Porque, realmente, contrário ao que muitos pensam, o governo não tem dinheiro. Nem nunca deve ter...
A nacão, sim. E quem é a nação? O povo, naturalmente. O simples Zé Povinho que, ao nascer, tornou-se imediatamente patrão. Quanto ao governo, ou governantes, etc.? Bem, são empregados. Nada mais.
Para quem desconhece o sistema americano, este país é pura confusão. Tentar explicar a qualquer como funciona é entrar num túnel onde jamais poder-se-á encontrar saída. Os Estados Unidos é um país de governos e mais governos. Temos o governo federal, governos estaduais, governos locais, comissões metropolitanas cujos poderes abrangem governos estaduais e locais (Exemplos: The Port of New York Authority, onde os Estados de New Jersey e New York participam igualmente e em forma cooperativa na
administração de portos, aeroportos, etc. ou a St. Louis Bi-State Transit Authority, onde Missouri e Illinois colaboram conforme as populações servidas por aquela entidade), distritos escolares, etc, etc... ad
infinitum. Parece que para tudo temos um sistema governamental nos Estados Unidos. O que é irónico visto esta ser uma nação cuja crença cívica afirma que temos um país onde funções governamentais devem ser geralmente simples. "O melhor governo," assim afirmam muitos americanos, "é o que
menos governa."
Naturalmente, há que pagar pela maior parte de manutenção de tais governos e dos serviços que eles nos proporcionam. O resultado é que, geralmente no fim do ano, chegam as contas de várias contribuições a pagar, talvez para que assim o povo se desperte da euforia do Natal e enfrente igualmente o desepero. É dizer, para que o povo, ao celebrar a vida de Abel não se esqueça de que o pobre, apesar de filho bom, foi no entanto vítima de Caím.
Apesar de aposentado, por exemplo, figuro que nos últimos seis anos já paguei pelo menos U. S. $130,000.00 (Cento e trinta mil dólares de impostos e contribuições) a todas as entidades governamentais a meu redor.
É natural, então, saber para onde foi tal dinheiro.
Esta semana recebi um pequeno detalhe - não dos últimos seis anos, mas, sim, do que o Estado de Missouri, onde resido, espera gastar para o ano que vem. Há que reconhecer que as cifras representam unicamente o que o estado necessitará e que nelas não figuram nem gastos federais, nem locais, os quais, como indiquei, estão completamente separados. Isso, apesar do facto que alguns departamentos (Educação Primária e Secundária, por exemplo) parecem à primeira vista - ou a quem não tem detalhes de suas actividades e jurisdição - duplicar esforços dos distritos escolares locais.
Missouri, localizado no centro dos Estados Unidos, tem uma população de aproximadamente 5.300.000 habitantes, os quais serão responsáveis por um orçamento de U.S. $16,788,364,601 no Ano 2000. É dizer, uma média de U.S. $3,168 por habitante. Verdade que, dada a média salarial do estado
(Aproximadamente U.S. $28,000 por lar), serão poucos os que pagarão aquela quantia. O dinheiro, no entanto, aparecerá, procedente de vários fundos, o qual será utilizado nas seguintes percentagens:
Serviços Sociais: 29,9%
Educação Primária e Secundária: 23,2%
Educação Universitária: 6,6%
Departamento de Fiscalização: 9,4%
Vias e Transportação: 8,4%
Prisões e Segurança Pública: 4,7%
Administração do Estado: 4,2%
Departamento de Saúde Mental: 3,9%
Departamento de Recursos Naturais: 1,8%
Departamento de Saúde: 1,8%
Legislatura e Tribunais: 1,7%
Desenvolvimento Económico: 1,4%
Dívida Pública: 1,3%
Agricultura e Conservação Ambiental: 1,0%
Relações Industriais e Trabalhistas: 0,7%
Desconheço como comparar aquelas percentagens com outras de outros estados. No entanto, do ponto de vista pessoal, sinto-me satisfeito.
Verdade que em muitos aspectos, Missouri deixa muito que desejar. Como, por exemplo, o grande abismo económico e social entre locais relativamente próximos. No entanto, reconhecendo que tradicionalmente o povo de Missouri no último século tem sido economicamente conservador, forçando o estado a viver de cintura apertada e deixando gastos locais sempre que possível às suas respectivas comunidades, as desigualdades muitas vezes acabam sendo altamente notáveis. A ironia é que, dado o carácter independista da população, o sistema funciona. Em Missouri o progresso humano não é prioridade. Pelo menos é o que o povo parece afirmar, algo como a "Missouri Waltz", onde o objectivo é dançar dois passos p'rá direita e dois p'rá esquerda, mas, no final, sempre acabar no lugar onde se começou.
Em breve, uma vez que haja conseguido detalhes adicionais, espero escrever de como outras entidades governamentais gastam o que cobram. Isto não só para que tenha noção de que meu dinheiro não está sendo jogado ao ar inutilmente mas para reconfimar o que já há muito sabia: Nos Estados Unidos, como em qualquer outro lugar, um copo de água gratuitamente servido é, de verdade, um mito.
St. Louis, Missouri, 2 de Julho de 1999. Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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