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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - WHO KNOWS WHERE THE ROAD WILL LEAD US...


Só um idiota poderá dizer.

Desconheço os líricos completos da canção. Sei que o título é ALL THE WAY (Tradução: ATÉ AO FIM). Sei que igualmente quando a escutei por primeira vez assistia a um filme onde Frank Sinatra pretendia apresentar-nos a vida de Joey Lewis, um artista americano conhecido em Las Vegas nem só por seu talento como por seu alcoolismo e seu vício nos salões de apostas daquela cidade.

WHO KNOWS WHERE THE ROAD WILL LEAD US... (Tradução: QUEM SABE P'RA ONDE A ESTRADA NOS LEVARÁ...). Quem sabe?

Vem esta crónica no entanto não para comentar daquela frase, mas, sim, para confirmar que, como pregunta ou observação, ela termina em si própria. Em ambas formas é como porta que se abre apresentando-nos uma infinidade de opções, entre elas algumas impenetráveis.

Em muitos aspectos, talvez não exista uma frase que mais represente a vida. Porque, para quem analisa o que somos, a vida não é somente aquele período que nos transporta de ponto A a pontos B, C, D, etc., mas, sim, uma continuidade onde novas estradas nos são constantemente apresentadas através de novos tempos, locais, ou novas gerações.

Em 1953 vi Guilherme da Ponte Rezendes por última vez. Por acaso eu ainda estudava e vivia em Cambridge, Massachusetts. Guilherme trabalhava na época como tripulante num dos barcos dos Carregadores Açoreanos, a qual, como parte de sua rota, viajava aos Estados Unidos. Guilherme esteve por estas bandas em duas ou três ocasiões. Antes, havia-o visto por última vez em São Miguel no dia em que emigrei. Encontrava-se em casa de um irmão maior, meu tio António, na Praia dos Santos, em São Roque. Por uma forma ou outra, meu tio Guilherme nunca me pareceu homem muito inteligente. Talvez por muitas vezes estar sob a influência do álcool.

Além de cuidar do alambique de meu tio António, tio Guilherme trabalhava algumas vezes com "campónio", assim me disse um dia. Seu trabalho preferido, no entanto, era na estiva quando Ponta Delgada era beneficiada pela visita de algum cargueiro. Quando não tinha onde trabalhar, tio Guilherme ou "ia aos polvos", ou "às lapas". Era um magnífico nadador e, graças àquela capacidade, ainda tenho saudades das suculentas lapas que ele apanhava no fundo dos poções onde poucos podiam chegar. Tão fortes eram tais saudades que, em 1969, quando regressei a São Miguel por primeira vez após mais de vinte três anos de ausência, e após haver viajado pelo mundo e vivido em lugares como o Gran Hotel, em Paris, o Imperial, em Tóquio, o Plaza, em Buenos Aires, o Palace, em Madrid, etc., uma das primeiras perguntas que fiz no Hotel de São Pedro foi onde eu poderia comer "umas lapas frescas". O meu amigo, Manuel Pedro Portela, que me ouvi fazer a pergunta, teve a gentileza de me convidar à sua casa na terceira noite após minha chegada e de abrir o nosso jantar com um pequeno prato onde, entre um pouco de arroz, se encontravam umas lapas cozidas para nos abrir apetite. Algo delicioso - superior a qualquer tipo de "paella" espanhola que eu tivesse saboreado até hoje.

Infelizmente, e por delicadeza, nunca indiquei ao Portela que o que eu realmente queria era comer uma daquelas lapas ainda vivas cujas conchas estavam cobertas de musgo e haviam sido trazidas lá do fundo do mar por alguém que conhecia pouco da vida sofisticada.

Regressemos, no entanto, a Guilherme da Ponte Rezendes. Em 1939, mais ou menos, "fugiu p'ra casar". Já há muito namorava a Lídia "Pauleta", como ele igualmente de São Roque. No entanto, ao passo que tio Guilherme tinha a possibilidade de herdar um pequeno quinhão da propriedade sita a 2-4 Rua Praia dos Santos, caso a guerra acabasse e o cultivo do ananás regressasse à sua prosperidade anterior, Lídia, infelizmente, era pobre - pobríssima, de facto. Estou seguro que quando "fugiu p'ra casar", sua família deu graças a Deus por não ter que pensar na possibilidade de pagar nem por boda nem por dote. É dizer, dada a situação acima mencionada, esperanças eram poucas de que Guilherme e Lídia tivessem chegado a algo notável.

Oh, como o mundo erra na sua sabedoria... E é aqui onde a tal frase, QUEM SABE P'RA ONDE A ESTRADA NOS LEVARÁ, entra. A vida, como indiquei, é algo contínuo. Se em 1939 alguém tivesse dito a Guilherme e a Lídia que um dia um vestígio de sua continuidade seria alvo de atenção mundial, estou seguro que, pelo menos meu tio na sua simplicidade confusa, jamais saberia o que responder. Se alguém tivesse dito a meu tio que um dia Pedro Manuel Resendes assinaria um contrato no valor de vários milhões de dólares e que graças parcialmente à sua presença nos gramados do Clube de Futebol de La Coruña, na Espanha, aquele clube talvez ganhe a COPA DEL REY da Liga Espanhola, estou seguro que ele jamais acreditaria. Se alguém tivesse dito a Lídia que aquele apelido depreciativo, Pauleta, seria um dia feito honra, graças a seu DNA através de seu neto, estou seguro que talvez se divertisse sem acreditar. A vida, no entanto...

O ano passado, meu neto Jonathan (hoje com um pouco menos de nove anos) contou-me que suas matérias favoritas na escola eram trabalhos manuais e futebol. Então aproveitei-me da ocasião para lhe contar que ele ainda tinha um primo distante, o qual jogava para um clube numa cidade histórica chamada Salamanca e que era um dos melhores marcadores na Espanha, onde o futebol é algo extremamente importante. Jonathan ficou impressionado. No entanto, aproveitando-se de meu entusiasmo, olhou para mim e perguntou: "Ele como se chama?"

"Pedro Manuel," respondi, "mas é mais conhecido como Pauleta."

"Já que me falou dele," disse Jonathan, "meu avô pode far com ele a meu respeito?"

E asim fiz. Recentemente escrevi ao presidente do La Coruña, o qual teve a gentileza de enviar a Jonathan uma fotografia de Pauleta devidamente autografada. Jonathan levou-a para Escola da Sagrada Família, em Hannibal, Missouri, onde é aluno, o que impressionou o resto das crianças de tal forma que muitas querem saber nem só do progresso do La Coruña, mas se Pauleta marcou de novo. E, uma vez mais, a tal frase: QUEM SABE ONDE A ESTRADA NOS LEVARÁ...

Mal sabiam Guilherme e Lídia quando "fugiram p'ra casar" que em duas gerações futuras apresentariam ao mundo um embaixador.

WHO KNOWS WHERE THE ROAD WILL LEAD US... Só um idiota poderá dizer.

St. Louis, Missouri, 28 de Março de 1999.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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