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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - SEM SENTIDO


Os Estados de Illinois e Missouri são ambos banhados pelo Rio Mississippi - Illinois na margem oriental, Missouri na ocidental. Para quem desconhece estas bandas, os dois estados no centro do país têm muito em comum além do rio apesar de que, em muitos aspectos, tenham simultaneamente menos em comum que países da Nova Europa tenham entre si. É dizer, em muitos casos os dois são realmente dois "países" com fronteiras geográficas e culturais devidamente marcadas. O norte de Illinois, por exemplo, faz parte do mercantilismo originalmente alimentado pela Revolução Industrial dos Séculos XIX e XX, enquanto o sul deriva uma grande parte de sua prosperidade da agricultura e indústrias relacionadas. Além disso, há que reconhecer que apesar da grande Cidade de Chicago se encontrar situada em Illinois, o sul do estado por anos tem dependido económicamente mais de sua proximidade a St. Louis (No Estado de Missouri) que da outra grande e próspera cidade.

Dizer que St. Louis, portanto, não consiste somente da Cidade de St. Louis e do Concelho do mesmo nome não seria falar totalmente do ambiente ou dos valores locais. O racismo, por exemplo, que em muitos aspectos separa a cidadania em St. Louis penetra na Zona Oriental do Mississippi ainda em termos mais fortes que em Missouri, carregando consigo todas as suas deficiências e falhos que elas causam. Porque ao passo que em Missouri o estado tem meios de tentar eliminar aquela praga, tais meios não são aplicados quando interesses económicos de Missouri atrevessam o rio. Há dias, por exemplo, estive em East St. Louis (Illinois) e por uns instantes me senti como se tivesse atravessado uma fronteira internacional, como, por exemplo, a da Zona de San Diego, na California, para Tijuana, no México. Verdade que ninguém me pediu bilhete de identidade ou passaporte.
No entanto a realidade racial, social, e económica entre os dois lados do rio eram comparativamente incríveis. Além disso, não viajava só. No carro comigo encontravam-se minha esposa e um casal amigo. Ao passo que o marido do outro casal não parecia estar preocupado (Talvez por haver nascido e vivido grande parte de sua vida no liberalismo da Holanda) sua mulher viveu momentos de pânico até que entrámos na Estrada Interestadual 64, onde o carro aumentou velocidade. A ironia é que em nenhum momento ninguém nos mostrou aspectos de criminalidade. De pobreza, sim. Da mesma pobreza que, infelizmente, é alimentada por quem teme a criminalidade que aquela condição (pobreza) muitas vezes gera. Graças às comunicações sociais, no entanto, entre os temores como os demonstrados por aquela senhora, aparecem de quando em quando comentários onde em termos quixóticos quem os faz tenta chamar à atenção que tais temerosos sofrem mais do exagero que da realidade. Por acaso, e graças ao meu programa radiofónico semanal na WGNU (St. Louis, Missouri, e Granite City, Illinois), tento contar-me entre um dos anti-temorosos. Um de meus frequentes temas, por exemplo, tem sido contra a pena de morte, uma barbaridade que, infelizmente, define os Estados Unidos e a estupidez de uma grande parte de sua população. Verdade que aquela pena não é universalmente aplicada. Há vários estados onde ela não existe. Além disso, há que reconhecer na verdade que, quando aplicada, ela é geralmente usada contra pobres, minorias, ou deficientes mentais. Em 1999, por exemplo, o número de execuções nos Estados Unidos atingiu o nível mais alto do país em 45 anos. 98 pessoas foram executadas do 1 de Janeiro até hoje (27 de Dezembro). Aproximadamente 600 pessoas já foram executadas desde que o Tribunal Supremo eliminou sua proibição contra a pena máxima em 1976. O Estado de Missouri, por exemplo, apesar de ser um estado médio em população (Missouri tem menos população que a Zona Urbana de Los Angeles) em 1999 foi o terceiro maior carrasco do país, tendo executado 9 cidadãos. Teriam sido 10 se a visita de João Paulo II a St. Louis em Janeiro não tivesse coincidido com a data de execução de um condenado, o qual foi perdoado pelo governador Mel Carnahan. Em Illinois, no entanto, o estado, apesar de imensos erros, confirmando que uma grande parte de seus condenados não haviam sido competentemente representados nos tribunais, as autoridades insistem em não eliminar a pena, mas em sugerir um moratório enquanto o Tribunal Supremo e a Legislatura daquele estado estudam como resolver o problema das injustiças cometidas nas possíveis aplicações da pena. Em Illinois em 1999, por exemplo, uma dúzia de condenados foram postos em liberdade visto estarem totalmente inocentes e haveram sido vítimas de evidência fabricada pelas entidades judiciárias. Imaginemos a injustiça que o estado teria cometido caso tivesse implementado sua decisão final...

Em Missouri, no entanto, a legislatura continua obedecendo parcialmente às emoções populares as quais indicam que mais de 50% da cidadania aprova da pena máxima. Por ironia, mais de 50% da mesma população igualmente aprova a possibilidade de um moratório por três anos - não para eliminar a pena, mas para que ela seja aplicada mais justamente - ou decentemente, caso aquela teminologia faça sentido num caso onde um humano é sacrificado.
Parece mentira, realmente. Foi em Missouri que se construiram as primeiras cápsulas que levaram astronautas americanos ao espaço. Foi em Missouri que o primeiro jardim infantil escolar ('kindergarten') foi introduzido no país. Foi em Missouri que nasceram tais génios literários como Mark Twain, T. S. Eliot, Tenessee Williams. Foi em Missouri que nasceram os artistas Thomas Hart Benton, Walt Disney, etc. . Que após haver sido berço de tais gentes o estado ainda não tenha reconhecido que a pena máxima é uma nódoa que não deve permanecer entre nós é algo difícil de entender. A pena de morte não justifica nada além da vingança. Em reflexão, é fácil confirmar que não ensina nada a ninguém nem ajuda a manter nenhuma forma de segurança civil. Missouri, por exemplo, tem aproximadamente 5.500.000 habitantes. Como, em nome de Deus, ou da razão, a população se possa sentir mais segura hoje que ontem se, na escuridão da noite, e numa prisão isolada na pequena Cidade/Vila de Potosi, um desgraçado qualquer, muitas vezes alguém por quem a sociedade nunca se preocupou quando ele buscava sua ajuda, pague com sua vida para o bem da mesma sociedade?

Não faz sentido, realmente. Pelos menos não a mim. A não ser que eu seja incapaz de descobrir a floresta visto me encontrar entre milhões de árvores.

St. Louis, Missouri, 27 de Dezembro de 1999.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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