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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - COMENTÁRIO EM DUAS PARTES


I


MAIO, 1998 - Devo resposta a três cartas. Infelizmente, agora que estou aposentado, a preguiça demonstra ser uma das fases mais fortes de minha vida. Além disso, desde que minha filha Mary Beth me ofereceu uma ligação na INTERNET, regressei a uma vida pseudouniversitária onde, sem receber crédito formal, passo meus dias aprendendo. Todas as manhãs, no entanto, leio o jornal. É interessante que, ao passo que anteriormente me preocupava com as notícias e opinões editoriais, hoje o primeiro que faço é abrir a página de óbitos. Por acaso, assim também começo a revista, Harvard Magazine, sempre que a receba, onde me dirijo à seccão de 1954 só para ver quais de meus ex-colegas universitários pararam de fazer seus feitos famosos - algo naturalmente esperado da mentalidade Harvardiana - ao passo que eu, preguiçosamente, e reconhecendo que pouco farei pelo mundo, permanecerei vegetando e realizando o que esperava da América - mas com certas modificações. Permitem que eu explique:

Quando a 22 de Fevereiro de 1946 o velho São Miguel me esperava no meio do Porto de Ponta Delgada, entrei no Café Royal e olhei para todos os lados esperando nunca esquecer o que via. Minha ambição naquela época era de um dia regressar àquele local com fundos suficientes para que lá passasse meus últimos dias jogando dominó. Hoje, graças a Deus, tenho dinheiro para que o faça. Posso dizer, portanto, que realizei meus objectivos na América. No entanto encontro-me em St. Louis, Missouri, no centro dos Estados Unidos, onde nem mar existe. Quanto ao São Miguel, hoje já nem sucata é. Posso dizer, então, que apesar da primeira afirmação deste parágrafo, meu objectivo se encontra parcialmente incompleto. Verdade que me resta ainda tempo para me realizar totalmente. No entanto, ao ver um outro aspecto de minha realidade, encontro obstáculos que não quero, nem posso, conquistar. Exemplo:

A. Não existem zonas residenciais em Ponta Delgada bonitas como a onde presentemente resido.
B. Nunca esperaria que minha família me dominasse tanto a vida.

Da zona onde vivo já falei várias vezes. Como também já falei da família. No entanto, talvez falar uma vez mais não chateie. Ou, se chatear, bem, no leitor sempre restam as últimas opções.

Ontem, como sabemos, foi o anual Dia das Mães por toda a América. Verdade que não há nada sagrado que determine aquele dia. Além disso, ser mãe não é nada fora do ordinário. É algo biológico derivado de um acontecimento pela qual a mãe merece 50% do crédito. De facto, se a mãe de minha mãe tivesse tido testículos, hoje seria avô. Aliás o Dias das Mães foi inventado pela AMERICAN FLORISTS ASSOCIATION, organização dedicada a vender montões e montões de flores. Quantas mais, melhor.
Naquele dia, portanto, que mais poderíamos fazer por nossas mães como gesto de nosso amor comparável ao enviar-lhes todas a flores, domésticas ou importadas, disponíveis de costa a costa? Para dizer a verdade, nunca liguei muito para o Dia das Mães, cínico que sou. No entanto, tenho filhas extremamente sentimentais para quem o Dia das Mães é algo que se celebra com imensa paixão. Duas delas vivem perto de minha casa, e, por sorte, são ambas mães (Cinco raparigas e um rapaz). Portanto, ser-me-ia totalmente impossível celebrar um dia de tão grande insignificância vivendo em São Miguel como o celebro por estas partes. Além disso, sou louco por meus netos. Nem só os seis que acabo de mencionar, com também os três de minha filha Jane, que vivem a duas horas de St. Louis, em Hannibal, Missouri. Jamais o jogo de dominó no Café Royal poderia competir com minha separação deles. Além disso, a última vez que passei pelo Royal vi algo que me chateou sem fim - a maneira como o micaelense fuma. Deus meu, pergunto, como é possível que a mesma ilha onde vesti a primeira camisa se tenha submetido tanto à estupidez? Jamais eu poderia passar muito tempo num local rodeado de gente incapaz de reconhecer que o tabagismo é um daqueles vícios que nunca deveria haver começado. Pelo menos entre quem nasceu após 1964, quando foi anunciado mundialmente que o fumar não é sofisticação, mas, sim, um convite aos serviços oncológicos hospitalários.

II


31 DE DEZEMBRO DE 1998 - A Zona Metropolitan de St. Louis está coberta de neve, a qual, com o sol brilhante, nos oferece um dia resplandecente. São duas da tarde. Acabei de almoçar - sopa de galinha, uma sanduíche de queijo, chá, e uma pequena sobremesa consistindo principalmente de doces do Natal que escaparam meus netos. Já 1999 nasceu no Oriente e em breve nascerá na Europa, onde simultaneamente aparecerá uma nova moeda em onze países. Nos Estados Unidos senadores continuam discutindo o que fazer com o caso do Presidente Clinton, ou, melhor, como proceder com o novo estilo de INQUISIÇÃO. Verdade que o povo insiste em que a legislatura nacional não perca mais tempo com a porcaria, visto que nada acontecerá. Aliás, em breve o povo estará mais preocupado com quem ganhará o Campeonato da National Football League de com a palhaçada em Washington. A ala direita do Partido Republicano, no entanto, continuará demonstrando sua estupidez e a temer a religiosidade que, caso tivesse poder, faria do país algo equivalente ao Irão - servindo Cristo, naturalmente, e, talvez, tentando impor a cruz como nova forma de pena de morte, já que a injecção tóxica aplicada aos pobres que não tiveram um bom advogado - ou um com meios para que defendesse seus respectivos acusados bem - comprova que a pena de morte é uma vingança cívica que não reduz a criminalidade, nem resolve nada além de comprovar a estupidez.

Por outra parte, a propaganda contra o Iraque continuará, graças aos investimentos petrolíferos das grandes companhias britânicas e americanas fora da área dominada por Saddam Hussein. Pouco importará aos decisórios políticos em Washington, ou Londres, que o conflicto só prejudica inocentes do país árabe, logo que a abundância do petróleo presentemente no mercado não force as companhias petroleiras a cortar seus lucros demasiadamente, ou que os países onde tais companhias têm poderes superiores não terminem desastrosamente na bancarrota. Para quem vive fora dos Estados Unidos, eis um pequeno detalhe relativo ao que afirmo: Um galão de gasolina, após todos os impostos, continua custando menos que um galão de Coca Cola.

Para nós em St. Louis, em pouco teremos a visita de João Paulo II, e uma vez mais a propaganda que a acompanhará. Ironicamente a Cidade de St. Louis, a maior da Zona Metropolitana, onde o sistema escolar é péssimo e as escolas públicas igualmente inferiores devido à falta de fundos e de gente em quem a municipalidade deveria investir, tem encontrado dinheiro para renovar as vias por onde o Papa passará, assim demonstrando ao mundo a ficção que tudo segue bem no lado ocidental do Mississippi. O Presidente Clinton espera visitar St. Louis também, chegando simultaneamente com o Grande Pastor. Não sei se a visita terá algo a ver com alguma conversão clintoniana para o catolicismo, visto Clinton estar presentmente buscando todo o tipo de perdão. Veremos. Nem sequer sei se o evento terá algo a ver com o facto que a Igreja Católica local demonstra um divisionismo que já há muito deveria ter aparecido publicamente. Como, por exemplo, a polémica entre o Arcebispo Rigalli (pessoa relativamente pouco popular localmente, cuja posição se deve aos anos que passou na burocracia eclesiástica romana, e não a nenhum outro atributo) e a Universidade de St. Louis, onde os Jesuítas que a dominam parecem não querer dar bola, como dizem no Brasil, ao arcebispo. Até agora o placar mostra: Jesuítas 1 - Arcebispo 0. Os próprios Jesuítas, por sua parte, e dentro da própria universidade, têm encontrado algumas dificuldades políticas, graças a que, como autoridades religiosas, tentaram impor a aberração da censura no jornal universitário. Neste segundo jogo, o placar mostra: Estudantes Jornalistas 1 - Jesuítas 0.

Por minha parte, espero continuar meu program radiofónico na WGNU de Granite City (Illinois) e St. Louis (Missouri). É algo que faço por amor.
Vivo no entanto um pouco temeroso de que um dia a ala religiosa da direita descubra que a maioria dos factos bíblicos são mais imaginários que história, verdade, ou jornalismo. Ou que os superpatriotas da ala direita republicana nos Estados Unidos encontrem alguém com um alfinete disposto a furar-lhes qualquer ponto da cabeça, assim permitindo a saída do ar que aquela ala confunde com células cerebrais. Confesso sinceramente que, caso tal apareça, será um desastre para mim e para o meu programa, visto que tais factos tirar-me-ão a oportunidade de sentir idiotas sofrendo no outro lado do emissor. No entanto, após mais de meio século nos Estados Unidos, estou seguro que, caso tal aconteça, não demorarei em encontrar nova gente com quem me divertir. Quando Deus criou a América - no oitavo dia, sem dúvida - fez dela um país de grandes recursos, de tudo, realmente. Para quem gosta de diversões artificiais, por exemplo, Deus deu ao mundo Walt Disney e outros do género. E para quem, como eu, não gosta de gastar dinheiro em passatempos "Disneylândicos", Deus inventou o americano e sua mentalidade.

Bem. Por este ano, nada mais. FELICIDADE, PAZ, E SAÚDE EM 1999.

St. Louis, Missouri.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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