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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA
CHATICES


Devemos ser justos e dar crédito a quem o merece.

INTRODUÇÃO:

Quando minha mulher me chateia, não o faz com zanga, ou ódio, mas, sim, com um poder suficiente para me levar ao purgatório. Não digo inferno visto saber que a chatice não durará. É como se algo químico lhe entre nos miolos com o qual ela exagerará e me forçará a admitir que, sim, a culpa é minha porque chove, ou porque o sol brilha.

DISCUSSÃO:

Há anos, na Argentina houve um ex-ministro da economia que, conhecendo os hábitos da gente, aceitava as várias crises do país com a seguinte frase: HAY QUE PASAR ESTE INVIERNO. Sabia tal ministro que uma vez chegado o verão, argentinos, particularmente os porteños" (residentes de Buenos Aires, para quem desconhece o termo) se preparariam para férias em Mar del Plata e, viesse o que viesse, nada tirar-lhes-ia aquela oportunidade. Sentia-se seguro o ex-ministro, portanto, na sua declaração.

Graças a Deus que nunca me esqueci daquela frase. HAY QUE PASAR ESTE INVIERNO, digo caladamente, ou algumas vezes em voz baixa, quando necessito me defender das chatices que minha mulher me introduz na vida. "Que dizes," me pergunta Katherine.

"Nada," respondo.

"Disseste algo sobre o inferno. Entendi."

"Kathy," respondo novamente. "Estava pensando em espanhol e falava do INVIERNO." E pronuncio a palavra como soletrando-a.

Ultimamente tenho usado a frase não sei quantas vezes. Como os leitores sabem, idiotas na Câmara Municipal de Ponta Delgada demoliram uma casa que eu tinha na Rua do Barão da Laranjeiras. Verdade que antes de o fazerem haviam prometido pagar o equivalente de U. S. $35,000 por ela, oferta que aceitei apesar da propriedade ter mais valor. No entanto nunca assinámos nada, visto a documentação estar em nome de meus pais. Faríamo-lo mais tarde uma vez que eu passasse por Ponta Delgada. O que eu estaria disposto a fazer.

"Não," disseram-me da Câmara por telefone. "Não há necessidade para que venha. Nos mande os documentos assinados e basta."

Naturalmente, conhecendo funcionários públicos micaelenses, os quais na minha época se encontravam entre os maiores ladrões da Ilha, não mandei nada. O que realmente não importou. Derrubaram a propriedade da mesma forma. Aliás, fizeram o melhor para esconder e confundir a situação indicando que a casa não era minha mas, sim, da Caixa de Previdência. Quando indiquei que a propriedade já era de minha família desde 1906, pediram-me desculpa por sua confusão. A casa em questão - a tal da Caixa - está na Rua Dr. Ernesto do Canto. A minha, na Rua do Barão das Laranjeiras. O resultado foi que, apesar de eu estar em São Miguel com Katherine para as Festas do Senhor Santo Cristo quando descobri o que os corruptos micaelenses haiam feito, passei uma larga parte de meu tempo tentando resolver a questão, inclusive comprovando que não possuia nenhuma casa em conflicto com a Caixa de Previdência.
Interessante como funcionários públicos micaelenses são incapazes de falar português quando necessitam responder a uma simples pergunta. Como, por exemplo: "Quem autorizou a demolição? É possível que na terra do papel selado haja um papelinho qualquer que comprove aquela autorização?" Resposta: ... Se há quem a tenha, gostaria de conhecê-la.

Minha mulher, naturalmente, sendo norteamericana, não entende aquele defeito - ou jeito - micaelense. Para ela, o evento demonstra que alguém - sem me mostrar uma pistola - havia apontado contra a minha cabeça e me informado que ou eu aceitaria seu abuso, ou ... Tão traumatizada ficou com o incidente que, apesar de ter gostado imensamente de São Miguel, (Ainda fala de se ter encontrado nas Furnas com Mota Amaral, o qual foi extremamente simpático com ela) prefere nunca mais visitar a Ilha. Isto é, até que o que é meu me seja devidamente entregue. Por minha parte, contratei um advogado em São Miguel, e até hoje tenho apresentado todos os documentos por ele solicitados, tais como: Certidão de Casamento de Meus Pais, Certidão de Meu Nascimento, Comprovante que sou filho único, Certidão de Meu Casamento, Certidão do Nascimento de minha mulher, Certidão de Óbito de meu pais, etc. O único que falta enviar, visto ainda não haver sido pedido, é a Certidão de Nascimento de meu cão, ou, então, o seu óbito.

A minha casa continua demolida, e seu terreno invadido servindo de estacionamento público. O dinheiro, bem, deve estar em algum cofre em Bruxelas, ou em algum outro lugar onde Portugal mendiga.

Por outra parte, sou eu quem sofre as chatices. Como, por exemplo:

"Kathy, gostaste do Açores Atlântico, não? Vamos ficar lá este ano, ou preferes outro lugar?"

"O quê? Estás louco? Como queres regressar a uma terra que te roubou o que é teu? Já te esqueceste? Além disso, escreveste ao banco, enviando a documentação solicitada e, apesar de tua colaboração, o BNU nem sequer admite que tem o teu dinheiro - aquele pelo qual já pagaste imposto? Nem sequer apesar do ter o nosso endereço nos manda detalhes das duas contas que lá tens."

"Kathy," respondo "tudo se resolverá. Quantas vezes já te disse que tarde é o que nunca chega?"

Kathy prefere não escutar mais. No entanto, já que falei da possibilidade de viajar, insistiu em que ela e eu viajássemos a alguma parte - possivelmente à Irlanda. Por minha parte, eu não queria nada onde escutaria por dias em seguida o som do inglês.

Dias após reservei passagem para a Venezuela - onde não se celebram as Festas do Senhor Santo Cristo. No entanto, os processos químicos cerebrais que descrevi anteriormente, e contra os quais não existe defesa, encontravam-se em pleno vigor. Eis a sequência de eventos:

A. Uma amiga de Kathy que desconhece a Venezuela recomendou que ela comprasse um livro sobre turismo naquele país - escrito por um engenheiro polaco - no qual sua maior recomendação era cuidado com a água e carteiristas. Sem dúvida, escrevia da Polónia, modificando os nomes das localidades para a América do Sul.

Não lhe importava a Kathy o que eu dizia apesar de já ter passado por Venezuela dezoito vezes. Era a tal questão de santo caseiro não obrar milagre.

B. Ao chegar a Caracas descobriu que o nosso hotel era de segunda categoria. Quando o reservei todos os de primeira estavam lotados. Queria então regressar a casa, onde o que temos era, de facto, melhor do que encontrámos. Além disso, não tardou em me chamar à atenção que, na Irlanda, teria ficado em casa da sobrinha, a qual vive num magnífico local ao lado da residência da estrela cinematográfica, Maureen O'Hara.

Enquanto Katherine falava e SOFRIA como se tivesse sido condenada por um crime que não havia cometido, eu tentava o melhor para acalmá-la.
Lembrava-me simultaneamente das palavras do ex-ministro argentino, HAY QUE PASAR ESTE INVIERNO... Dois dias de sofrimento para ela. Dois dias de purgatório para mim...

No terceiro dia, no entanto, meu amigo, Rafael Cortés, apareceu a buscar-nos pela manhã. De repente o INVIERNO passou. ... Cortés passou novamente por nós no dia seguinte, e uma vez mais Kathy descobriu o que é a beleza natural nem só da gente venezolana, como do ambiente andino em que nos encontrámos. Nunca na vida ela havia almoçado sobre as nuvens, ou a chuva, como foi o caso quando visitámos a Ciudad Tovar. Ao regressarmos a Caracas indicou que foi uma ocasião na vida da qual jamais esquecer-se-á. Aliás, e coincidentalmente, pareceu haver esquecido o aposento de Maureen O'Hara.

No dois dias seguintes estivemos na Isla Margarita e, uma vez mais, encontrámos um mundo deslumbrante e uma gente totalmente amável.
Carteiristas???... O livro do engenheiro polaco foi depositado no lixo esta manhã.

Tão grande foi o êxito venezolano que pensamos novamente viajar ao exterior, possivelmente após Agosto, visto presentemente estarmos reservados para duas semanas no norte de Michigan, onde os grandes lagos, Huron e Michigan, se encontram. Esta manhã no pequeno almoço mencionei a época do vinho novo em São Miguel. Kathy olhou para mim...
Não necessitei palavras adicionais para me recordar de ainda não ter recebido resposta nem da Câmara Municipal, nem do Banco Nacional Ultramarino.

St. Louis, Missouri. 8 de Junho de 1998
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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