660 milhas (1056 kms) só ida. Nem falar da volta. Missouri, Illinois, Indiana, Michigan. Verdade que só viajaríamos em partes daqueles estados. Em Missouri, por exemplo, teríamos mais ou menos 38 milhas,
visto St. Louis estar localizada à margem ocidental do Rio Mississippi, e Illinois na oriental. O percusso da fronteira de Illinois e Indiana a Michigan consistiu igualmente do pequeno trecho nas Estradas Interestatais 80 e 94, as quais servem principalmente a Cidade de Chicago fazendo com que seu trânsito se torne numa das mais péssimas aventuras humanas.
A rota total é um percurso mais ou menos sem montanhas, onde a planície apresenta uma certa constância que parece não desvanecer. No entanto é interessante que ao entrar o Estado de Michigan na Estrada 94, o ambiente se modifique - algo comparável à diferença que se encontra na Península Ibérica quando se entra Portugal procedente da Província de Andaluzia, na Espanha. Não que Indiana seja um estado árido. Pelo contrário. Nesta zona do país temos a enorme fortuna de chuvas ocasionais as quais fazem do local um grande celeiro da América - aliás do mundo. Ou talvez seja que, como Michigan é o nosso destino de férias, algo mental nos convença que realmente estamos num lugar
diferente. Sabemos que nosso ponto final no dia seguinte apresentar-nos-á um dos lugares mais agradáveis que eu tenha conhecido até hoje, a pequena cidade de Harbor Springs, na Baía Traverse do
enorme Largo Michigan.
Para quem desconhece os Estados Unidos, permitam-me explicar que o Lago Michigan é um dos lagos designados como os Grandes Lagos, os quais, com a excepção do próprio Michigan, são compartidos com o Canadá. Os demais lagos do grupo, viajando do oriente para o ocidente são o Ontário, o Erie, o Huron, e o Superior. Em conjunto os cinco medem 249.000 quilómetros quadrados e representam o maior depósito de água doce no mundo. Desde 1909, têm sido controlados sob acordo internacional das autoridades americanas e canadianas apesar de que, pelo menos no Michigan, a influência
canadiana não ser notável.
O Estado de Michigan é distinto quando comparado aos demais americanos. Apesar de estar localizado no interior do país, a gente fala de Michigan como se nos referíssemos a algum ponto adjacente ao
mar. Porque, em realidade, Michigan é o único estado banhado por quatro dos cinco Grandes Lagos, os quais apresentam à terra duas penínsulas de tamanho considerável. Harbor Springs está localizada no
noroeste da Península do Sul. A não ser que um tenha um mapa bem detalhado, é uma cidade difícil de se encontrar. Sua população é geralmente 1.600 habitantes, aumentando a 4.000, mais ou menos,
durante o verão. Harbor Springs, no entanto, é uma cidade completa onde se encontra de tudo. Aliás a pequena igreja católtica que conheci por primeira vez em 1996 foi recentemente aumentada parecendo em
muitos aspectos uma igreja de cidade, ou vila, consideravelmente maior. Verdade que durante o inverno nenhuma missa jamais lota o local. No entanto, dada a posição de Harbor Springs, e à magnífica
marina onde se encontram barcos de várias partes do país - e, de quando em quando, do mundo - a igreja se enche nas missas de verão.
Vem esta, no entanto, não para promover turismo em Michigan, mas, sim, para comentar dum aspecto da realidade norteamericana. Há tempos, um amigo micaelense visitou parentes em Somerset, Massachusetts. Uma tarde ele decidiu telefonar para minha casa, nem só para me cumprimentar, como para me falar de suas impressões da América. Estava admirado com as construções americanas e com o facto de nossas casas serem geralmente de madeira. "Em São Miguel" disse, "o caruncho acabaria com elas. Vocês aqui parecem nem se preocuparem. Dizem que em Fall River existem casas de madeira de mais de cem anos."
"Não é verdade que não nos preocupamos" respondi. "A madeira, em muitos casos, representa um só componente de uma casa. A minha casa, por exemplo, é de tijolo por fora. As partes interiores e os tectos,
no entanto, são de madeira. Verdade que aquelas partes estão protegidas dos elementos. Apesar disso, no verão necessitamos batalhar contra térmites, os quais de repente podem destruir vigas onde menos
sejam esperados. Graças ao meu jardim, por exemplo, onde tenho mais de quarenta árvores de várias idades, as quais constantemente trocam raízes novas por velhas, posso contar com várias colónias de térmites que, algumas vezes não tendo raízes mortas suficientes, procedem a atacar a casa, entrando no interior através de tuneis subterrâneos.
Este ano, por exemplo, gastei mais de $2.200 com o exterminador. Só Deus sabe se terei que gastar algo para o ano que vem. É dizer, vivemos em lugares bonitos, como dizes de Somerset. Nossas preocupações, no entanto, requerem mais de nós do que imaginas. Qual foi a última vez, por exemplo, que gastaste $2.200 protegendo tua casa de uma praga que poderia tê-la destruído?"
Meu amigo ficou sem saber como responder. Mudou de conversa, indicando que havia ficado impressionado com a Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, que apesar de cara para o padrão micaelense, era uma grande oportunidade para a nossa gente. Pouco a pouco começou a falar da
América como se uma simples visita a Fall River, New Bedford. Newport, Boston, etc. fosse a única versão do país, ou a única forma, como as classes americanas vivem. É dizer, a falar da América em que tocava - e nada mais.
Verdade que uma tarde em Harbor Springs, peguei no carro e levei minhas netas a um BURGER KING, onde comi um WHOPPER o qual foi acompanhado por uma COCA COLA. O mesmo poderia haver feito em S.Louis, em New Bedford, em Newark, etc. Na Estrada 31 de Michigan encontram-se restaurantes cujas ementas e ambientes não diferam de uma região do país para outra, algo que graças ao imperialismo económico, oferece ao mundo uma certa uniformidade e familiaridade. Portanto, meu amigo não errava quando falava do seu ambiente imediato como se houvesse visitado toda a América - a não ser que tivesse tido tempo de ver o que realmente é este grande e diverso país. Por exemplo, meu amigo nunca teve ocasião de ver o dia terminar enquanto o sol desaparecia nas águas do Lago Michigan. Principalmente quando a paisagem era observada da gentil calma dos jardins marginais de Bay View, Petoskey, etc., ou dos altos locais de Harbor Springs, onde o sol parece desvanecer ao descer no Lago. É dizer, meu amigo viu a América, descrevendo-a perfeitamente, da mesma forma que na lenda hindu os cegos descreveram o elefante conforme as partes em que tocaram.
Não sei se regressarei a Harbor Springs para o ano que vem. Da minha idade, e após a trombose que sofri há dois anos, passo meus dias esperançoso de chegar a amanhã, mas sem apostar se lá chegarei. O
único que sei é que, apesar de mais de meio século neste país, ainda me falta muito para que o conheça intimamente. Para o próximo mês, queira Deus, Katherine e eu esperamos viajar ao noroeste, seguindo por
terra de Seattle (Estado de Washington) a Vancouver, no Canadá. Regressaremos por barco, parando em Victória, Canadá, e em algumas das ilhas americanas entre aquela cidade e, novamente, Seattle. Já por lá estive há anos. Aliás o livro mais caro que publiquei na minha carreira como editor nasceu em Seattle, onde me encontrei em várias ocasiões com seu autor, o Professor Dr. Robert Jankelson. Não sei se me encontrarei com ele nesta viagem, visto que, como aposentado, talvez não ter tempo para nada mais do que me escapou quando trabalhava. É dizer, é minha intenção após tanto tempo finalmente
conhecer a América, reconhecendo simultaneamente que, quanto mais conhecerei, menos conhecerei.
St. Louis, Missouri. 25 de Agosto de 1998 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas Participe no debate!Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.