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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - O HOMEM MAIS VELHO DO MUNDO


A Bolsa de Valores já me chateava há dias. Abaixo e acima, abaixo e acima... "Viagem" que normalmente cansa quem prefere viver em paz e saber que seu rendimento no fim do dia será tanto. Foi então com grande alegria que, ao ligar o computador, descobri na Terça-Feira, 15 de Dezembro, que a maioria de minhas acções recuperaram o que haviam "perdido" na semana anterior. Uso aspas visto haver sofrido uma perda em papel e não em valor actual. Terça-Feira, no entanto, não foi um dia ideal. Apesar do que ganhei nas acções, fui expulso da Lista X.

Lista X?

Tudo começou há semanas quando recebi uma carta electrónica do Dr. Manuel S. M. Leal onde ele sugeriu que eu deveria participar num Bate Papo electrónico aberto a convidados sob os auspícios de um grupo localizado na Universidade de Aveiro. Já que a oferta não me custava dinheiro, e visto ter tempo disponível para qualquer tipo de tontice, respondi afirmativamente. Foi então que necessitei enviar ao Dr. Leal um breve CURRICULUM VITAE, o qual foi apresentado a quem mantém aquela lista e decide quem nela ingressa.

A princípio tudo pareceu importante. Os participantes escrevem individualmente o que querem e o material é divulgado simultaneamente entre os participantes. Minha primeira observação ao ver a primeira comunicação foi que não se tratava de nada, a não ser algo comparável às conversas que temos a caminho do trabalho, como, por exemplo: "Olá, Joaquim, a mulhé e a família vão bem?..." "E p'ra isso necessitei enviar CV?" Comentei. É dizer, considerei a Lista X como passatempo para quem tem pouco que fazer. Um dia, no entanto, encontrei uma benvinda enviada a meu nome por um participante micaelense que dizia: BEM-VIDO, CORISCO MAL AMANHADO. Além disso, encontrei outros comentários insinuando que eu não existia. Houve até quem acusasse o Leal de que Manuel Ponte era uma invenção psicológica sua. Foi então que decidi enviar à Lista um breve detalhe sobre a pena de morte em Missouri, o qual resultou em comentários adicionais de relativa inteligência.
Tempos após, os tribunais britânicos demonstraram, pelo menos temporariamente, que o mundo já não é lugar seguro para ditadores ao não permitir que Pinochet regressasse ao Chile sem primeiro responder na Espanha. De repente o delúvio apareceu. Não faltaram comentários na Lista X discutindo a decisão. Aliás comentei também, tendo recebido parabéns de alguns participantes pelo que tinha dito. O Dr. Manuel Leal, no entanto, igualmente entrou na conversa, chamando à atenção que um futuro similar ao de Pinochet esperava Fidel Castro, a quem muitos já lhe faziam a cama. Leal não recebeu resposta.

Não me lembro do que ocorreu em comunicações subsequentes. A não ser dos beijinhos e abraços que alguns dos participantes enviavam uns aos outros.
No entanto ocorreu-me enviar um pequeno detalhe baseado no "crime" americano, THE SCHOOL OF THE AMERICAS, um lugar onde forças armadas ianquis treinam forças latinoamericanas a manterem o "status quo" na América Latina custe o que custar, logo que tal "status quo" favoreça os objetivos políticos e económicos de Washington & Cia.. Interessante que, em forma particular, recebi um convite para escrever de duas a quatro páginas possivelmente detalhando algo mais sobre aquela instituição.

Não me recordo do que aconteceu em seguida. Sei que uma moça qualquer me mandou beijos. Por outra parte, apareceu um detalhe em português e em inglês que me forçou a perguntar porque razão a segunda língua havia sido necessária. Pergunta inocente. Recebi resposta no dia seguinte em duas línguas, onde me eram ensinadas tanto a língua portuguesa, como a inglesa.
Então respondi indicando que tinha noções das duas línguas e que, futuramente, apreciaria não receber comunicações daquele cavalheiro em inglês já que meu português era suficiente - aliás melhor, que seu inglês.
Mal conhecia a Boceta de Pandora que abriria. De todos os lados começaram a aparecer críticas.
Pessoas com quem eu não tinha tido contactos anteriores de repente aparecerem defendendo o Zé, "homem de letras", que havia vivido por algum tempo nos Estados Unidos. Dizer que me diverti não seria exagerar. Naturalmente, não falhava em responder apontando para as ironias que encontrava no processo, ou então, interpretanto certas frases conforme as entendia e sem as levar a mal. Uma das frases, parte de uma lengalenga pro-feminista de uma certa Lina, a qual se identificou afirmando que tinha um pouco mais de trinta anos, dizia: Se queres alguém com quem te meter, podes mesmo meter-te comigo, que apesar de nova tenho bom costado. Visto considerar o que passava como brincadeira, respondi: Com trinta, já és velha demais para mim.

Mal sabia o que me esperava. Se tivesse colocado uma mão desprotegida numa colmeia teria sido menos agredido. Verdade que houve quem me avisasse, talvez suspeitando que a mulher portuguesa, após dezenas de anos opressivos, encontrava-se pronta a se defender mesmo não sendo atacada.
Que uma das participantes na Lista se identificava como Susana - a Revolucionária - talvez deveria ser indicação suficiente para que eu parasse com a brincadeira. Infelizmente errava. Continuei alimentando a fogueira até sugerindo que, agora que havia VIAGRA para fortalecer o homem, talvez já era tempo para que mulheres cientistas descobrissem uma pílula para que o homem possa parir. É dizer, sugerindo igualdade total.
Foi então que pela primeira vez recebi um aviso do Padre António Batel Anjo. Seu nome havia aparecido em outras comunicações na Lista sem que ninguém se referisse a ele como Padre. Aliás, era conhecido como Batel.
Uma vez mais respondi com o que julguei ser humor sem realmente querer ofender ninguém. Além disso, havia há pouco novamente lido O CRIME DO PADRE AMARO, de Eça de Queirós, e assumia que as novas gerações sacerdotais haviam aceitado com humor algumas das hipocrisias de sua profissão.

Uma vez mais, errava. Além disso, entraram novos mosquitos no pântano. Entre eles um Henrique Jorge que se identificou como suficientemente velho para ser meu avô, facto que faria dele o homem mais velho do mundo. O Henrique havia entrado antes na Linha com um detalhe sobre a Malaca, cidade oriental onde já lá estive uma vez, e onde o português existe entre capas de livros principalmente editados em Portugal - talvez pela mesma gente que ansiosamente aguarda o regresso de D. Sebastião. Informava-nos o Henrique da falta de contactos portugueses com aquela cidade e de uma Página na Rêde (Em inglês) solicitando contacto com a Lusofonia.
Naturalmente, sendo suficientemente idoso para ser meu avô (Tenho 67 anos), o Henrique procedeu a educar-me, aliás insinuando que eu deveria visitar Portugal e aprender o que é ser delicado. Pouco lhe importou que antes a "Revolucionária" havia usado um palavrão comigo e que um outro qualquer havia traduzido para a Lista uma piada de Woody Allen discutindo os méritos da masturbação.

Antes de anoitecer em St. Louis recebi uma nova carta do Padre - desta vez identificado meramente por Batel. Solicitava que eu colaborasse com os demais. Verdade que não me pediu que eu lhes mandasse beijos, nem indicou onde beijá-los. No entanto indicou que a Lista tinha regras e que, além disso, seus participantes já lá se encontravam há anos. Portanto, se eu não me encontrasse disposto a seguir tais regras ele, para proteger a lista, e nada mais, terminaria minha participação.

Assim passei à eternidade da Lista X. Assim um grupo de pseudointelectuais portugueses regressaram ao seio da língua portuguesa "chic", onde quem sabe seis palavras em inglês, ou francês, ou italiano, tem que usá-las à força para impressionar os demais como se a nossa língua fosse deficiente.
Assim um grupo de portugueses sofisticados podem beijar um ou outro à vontade - e ciberneticamente - dentro de seus preconceitos e alegadas verdades como as do Henrique Jorge relativas à Malaca.
Verdade que, como me informou o Batel, a lista não é linha aberta. Quem sabe, talvez um dia necessite pago para que novos participantes entrem entre tanto "talento".

É de fazer rir...

St. Louis, Missouri. 16 de Dezembro de 1998
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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