André Malraux, uma das grandes figuras francesas de nossos tempos, disse mais ou menos entre 1963 e 1965 que o que mais admirava do carácter inglês era a hipocrisia. Por acaso é o que igualmente eu mais admiro e, simultaneamente, detesto. Admiro, porque quando a hipocrisia inglesa se torna em palhaçada e beatitude, como, por exemplo, a forma de pseudoadmiração que o Palácio de Buckingham pretende demonstrar pela recém falecida Vadia Diana, tenho a oportunidade de rir e de reconhecer a capacidade britânica de, sempre que haja uma pequena janela de possibilidade, arrancar vitória do que antes parecia derrota. Detesto no entanto tal hipocrisia, visto que, quando necessário, o inglês incrivelmente faz do insignificante o ridículo enquanto pretendendo que o faz para o bem da moral nacional.
Em Fevereiro de 1963, por exemplo, minha esposa e eu chegámos à Escócia por primeira vez. Confesso que pouco conhecia daquele país além do que havia lido na universidade sobre as relações entre a Escócia e a Inglaterra em tempos passados. Sabia também que a influência jornalística inglesa predominava localmente e, portanto, não me preocupou quando o primeiro jornal que comprei naquele país havia sido editado em Londres, ou, pelo menos, produzido sob a influência da Fleet Street daquela cidade.
Por acaso uma das notícias titulares daquela manhã era: SCOTLAND YARD BUSCA 'LUCKY' GORDON.
Desconhecia "Lucky" Gordon. Além disso, o caso parecia insignificante. Gordon, assim indicava o jornal, era um chulo jamaico representando várias mulheres, entre elas uma Christine Keeler. O jornal não disse muito dela, facto que pouco me preocupou. Com a idade de trinta e dois anos, e já viajado por vários países, sabia que a prostituição não era nada de admirar nem descoberta merecedora de notícia titular. Decidi, então, ler as notícias e comentários futebolísticos, assim conhecendo por primeira vez alguns dos nomes britânicos naquele desporto. No entanto, conforme viajava na Gran Bretanha e no resto da Europa, não faltava de encontrar detalhes relacionados a Gordon e a Keeler. Tempos após, e quando já me encontrava nos Estados Unidos, um John Profumo, membro do governo britânico na época liderado por Harold Macmillan, começou a aparecer, apresentado mais um elemento cujo valor para mim continuava, como sempre, insignificante. Com tempo, no entanto, descobri detalhes adicionais.
Aliás, até os cómicos na televisão, incentivados por um programa, THAT WAS THE WEEK THAT WAS, começaram suas piadas como se o que estivesse acontecendo na Gran Bretanha tivesse suas bases nos Estados Unidos.
Christine Keeler, descobri, nem só era prostituta, mas, graças à sua beleza e outros atributos, "brinquedo" de altos membros do governo e, principalmente, de John Profumo. Além disso, parte de sua missão era reportar à União Soviética segredos obtidos de sua relação com aquele ministro britânico.
Não posso comentar do valor do que Keeler conseguiu. Basta dizer que dado a União Soviética haver fracassado, sem dúvida o que angariou de sua espionagem talvez não tivesse sido aproveitado, ou de alguma utilidade a seus objectivos. De qualquer forma, o caso Keeler/Profumo continuou nos jornais, e nas manchetes mundiais de tal forma que, em Junho de 1963, durante uma viagem à América do Sul, tive oportunidade de comparar a mentalidade brasileira com a anglosaxona, usando o caso como modelo.
Encontrava-me hospedado no Hotel Trocadero, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Na época era costumário àquele hotel colocar um diário sob a porta de cada apartamento, de tal forma que quando o hóspede se levantava encontrá-lo-ia. Uma manhã ao sair do apartamento, rumo ao restaurante,
encontrei meu jornal onde a notícia titular dizia: CASO PROFUMO TALVEZ DERRUBE GOVERNO DE MACMILLAN. Levantei o jornal e dirigi-me ao elevador. Ao entrar encontrei dois brasileiros procedentes de andares superiores.
"Bom dia." "Bom dia." Manhã típica. Um brasileiro, no entanto, ao ver o jornal, de repente comentou: "Não sei porquê o Caso Profumo derrube o governo de Macmillan. Porque, afinal, Profumo foi p'rá cama com uma linda piranha - não com Macmillan."
Como demonstra a história, o governo de Macmillan foi derrubado. Pelo que escutei, no entanto, tal jamais haveria acontecido no Brasil.
OBSERVAÇÃO
Já se hão passado mais de trinta e cinco anos desde o comentário brasileiro. Não sei se no Trocadero ainda colocam diários sob a portas. Sei no entanto que, apesar de tudo o que se há passado no mundo (Aliás, até a França, e não o Brasil, ganhou a Copa) pouco realmente tem mudado na mentalidade humana. O Brasil, por exemplo, já passou por várias ditaduras militares, por dezenas des desvalorizações monetárias, e por uma caída de um governo democrático. Mas, em nenhum caso governos brasileiros
terminaram graças a uma mulher. Vejamos, no entanto, o que passa presentemente nos Estados Unidos - uma extensão parcial da mentalidade britânica, é dizer, da tal mentalidade definida por Malraux.
Apesar da definição não figurar em nenhum dos dicionários que tenho em casa - e devo ter uma dúzia - não existe maior hipocrisia do que a alta moralidade. Quanto mais "moral" o humano, geralmente mais terá que esconder. Salazar era extremamente moral - e protegido por seus defensores. Teria sido interessante um dia ter espiado Salazar na retrete.
Me mostra um homem extremamente moral e mostrar-te-ei quem não descende de Caim. Acontece, porém, que na mentalidade anglosaxona e na de sua descendente, a americana, os líderes não têm direito a pecar. O que realmente contraria o DNA de todos nós, inclusive o de Bill Clinton.
Por sorte, contrário ao que seria se liderasse a Gran Bretanha, Bill Clinton é um Chefe Executivo que não recebe seu poder do Ramo Legislativo. Além disso, vive num país descentralizado, onde interesses locais
geralmente superam os nacionais, ou internacionais. Além disso, a nação caminha bem. O norteamericano, portanto, está mais interessado no seu bem estar do que na palhaçada da ala direita republicana, ou do que a INQUISIÇÃO (desta vez mantida pela super religiosidade que nada tem a ver
com Cristo, Mahomed, etc.) faça parte de nosso sistema. Verdade que por uns dias, enquanto não há mais em que falar, as discussões pro e contra aos procedimentos presidenciais dominam onde o povo se encontra. Com tempo, no entanto, e em reflexão, o norteamericano realiza que, estando ele na pele do presidente, talvez faria o mesmo que Clinton fez. Como sabemos, o Presidente dos Estados Unidos, apesar de suas interpretações legalisticas usadas paa negar o que aconteceu, teve relações sexuais com
uma moça, Monica Lewinky, com quem a maioria do Congresso teria feito o mesmo, caso tivesse tido a oportunidade. Além disso, o Presidente, como qualquer outro homem casado apanhado no acto, mentiu quando indicou publicamente que nunca havia feito o que fez. Supostamente havia mentido igualmente em outras declarações relacionadas a uma outra acusação de uma ex-funcionária do Estado de Arkansas, Paula Jones, a qual - uma vez mais suportada pela ala direita e pelos super religiosos - manteve um processo legal contra o Presidente até há pouco.
O Partido Republicano, sendo geralmente grupo de pouca visão popular, esperarava que os efeitos das dificuldades pessoais do presidente transformar-se-iam em perdas para os democratas nas recentes eleições e, com suas vitórias, derrubaria Clinton de uma vez para sempre. Figurou mal, tendo fracassado miseravelmente. No entanto, visto terem todavia a maioria no Congresso, os republicanos continuam a investigar o presidente sob a noção de que ainda existam possibilidades de que Clinton seja acusado formalmente de alta traição. A ironia é que são os próprios partidários do Presidente que, reconhecendo a estupidez da investigação, e o facto que o Senado não colaborará com a Casa de Representantes, insistem em que o caso siga para a frente para que assim nem só o terminem, mas, simultaneamente possam comprovar a inaptidão republicana em servir à nação. Por sua parte, os republicanos, recordando a derrota inesperada das últimas eleições, não sabem para onde voltar cabeça. Quanto aos
religionistas, parecem haver desaparecido. Verdade que, com tempo, seu fedor regressará. No St. Louis Post-Dispatch de hoje, por exemplo, um charlatão, Jerry Falwell, Ministro de uma seita relativamente menor
sediada em Virginia, usando o fim do século como exemplo, indica que talvez o esperado desastre com os computadores - afirmação portadora de poucos factos - o país regresse ao cristianismo. É dizer, ao dia em que a INQUISIÇÃO moralmente voltará. Pobre Idiota.
COMENTÁRIO FINAL
Como alguns dos leitores acostumados às minhas cartas podem confirmar, demorei em enviar esta. Peço-lhes desculpa, agradecendo ao mesmo tempo aos que me contactaram perguntando se havia algo mal comigo. Não. Não houve nada. Em Outubro, aliás, estive na Irlanda, na Inglaterra, e na Alemanha.
O único que me aconteceu foi que uma manhã, ao entrar no carro que havia alugado em Cork, vi que alguém lhe havia dado uma pequena batida durante a noite. Por má sorte, havia apresentado ao alugar o veículo um Cartão de Crédito cujo seguro não me cobriu o gasto. Coisas da vida... Continuo com
meu programa radiofónico na WGNU, de Granite City, Illinois, e St. Louis, Missouri. Naturalmente, dado o que passa em Washington, e a pseudomoralidade da ala direita americana tenho-me divertido imensamente.
Não há nada mais cómico que escutar a um crente mal informado, ou desesperado. Há dias, por exemplo, passei parte de minha emissão apontando para aqueles trechos bíblicos à margem do exagero. Graças a Deus que não sou nem político, nem importante. Caso fora, hoje, sem dúvida, A INQUISIÇÃO À AMERICANA já teria acendido a fogueira ou, pelo menos, minha mulher, Katherine, estaria convencida de que eu tinha uma amante. É assim mesmo, como dizem no Brasil.
St. Louis, Missouri. 25 de Novembro de 1998 Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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