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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - 1999


É impossível afirmar que 1999 não foi um ano de grandes eventos. Verdade que, apesar de Wall Street e a nova informática terem feito milionários de muita gente que tradicionalmente nunca tinha tido sorte com o simples processo de viver (Gente sonhadora, preguiçosa, etc.), eu, por má sorte, perdi dinheiro na Bolsa de Valores. Não muito, mas perdi. Hoje estou mais pobre de que há um ano.

A culpa foi minha, visto um amigo para quem a Bolsa é a melhor forma que ele usa para aumentar seu património, me haver avisado que meus investmentos estavam destinados a perder. No entanto, foi interessante que a estação de televisão, Canal 4 (CBS), de St. Louis, convidou cinco economistas profissionais pretendendo que cada tinha U. S. $10,000 para investir. Dos cinco, três acabaram perdendo dinheiro. Não sei se me devo sentir satisfeiro com aquele resultado... Verdade que o evento foi nada mais que um experimento teórico. Ninguém teve que apresentar cheque. No entanto, de quando em quando tenho escutado radiofonicamente as opiniões de um deles, o que me faz olhar para trás e agradecer a Deus que nunca segui seus conselhos. Contudo, considero-me com sorte por, pelo menos, não ter sido uma das seguintes pessoas:

1. Robert Puelo, de 32 anos, decidiu pegar numa sanduíche ( Hot Dog) em St. Louis, e fugir sem pagar. O vendeiro, sentindo-se chateado por haver sido roubado, chamou a polícia. Infelizmente quando esta apanhou Puelo, pode-se dizer que foi já um pouco tarde. O ladrão estava estirado no chão - morto.
Supostamente Puelo havia engolido seu roubo enquanto fugia. A salsicha, por sorte, ficou-lhe travada na garganta tendo-se alojado de tal forma que acabou por afogar o fugitivo.

2. Por outra parte, temos o caso do galego, Marino Malerba, na Espanha, o qual gostava imensamente de caçar. Uma tarde, enquando perseguia um veado adulto que tinha visto em várias ocasiões, descobriu o animal no ponto mais alto de uma pedreira. Por acaso, Malerba encontrava-se no ponto mais baixo do local, onde a pedreira topava com o chão. O que realmente não deveria ter apresentado nenhum incoveniente. Malerba havia servido nas Forças Armadas Espanholas, tendo-se especializado em fogo anti-aéreo. Foi natural, pois, que não tivesse dificuldade em disparar contra o veado, sucedendo de tal forma que, quando o animal atingido caíu do alto, acabou morrendo em cima do caçador.
Por sorte os dois morreram juntos.

3. No entanto, é impossível explicar o terceiro acontecimento que segue sem primeiro explicar algo da vida americana. Nos Estados Unidos, ou melhor, aqui em St. Louis, é costumário que a Orquestra Sifónica tenha uma festa formal no fim do ano, na qual tradicionalmente é servida champanha antes da apresentação e durante o intervalo. Normalmente quem atende tal concerto ou é endinheirado, ou pretende sê-lo. Além disso, acaba por tomar um ou dois copos do líquido, mesmo que não goste do sabor daquela bebida. É natural, pois, que, pelo menos naquela noite, uma grande parte dos cavalheiros se apresentem vestidos formalmente mesmo que os vestidos de rigor já não sirvam a muitos. Como é o caso comigo. Meu casaco, por exemplo, está sempre desabotoado. Tal, no entanto, não é comparável ao que acontece nos concertos de "rock".

Em primeiro lugar há que reconhecer que uma grande parte de tais concertos tem lugar ao ar livre, onde as audiências encontram possibilidades de gritar, fumar (e não somente cigarros), enfim, de fazerem o que lhes parece. Além disso, frequentemente quando os concertos começam já muito tem acontecido a muitos cérebros presentes para que possam apreciar a pseudomúsica de tais eventos. O que realmente foi o caso com John Pernicky e seu amigo Sal Hawkins do Estado de Washington na costa oeste do país.

Os dois, tendo consumido dezoito latas de cerveja (pelo menos foi o n/umero de vazias encontradas) decidiram assistir a um concerto do grupo Metállica no Anfiteatro George Washington. Infelizmente não pensaram em primeiro adquirir ingressos.

Com aquela criatividade com que se preza a gente americana, os dois decidiram entrar saltando um muro que no lado de fora media três metros.
Infelizmente ninguém havia indicado a Pernicky, o primeiro a se aventurar, que o mesmo muro media mais de seis metros no lado de dentro. O resultado foi que, na escuridão da noite, e animado pela cerveja, Pernicky pulou para baixo sem reconhecer que sua descida seria interrompida por uma árvore, a qual nem somente quebrou um braço ao nosso herói, como acabou por meter um de seus galhos por dentro das calças do "atleta" até que seguradamente o mantinha no ar agarrado pelas cuecas.

Naturalmente, Pernicky, uma vez mais motivado por seu americanismo, reconheceu que sua única salvação seria usar a navalha que tinha no bolso e assim cortar as cuecas. O que realmente aconteceu. Infelizmente, ao cair novamente, Pernicky espetou a navalha numa perna. O que não causou muito dano, realmente, e talvez teria produzido algo doloroso mas relativamente insignificante - isso se Pernicky não tivesse encontrado uns arbustos na descida, ou melhor, se um dos arbustos não tivesse galhos suficientemente fortes para que não quebrassem ao entrarem pelo recto de seu inesperado descuecado visitante.

Naturalmente, o amigo Hawkins, já no alto do muro, e ao ver o colega necessitando ajuda, decidiu regressar a seu carro, onde encontrou uma corda. Subindo o muro novamente, Hawkins jogou aquele "salvavidas" ao amigo indicando que ele se amarrasse pela cintura. Por sua parte, Hawkins regressaria novamente ao carro para que, com a ajuda da máquina, puxasse Pernicky nem só do arbusto que o segurava pelo recto, como igualmente para fora do anfiteatro.

Por sorte, Hawkins, em vez de avançar, recuou - o que fez com que o carro procedesse velozmente contra o muro, demolindo e derribando-o de tal forma que seus pedaços acabaram por matar Pernicky. No entanto, o impacto do carro contra o muro foi tão grande que, por sorte, atingiu igualmente seu condutor, o qual, sem saber onde estava, abandonou a ruína e desapareceu. Foi encontrado pela polícia a aproximadamente cinquenta metros, tonto, embriagado, e severamente ferido. A ambulância, infelizmente, não chegou a tempo para o salvar do que sofria internamente.

COMENTÁRIO: Não há dúvida que todos nós, penetrando nas nossas memórias, recordaremos todos os tipos de incidentes que a Natureza possa produzir.
1999 não foi excepção à regra. Eu, no entanto, apesar de tudo o que aconteceu à minha volta, decidi contar três casos onde seus protagonistas acabaram vitimados por seus próprios actos. A ironia é que, qualquer dos três demonstrou algo que, na maioria dos acontecimentos, é geralmente insignificante. Naturalmente, para alguns de nós os incidentes foram cómicos - talvez por serem inesperados. Para outros, digamos as famílias, parents, e amigos das vítimas, os incidentes foram sem dúvida designados como tragédias. Assim é a vida. E assim continuará...

UM FELIZ NOVO SÉCULO PARA TODOS - Talvez...

St. Louis, Missouri, 31 de Dezembro de 1999.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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