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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - VIDA DIFICILMENTE SIMPLES...


O norteamericano, por natureza, está acostumado à simplicidade do viver enquanto simultaneamente fazendo dela algo que geralmente acaba em auto benefícios. Foi o norteamericano, por exemplo, que inventou o TIME OUT no desporto, visto querer ter a certeza do que está fazendo. No futebol internacional o jogador pode fazer maladragem para parar o jogo, "furar" a bola, etc. Nos jogos inventados pelo norteamericano, no entanto, regras obedecem ao cronómetro, ou aos contratos que os clubes tenham com as firmas que, em câmbio de publicidade televisiva, patrocinam os jogos. Com isso não quero insinuar que o norteamericano não seja malandro - pelo contrário. No entanto, instituições neste país existem para que o barco não encontre maré antagonística. "We must get along, children. No religion. No politics, please..."
Ainda esta semana, por exemplo, fui informado num certo sistema em que participo na Internet que "If you can't say anything nice, don't say it." Por acaso comentava da palhaçada Washingtoniana na qual Kenneth Starr tenta apresentar-se com o antigo "cowboy" de chapéu branco, o qual salva a virgem dos "desperados", protegendo-a para a primeira noite de lua de mel após seu casamento na igreja. Então respondi que não há nada "nicer" que uma talhada de melancia no verão, uma lagosta bem apresentada à mesa, etc. Nada "nicer" - a não se uma boa mulata para o português.

Por ter apontado para esta última verdade, fui acusado de racista e chauvinista macho... Bem, há certos dias em que nem vale a pena que um homem se levante da cama...

Com aproximadamente sessenta e oito anos, no entanto, já cheguei a um ponto em que pouco me chateia. Levo a vida mais ou menos conforme leio os óbitos diários e reconhecendo que se chegar a viver o tempo que Fulano, Sicrano, ou Beltrano chegaram a viver, tenho dinheiro suficiente para até ao último dia. E, se não tiver, que poderá o mundo fazer? Condenar-me a uma prisão perpétua onde apesar de não me poder manter economicamente, terei cama, mesa, e roupa lavada? Verdade que todos nós pensamos em deixar algo a nossos filhos... Tontice, realmente. Idiotice. A primeira regra da vida deve ser o viver. A segunda, gastar tudo o que ganhámos até ao ultimo centavo e, a caminho da última viagem, partir com o único que podemos levar - a barriga cheia. Porque, realmente, quem fica atrás jamais se preocupará com a utilidade em que nós, ou qualquer outro ser, necessitámos até ao adeus final. Já houve alguém, por exemplo que até agora tivesse pensado no valor que através dos milénios a simples e humilde minhoca tem tido para a humanidade? A verdade é que nunca. Aliás há um ditado português onde se afirma que "cada cavadela, sua minhoca", o qual insinua que cada coisa que se faz para o bem apresenta seu problema. A ironia é que, graças ao trabalho da minhoca no estrume, ou no lodo, a terra continua renovando o potencial que nos mantém. No entanto, a não ser que queiramos pescar, a minhoca é ignorada. Conheci um homem em São Miguel, por exemplo que, sempre que encontrava uma minhoca em seu jardim, tinha que matar "a corisca", sem saber que, em cortá-la em duas partes, só acabava em duplicar-lhe a vida. É dizer, até quando maltratada a minhoca demonstra sua generosidade... O mesmo acontece quando já temos ido da vida. O que gastámos, sejam tais gastos em tais investimentos como a educação de nossos filhos, netos, etc., ou no nosso bem estar, logo que tal bem estar não sacrifique os demais, é, a meu ver, um dever. Eu, por exemplo, orgulho-me de que meus pais, apesar de simples e humildes micaelenses, tiveram a oportunidade de frequentar lindíssimos pontos do mundo como Madrid, Lisboa, Londres, México, Montréal, Nova Iorque, Paris, San Juan, etc. Deveriam ter viajado mais. No entanto, com aquela mentalidade de nunca terem que "dever nada a niguém" acabaram por deixar seus últimos patacos na Mark Twain Nursing Home, onde minha mãe eventualmente faleceu de consciência livre de obrigações. Por acaso, no dia de sua Missa Fúnebre, recebi seu último extracto bancário. Consistia de quatro centavos, graças a Deus...

Agora pergunto: Será possível que, tendo meus pais guardado seu dinheiro sem gastá-lo como indiquei, eu pensaria mais no que eles fizeram enquanto por cá passaram? Ou que meus netos reconheceriam que havia sido graças aos bisavós que, em lugar de um hamburguês da McDonald's, hoje só comeriam no Ritz?

Verdade que quem tiver ocasião de ler este trecho talvez chegue à conclusão que apresento o niilismo como a única forma de viver. Pelo contrário. A vida, creio, deve ser vivida como se cada momento fosse o último que temos. O que deixamos para o futuro quando a possibilidade de aproveitá-lo hoje nos é apresentada é algo que se perde. Porque, realmente, o futuro não existe. É um momento indefinido, longe... longe... longe... Com isso não quero insinuar que quem melhor desfrutou do passado morrerá melhor morte. Não existe definição qualitativa de morte, visto geralmente a morte ser a única capacidade humana que, na maioria, tentamos adiar, ou nunca utilizar. No entanto, reconheço que, no momento em que qualquer viveu e aproveitou o máximo que a vida lhe apresentou, talvez tivesse feito mais por reconhecer que aquilo que Deus nos ofereceu talvez não esteja "lá no outro lado", mas. sim, entre nós.

St. Louis, Missouri, 19 de Fevereiro de 1999.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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