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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - INVENÇÃO PORTUGUESA


Norman e Bárbara Wolf jantaram connosco esta semana. Nada fora do ordinário. Já nos conhecemos há anos, graças à intimidade de nossas filhas quando frequentavam a Ladue High School, em St. Louis. Quando trabalhava, Norman era cientista na Sigma Chemical Company, de St. Louis. Bárbara por uns tempos foi professora e, após a chegada dos filhos, dona de casa. Hoje, visto Norman se encontrar aposentado, os dois viajam de quando em quando, fazendo o que Bárbara designa como o que nunca fizeram quando tinham outras obrigações. Por acaso encontravam-se interessados em conhecer Portugal, Madeira, e os Açores.

Ficaram desanimados com o que lhes apresentei. Algo natural visto neste momento eu me sentir deprimido com a forma como certas entidades portuguesas me vêm tratando. Como é possível, pergunto, que um banco demore mais de cinco anos para apresentar contas - ou mudar o endereço de um cliente nos seus arquivos? Um banco, sim - o BANCO NACIONAL ULTRAMARINO, em Ponta Delgada.

Em 1993, antes de me aposentar, enviei uma carta àquela filial solicitando que doravante os detalhes de duas pequenas contas que eu lá mantinha - uma conta corrente e um certificado de depósito - fossem enviados a meu endereço pessoal - é dizer, à minha residência de mais de trinta e cinco anos, onde sou conhecido tanto pelos carteiros como pelo todos os demais funcionários do correio local. Visto o banco nunca ter seguido tais intruções, o ano passado visitei pessoalmente aquele local, onde, uma vez mais, indiquei meu endereço. Desta vez fui acompanhado por minha esposa, Katherine, a qual confirmou meu endereço. O que não foi difícil visto já estarmos casados desde 1957 e havermos vivido continuamente juntos.

Nada valeu. Sigo sem receber extractos de contas. A ironia é que eu estou disposto a pagar pelo envelope, papel, e estampa postal caso tal seja necessário - ou caso o BNU esteja em falência - só para que eu saiba em que ponto da conta me encontro.

Por outra parte há a questão de minha propriedade no Número 12, Rua do Barão das Laranjeiras, Freguesia de São Pedro, a qual foi confiscada sem que eu fosse devidamente informado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, e sem que eu tivesse recebido nenhuma remuneração de parte daquela instituição.

Por acaso, acabo de ler o PORTUGUESE TIMES de 9 de Julho de 1998, onde no contributo de Manuel de Portugal, aquele jornalista tenta convencer que visitar Portugal - e a EXPO particularmente - seria algo que nos deixaria felizes. Os meus amigos da família Wolf, apesar de não terem lido o artigo, interessaram-se também em Portugal originalmente graças às possibilidade de visitarem a última feira mundial do nosso século.

Não sei se os convenci para que fiquem em casa, ou, então, que visitem outros países - como minha senhora e eu fizemos recentemente - onde as instituições são mais honestas - ou eficazes. É pena, realmente. Já resido nos Estados Unidos desde o dia 6 de Março de 1946, e em St. Louis em particular desde 20 de Junho de 1961. Verdade que durante meus primeiros anos na América tentei o melhor para sacudir o pó açoriano que por uma forma ou outra parecia me rodear. Quando em 1956 me mudei para Nova Iorque, senti que havia conseguido meu objectivo. Em 1957 regressei a Boston para casar. Minha senhora é de ascendência irlandesa. Em Nova Iorque, no entanto, apesar de Katherine sugerir que eu deveria participar em algumas organizações portuguesas estabelecidas em Queens ou Nassau County, minha resposta foi sempre a mesma - NÃO.

Felizmente, apesar de meu negativismo e de não fazer parte de nenhuma associação portuguesa, com tempo descobri que tinha muito em comum com quem aprendeu a falar português antes de qualquer outra língua. E quando em 1961 me mudei para St. Louis - no interior do país - onde portugueses são tão raros como dentes em galinha descobri que, realmente, possuia uma certa riqueza antes abandonada. Não demorei em recuperar meu idioma natal e em assumir meu açorianismo. As instituições portuguesas, infelizmente, apesar de meu neo-entusiasmo, nunca deixaram der ser portuguesas. Vejamos os meus casos com o BNU e com a Câmara Municipal de Ponta Delgada.

A verdade é que, apesar de eu ter meus fundos em São Miguel travados, vivo relativamente bem logo que ninguém me faça recordar os eventos que acabo de descrever. No entanto pergunto - e sem dúvida com razão: Se instituições portuguesas governamentais ou comerciais tratam pessoas como eu (pessoas sem receio à palavra escrita) como me tratam presentemente, imaginemos o que deve ocorrer com aqueles pobres emigrados que nem sabem ler nem escrever? No meu caso, por exemplo, já alertei minhas filhas - uma delas advogada - para que, caso eu morra sem que estes dois casos se achem resolvidos, não abandonem a questão.
O que tenho em Ponta Delgada é meu. E nesta época em que a justiça humana predomina é natural que eu sinta que o que é meu é meu. Ponto Final. Além disso, como comprovam o CONSULADO DE PORTUGAL em New Bedford, e as testemunhas que confirmaram a documentação, Srs. António de Medeiros Silva, Manuel Adelino Ferreira, e Manuel Bettencourt da Silveira, tenho toda a papelada legalizada e emolumentos pagos para que tanto a Câmara, como o BNU, não me causem impedimentos adicionais aos que me têm causado até hoje.

Como é possível, pergunto, que num país onde nada se faz sem um pedaço de papel selado, haja aparecido um burocrata qualquer para autorizar a demolição de uma casa pela qual eu paguei suas últimas prestações hipotecárias e de um muro que já existia pelo menos desde 1906? Além disso, como me foi comprovado em Maio de 1977, porque razão não é possível saber onde me posso encontrar com aquela pessoa só para lhe perguntar o porquê de seu acto? Por outra parte, como é possível que um banco não tenha podido alterar um endereço de um cliente por mais de cinco anos para que, assim, o informe do progresso de sua conta?

Depois que contei minha "saga" aos amigos Wolf, seu desejo de conhecer os Açores, Madeira, e Portugal pareceu desvanecer. Bárbara, por exemplo, parece nem querer sonhar com tal viagem. "Pelo menos," respondeu "Norm e eu uma vez perdemo-nos em Barcelona. Ruas estreitas e velhas. Acabámos num restaurante, Los Caracoles, onde uma vez mais nos encontrámos num labirinto, encontrando por fim uma mesa onde jantámos. Ao terminar perguntámos pelas Ramblas, e, com toda a gentileza, houve quem nos levasse lá. Pelo que me dizes, em Portugal, se um se perde, está perdido. Norm, vamos à Espanha novamente. A TWA, como na última viagem, talvez pare brevemente no Aeroporto de Lisboa."

Não sei se me senti feliz ao escutá-la. Porque afinal, levei anos a propagandizar minha terra natal nesta parte do país onde resido. Além disso o meu caso talvez seja algo único que em breve resolver-se-á. Ou algo que só o diabo ou instituições portuguesas sejam capazes de inventar.

St. Louis, Missouri. 10 de Julho de 1998
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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