TALVEZ VINHO DEMAIS AO ALMOÇO
(Gente sóbria não o faria) Parte 1
Deus convocou os anjos para lhes mostrar um planeta chamado Terra que Ele pensava criar. Apresentou-lhes um globo onde colocou um desenho no qual figurava a Ásia e a Europa. Em seguida, mostrou onde figuraria a África. Os anjos não se impressionaram. Deus no entanto continuou Sua
demonstração - Pacífico, Austrália, Nova Zelândia, América do Norte, América Central, Zonas Polares, América do Sul. E assim terminou. De repente um dos anjos gritou: «Mas, Senhor, falta o Brasil.»
«Ah», disse Deus. «Guardava-o para o fim. Vou colocar o Brasil aqui», disse apontando para um lugar que parecia não demonstrar nenhuma deficiência geográfica.
Imediatamente, os anjos se levantaram apoiando. «Mas, Senhor», disse o primeiro anjo. «Um país com tantas riquezas, possibilidades, e recursos? Isso não seria injusto quando comparado com que o Senhor
esperava oferecer aos demais?»
«Tens razão», respondeu Deus. «Mas espera até que eu te mostre a incompetência burocrática e as leis que lhes darei.»
Já lá vão anos desde que ouvi aquela piada por primeira vez. De facto, já me tinha esquecido dela. Por sorte, recentemente estive em Ponta Delgada assistindo às magníficas e emocionantes Festas do Senhor Santo Cristo quando enfrentei algo comparável ao que levou os brasileiros a inventar sua piada.
Tudo começou em 1906, quando meu avô, José da Ponte, e minha avó, Maria José de Mello, regressaram da América para São Miguel por última vez. Minha avó levava meu pai no ventre e quinze dias após sua chegada, deu-o à luz. Além de meu pai, meus avós levavam meus tios - Manuel, que havia nascido em São Miguel, e António e José, nascidos em Fall River. Mais tarde, em São Miguel, após o nascimento de meu pai, nasceram outros tios, dos quais Francisco, Jacinto, e Guilherme ultrapassaram os problemas da mortalidade infantil da época. Jacinto é o único que ainda vive.
José da Ponte (Rezendes, mais tarde) comprou uma casa na Praia dos Santos, em São Roque, a qual vinha acompanhada por um alambique, uma loja, e um quintal com três estufas de ananases. No fundo do quintal havia um canavial, o qual eu nunca descobri se era da nossa família, ou dos donos do terreno do lado da Estrada Nova da Ribeira Grande. Infelizmente, apesar da bela organização de meu avô, faltava-lhe algo mais - um estufim onde produzir o plantio para as três estufas. Um dia, por sorte, conseguiu comprar um terreno na Rua do Barão das Larangeiras (Laranjeiras), perto da entrada do lado da Boa Nova. Sempre conheci aquele local como nosso - ou, pelo menos, de nossa família.
Em 1939, infelizmente, o mundo entrou em guerra, forçando os três importadores principais do ananás micaelense, a Inglaterra, a Alemanha, e a Holanda a terminarem suas compras. O que levou muitas
famílias que antes se defendiam daquele fruto à miséria. Entre tais encontrava-se a de meus avós. Ainda me lembro de termos três estufas prontas a despachar, todas financiadas pela firma Mello Abreu, e sem
mercado além do micaelense, no qual o ananás valia pouco - isto quando a gente tinha dinheiro para comprar tal fruta de luxo.
Além da guerra, ocorreu-nos uma outra tragédia económica. Um dos meus tios era alcoólatra, e, como muita outra gente com similar doença, de quando em quando vigarista. Num dos seus «negócios» acabou por perder seu quinhão da herança que receberia se um dia a família vendesse suas propriedades. O Mello Abreu, no entanto, continuava cobrando juros dos dinheiros que nos havia adiantado, forçando os irmãos Ponte Rezendes a vender a propriedade para que assim «limpassem pratos». O local nos
números 2 e 4, Rua Praia dos Santos, foi vendido a um primo de meu pai, Manuel Jacinto de Melo, hoje residente em Hyde Park, Massachusetts. Manuel Jacinto, no entanto, vendeu-o eventualmente a
seu cunhado, Dionísio Carreiro de Almeida, ao emigrar para os Estados Unidos. É dizer, indirectamente, a propriedade ainda segue na «família».
Quanto à das Larangeiras (Laranjeiras), meu pai comprou-a aos irmãos, esperando um dia construir lá uma casa. Em 1944, no entanto, ele emigrou para os Estados Unidos. Minha mãe e eu ficámos atrás. No
entanto, os vidros do estufim tinham sido tirados das vigas e vendidos a quem ainda tinha esperança de que o negócio do ananás regressaria ao que era. Tempos após, minha mãe mandou retirar as vigas, e demolir as paredes do estufim, guardando todos os materiais possíveis (pedras, por exemplo) para um dia construir a tal casa.
O edifício foi levantado em 1945. Casa primitiva, à moda de mulher de campo que nada conhecia de arquitectura. Lugar para se viver onde a chuva jamais cairia na cabeça, ou onde não se pagaria renda. Meu pai, no entanto, decidiu que nosso futuro seria nos Estados Unidos, e não em São Miguel, tendo acabado por sugerir que minha mãe vendesse o prédio. Foi então que descobriu a existência da casa.
Ocorreu que meu pai tinha duas afilhadas, Maria José da Mota, e Isabel dos Anjos da Mota, por quem sentia certa responsabilidade. Então sugeriu que a família das afilhadas, minha tia Maria da Luz, e seu
marido, João Francisco da Mota, vivessem na casa, e que a renda que pagariam seria aplicada para o dote das duas raparigas uma vez que casassem. A casa, no entanto, seria paga por meu pai directamente da América. Por acaso foi eventualmente paga por mim, graças a um salário de quarenta centavos por hora que ganhei entre Setembro de 1946 e Setembro de 1948 na Loja Dine's Syndicate, em Cambridge, Massachusetts, quando lá trabalhava durante as horas em que não frequentava escola.
Em várias ocasiões, houve quem se ofereceu para comprar a propriedade. Nós, no entanto, por um sentido de querermos ter raízes em São Miguel, as quais deixaríamos a gerações futuras, nunca aceitámos. Meus pais, de quando em quando falavam em por tudo em meu nome para que mais
tarde eu não encontrasse dificuldades de heranças. Por minha parte nunca me preocupei com aquela sugestão. Sou filho único e sabia que o que meus pais possuiriam após suas respectivas mortes seria meu.
Aliás, após a morte de meu pai em Dezembro de 1986, minha mãe entregou-me toda a papelada relacionada à propriedade e disse que eu fizesse com ela o que me satisfaria. Minha mãe faleceu em Dezembro de 1996.
Aconteceu, porém, que um dia em 1995 recebi uma carta registada da Câmara Municipal de Ponta Delgada onde se encontrava um plano da Rua do Barão das Laranjeiras e um aviso que aquela Câmara necessitava de aproximadamente 33% do meu terreno para o alargamento da rua. Perguntava a carta que compensação eu queria, etc., etc. Respondi, aliás oferecendo à Câmara a possibilidade de adquirir todo o terreno por um preço baixíssimo. Dias após recebi outra carta registada indicando que a Câmara havia concordado com a minha oferta, e que eu enviasse a necessária documentação para transferir escrituras, etc..
Por sorte, minha mãe, que ainda vivia, não se sentia bem e poderia morrer a qualquer hora. Decidi então mandar algo básico confirmando quem era dono da propriedade, pensando na possibilidade de passar
eventualmente por São Miguel para realizar a transferência final. Aconteceu, porém, que em Junho de 1996 tive uma trombose violenta que me paralisou. O meu médico, Prof. Dr. E. Robert Schultz, no entanto,
reconhecendo possibilidades de recuperação, insistiu que eu não viajasse, o que me forçou a permaneceer nos Estados Unidos até há pouco.
Não esperava tratar com a Câmara Municipal, no entanto, quando a 30 de Abril parti de Providence para Ponta Delgada. Minhas intenções eram de apresentar minha senhora, Katherine, de quem me orgulho, às pessoas que me ouviram falar dela por anos, e agradecer ao Senhor Santo Cristo, a quem rezei muitas vezes enquanto ainda paralisado no hospital. Portanto, não levava muitos documentos relacionados à casa quando a AZORES EXPRESS aterrizou na Relva. Aconteceu, porém, que meu amigo, Dr. Jacinto Maria de Sousa, e sua espôsa, D. Ana Maria, nos esperavam no João Paulo II, seu carro à nossa disposição. Levaram-nos ao «Açores Atlântico», um magnífico hotel de categoria internacional,
onde deixámos nossas bagagens, e de onde, ansiosamente, partímos para aproveitar as poucas horas da tarde que ainda nos restavam. Por acaso o Jacinto decidiu mostrar a nossa casa à Katherine.
QUE CASA?
Olhámos para baixo e para cima na Rua do Barão das Laranjeiras e o único que encontrámos foi que alguém, ou tinha transportado a casa e seu muro adjacente para algum outro local do planeta, ou demolido a propriedade fazendo da mesma um estacionamento público. Parecia algo organizado pelo director cinematográfico Alfred Hitchcook, o qual se especializou em dirigir mistérios. Onde antes havia um quintal, no qual a última vez que lá estive se cultivavam hortaliças e flores, encontravam-se carros parados. Carros que não eram nem meus, nem cujos donos me pagavam renda. De facto, estou seguro que quem se aproveitava do terreno disponível nem sequer sabia que eu talvez existisse.
Dois dias após, a 2 de Maio, decidi visitar a Câmara. O resto do pesadelo e seu contributo burocrático será detalhado em crónicas futuras... No entanto, sugiro que quem está por estas partes e tenha
propriedades em Ponta Delgada, aprenda a rezar - não a Deus, mas, sim, ao diabo. Deus jamais faria algo similar ao que aconteceu.
St. Louis, Missouri. 8 de Junho de 1998 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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