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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - MULHER - RECURSO DESPREZADO


Apesar de não me considerar basicamente desconfiado, vivo com uma certa desconfiança. Verdade que, entre os ditados açorianos da minha juventude, havia o tal que afirmava: HOMEM SEM AMIGO CERTO DORME COM OLHO FECHADO E OUTRO ABERTO. No entanto, minha desconfiança no momento não tem nada a ver com o que aprendi na juventude, mas, sim, com um problema que talvez nem sequer exista.

Como sabemos, nos Estados Unidos estamos no processo de escolher futuros líderes nacionais, sendo o Sector Administrativo uma das prioridades. É interessante que, dos candidatos apresentados até hoje, não há nenhuma indicação que a nova administração será totalmente representativa da nação, Onde, por exemplo, estão as mulheres?

Verdade que não tenho nenhum comprovante científico com que possa empiricamente afirmar que a mulher é algo necessário no governo de uma nação. No entanto, apesar de tal deficiência, creio que só quando uma nação apresenta um governo onde homens e mulheres discutem questões públicas conjuntamente e chegam às suas decisões tomando em conta seus respectivos conceitos, teremos o começo de um melhor mundo. Por razões que me são inexplicáveis, infelizmente, tenho observado que através da história muitas das grandes decisões humanas tomam forma final graças à intervenção do homem sem que a mulher seja nada mais que um elemento cuja expressão seja indiscutível - aliás, cuja discussão tenha como objectivo nada mais que o valor que lhe foi atribuido pelo homem.

Verdade que existem documentos - geralmente de autoria masculina - onde à mulher é lhe concedida certa autoridade - o Livro de Ruth, na Bíblia, por exemplo. No entanto é interessante que aquela autoridade é geralmente secundária ao poder total masculino. Aliás, estou seguro que muitas das afirmações populares e históricas de autoria anónima devam mais ao contributo feminino que ao masculino. Por outra parte, já que nos é impossível corrigir os erros do passado, talvez o que o mundo necessite para que possamos reconhecer o valor da mulher seja eleger no Vaticano um indivíduo que goste de viajar a quem será dado o nome de Joana Paula.

Imaginemos o que tal acontecimento poderia representar. Verdade que o presente Papa tem trabalhado a favor da paz e do bem-estar humano. Como sabemos, no entanto, a maioria das guerras e aflições humanas até hoje hão sido causadas por quem se tem aproveitado do poder, que, com afirmado anteriormente, tem sido geralmente o homem. Verdade que a história tem tido alguns elementos femininos como Cleopatra, por exemplo, ou algumas esposas ou amantes relativamente insignificantes (Muitas vezes confundidas com santas pela Igreja, ou por mitos e crendices locais) que em ocasiões isoladas hão motivado suas respectivas desgraças. No entanto, quantos entre nós (homens e mulheres) hão sido os que têm levantado suas vozes, ou seus talentos, para ajudar a eliminar as injustiças contra a própria mulher? Ou contra quem se encontra no momento sem poder? Eis então uma outra ironia e uma das razões da minha desconfiança acima mencionada:
Porque razão, pergunto, sendo geralmente a mesma turma que patrocina os custos das campanhas eleitorais americanas, o povo americano ainda não tenha aprendido a mandá-la para o inferno? Não a turma que se apresenta como candidatos mas, sim, a que a subsidia. Como sabemos, por exemplo, quando há oito anos o ineficaz George Bush foi derrotado por Bill Clinton, a mesma turma, apesar dos benefícios que eventualmente angariou sob a administração clintoniana, não se satisfez. Reconhecendo que seria novamente derrotada em 1996 então amanhou-se com a candidatura de Bob Dole enquanto preparava dois novos "Bushes" (Um no Texas e outro na Flórida) com a esperança de que com tempo acabaria recebendo o brinde de uma administração controlável em Washington. E, como se fosse a turma o único factor determinante na decisão popular, seus membros motivaram novamente o povo a se convencer que o dia da mulher na Casa Branca ainda está longe de seu momento histórico. Nem a revelação de que a altamente qualificada Elizabeth Dole estaria disposta aos rigores presidenciais foi suficiente para convencer ninguém. Minha desconfiança no entanto não culpa sua existência ao que aprendi nos Açores, mas, sim, ao facto que os candidatos principais para a presidência americana sejam homens, ou que o povo americano ainda viva naquela escuridão mental incapaz de reconhecer o valor - ou novos valores - que a mulher americana possa patrocinar ao sistema. É pena, realmente...

St. Louis, Missouri, 7 de Março de 2000.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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