por ela. O interessante é que quando o cão, Murphy, entra naquela sala para se estirar aos raios de sol que entram pela janela
principal, minha mãe nunca reclama. Na sua antiga casa de Cambridge, principalmente na "pala", o pobre bicho jamais meteria pata.
P.S. Minha mãe, Isabel J. da Costa Afonso Ponte, faleceu a 17 de Dezembro de 1996. O cão, Murphy, a 14 de Maio de 1998.
St. Louis, Missouri. 23 de Outubro de 1993 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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