Artigos de Opinião PortugalEmLinha logo

Manuel L. Ponte


Carta da América - AUTÓGRAFO DE "FRANCISCO JOSÉ"


Tinha acabado de chegar no Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro, procedente de São Paulo, onde havia passado os dois dias anteriores.
Naquela época ainda não me hospedava no Glória, preferindo o Hotel Trocadero, em Copacabana.

Por acaso, perto do hotel havia um restaurante português, Lisboa À Noite, que presentemente se encontra no Ipanema, onde a clientela prefere pagar mais por comida inferior à que era servida no primeiro recinto. No entanto, o restaurante era um lugar íntimo, e os artistas, alguns desanimados com o salazarismo, eram de primeira qualidade.
Infelizmente, apesar de Francisco José se haver tornado famoso no Brasil quando trabalhava no primeiro local, nunca o conheci. Portanto, não sei se na época nos parecíamos um ao outro. Açoreanos e alentejanos têm muito em comum genéticamente.

Entrei no táxi que esperava na confusão da fila matutina e, com meu sotaque micaelense, indiquei ao motorista que me levasse ao Trocadero "lá na esquina da Paula Freitas e da Atlântica," continuei para que o homem não tivesse nenhuma dificuldade. "Sim, patrão," respondeu.

Seguíamos a costumária rota quando, ao entrar na Avenida Oswaldo Cruz, no Flamengo, o motorista puxou para a direita e parou o carro.
Virou-se para mim e perguntou: "O senhor não é o Francisco José?"

"Não. Não sou," respondi.

"Parece ser. É, sim. Já o vi ao lado de fora do Lisboa À Noite, onde você canta. Minha mulher, que é portuguesa, é louca por você. Graças a Deus que não sou ciumento ou a gente já se tinha desquitado. Você é Franciso José. É, não?"

"Não sou, não."

O homem voltou-se para a frente. No entanto, antes de partir novamente, virou-se uma vez mais. "Bem. Eu sei que vocês, artistas, não gostam de chatos como eu. Porque, afinal, não há nada mais chato que chato. É aborrrecido, mesmo. Mas a verdade é que, eu não vou dizer a ninguém que você viajou comigo e onde você está alojado. Só à minha mulher. Oh, se o você soubesse como ela ficaria agradecida pelo seu autógrafo."

Não fui capaz de me conter mais. "Como se chama sua senhora?", Perguntei.

"Maria Clara da Conceição Pinto."

Abri a pasta e tirei uma folha de papel. O homem mirava ansiosamente.
"Para Maria Clara da Conceição Pinto, com amizade, e como patrício," escrevi. Abaixo assinei: "Francisco José". Por acaso, lembrei-me das fotografias de passaporte que tinha com meus documentos, que, contrário ao que tais fotografias muitas vezes apresentam, me davam um ar artístico. "Olhe," continuei, "infelizmente não tenho nenhumas fotos de promoção, mas tenho estas a mais. Voi grampar uma ao autógrafo, se me permite."

E, pegando no pequeno grampeador que tinha na pasta, adicionei a foto ao "documento" original, após haver colocado as iniciais "F.J." sob a gravata, em forma bem visível. Entreguei o grande brinde ao homem que parecia não saber o que dizer. Passou o resto da viagem tentando cantar com sua pronúncia carioca as canções que haviam feito do alentejano o êxito da canção portuguesa. "Oh, como eu gosto de 'Maria Morena', de 'Teus Olhos Castanhos' de 'Nem Às Paredes Confesso'... Em ouvir você, me sinto honrado por ter casado com portuguesa."

Felizmente não pediu que eu cantasse. Disse-me uma vez o Sr. Lícinio Costa, antigo professor de canto coral no Liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada, que minha voz nem para cantar "A Portuguesa" servia. Crítica que nunca me preocupou, visto que sempre considerei que o marchar contra canhões jamais faria parte de minha pouca coragem e que, portanto, nunca conscientemente incentivaria a que outros o fizessem.

Chegámos por fim ao Trocadero e, visto taxímetros no Rio nunca estarem em sintonia com o valor de qualquer viagem, devido aos valores monetários da época, perguntei quanto devia. "Ora essa," disse-me o motorista. "Depois do que você fez por mim e por minha mulher, você me pergunta quanto me deve. Sou eu que devo a você. Ora essa!"

Não sabia o que responder. No entanto, já o porteiro do hotel havia pegado na minha bagagem, e já que no Rio nem em porteiros deveremos confiar, saí então do veículo, despedindo-me do motorista com um forte aperto de mão. Fiquei parado por uns momentos ao vê-lo partir. Graças a Deus que já o carro se encontrava distante quando ouvi a voz do Cosme, o "engraxate" que me servia diariamente em frente ao hotel.
"Então, Só Manel. Por cá outra vez?"

Desconheço o que aconteceu ao motorista quando entregou sua prenda à mulher. Ou, melhor: Imaginemos o que poderia ter acontecido ao Francisco José se um dia, sofrendo de laringite, se encontrasse com o mesmo motorista sem poder cantar "Teus Olhos Castanhos"...
Pagaria o dobro. Pelo menos...

Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
19 de Outubro de 1993


Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas
Participe no debate! Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.


Notas biográficas | Voltar à página de artigos | Voltar à página principal

PortugalEmLinha Logo
E-mail: info@portugal-linha.pt
Envie-nos o seu comentário para admin@portugal-linha.pt