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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - Sugestão Inaceitável, Mas...


A Primeira Divisão do futebol português representou na temporada de 98/99 uma perda de aproximadamente 14.000.000 euros, conforme um estudo da firma internacional de contabilidade, Deloitte Touche. Não estando a par das necessidades portuguesas não sei como poder-se-á recuperar tal perda. Da mesma forma que não posso entender como será possível que o futebol português mantenha uma Primeira Divisão dado a maioria de seus clubes não mostrarem rentabilidade positiva. Estou seguro que as as outras divisões se devem encontrar em condições económicas similares, ou talvez ainda mais desastrosas.

Na Primeira Divisão, por exemplo, só três clubes, Porto (33,600.000 euros), Sporting de Lisboa (33.000.000 euros), e Benfica (29.500.000 euros) tiveram a possibilidade de gerar ingressos equivalentes a 94.7000.000 euros. Os demais, nada mais que 40.000.000.

Verdade que os custos de manutenção dos três clubes mencionados excedem respectivamente os de cada outro clube individual na divisão. No entanto pergunto se a economia portuguesa, ou os fundos populares, são tais para que a nação possa manter tais perdas. Desaparecia Portugal, por exemplo, se a nação não tivesse pretensões a uma Primeira Divisão de nível internacional se, por exemplo, os três grandes clubes portugueses tivessem a possibilidade de se integrarem com a PRIMERA espanhola formando assim uma LIGA IBÉRICA onde os três, conforme prévio acordo, permaneceriam naquela liga (Nunca sendo despromovidos a favor de nenhum outro clube, mas, no entanto , com pelo menos três clubes do outro lado sujeitos à demoção? Quanto aos demais clubes portugueses, formariam uma série de sub-divisões regionais, onde os custos de manutenenção seriam consideravelmente reduzidos. Além disso, não tendo agora necessidade de competir com os três grandes, ser-lhes-ia igualmente descenário os altos orçamentos para jogadores que, em muitas ocasiões, jogam seus "melhores"' jogos sentados na banca.

Há tempos, quando ainda participatava na Lista X, mencionei publicamente aquela possibilidade. Uma moça que pelo que escrevia parecia não possuir muito entre as orelhas, mas que pretendia conhecer o futebol visto ser treinadora de um clube universitário qualquer em Nebraska respondeu à minha sugestão através de uma pergunta. "Mas sendo assim," perguntou, "como seria disputado o campeonato?"

A verdade é que sendo assim, prevejo as seguintes vantagens:

1. A eliminação das divisões como presentemente existem, e uma vez que os três grandes fossem integrados na Liga Ibérica, seria substituida por campeonatos regionais. Portugal, por exemplo, poderia ser dividido em oito zonas, cada com oito clubes.
2. Os clubes de cada zona disputariam anualmente seus respectivos campeonatos. Devido à proximidade geográfica entre clubes, e às rivalidades locais, seria possível que a presença de partidários de cada clube aumentasse as repectivas assistências em cada jogo.
3. No fim da temporada, o campeão de cada zona automáticamente seguiria para participar em provas eliminatórias. Além disso, ou o segundo classificado, ou o que maior assistência tivesse tido na sua zona durante a temporada, seria igualmente convidado a participar. É dizer 16 clubes formariam quatro grupos num torneio de onde só os vencedores de cada grupo subiriam à seguinte ronda (Quartas Finais).
4. As Quartas Finais consistiriam de um só partido eliminatório e seriam disputadas em estádios, ou locais, onde a assistência seria mais ou menos económicamente razoável. O mesmo passar-se-ia nas Meias Finais.
5. A Finais, então, disputar-se-iam num estádio suficientemente amplo, visto o jogo ser realmente o Final do Campeonato Português.

Verdade que clubes açorianos, ou madeirenses, encontrariam uma certa desvantagem devido seus custos de deslocação serem mais elevados que os gastos de clubes dentro da parte continental. No entanto, visto o campeonato consistir de somente 14 jogos para cada clube, em lugar do que acontece presentemente com 34, sinto que o que cada clube pouparia seria considerável. Por outra parte, não há dúvida que as eliminatórias após os campeonatos de divisão, e o que eventualmente poderiam representar nas ambicões de cada clube participante, poderiam chegar a um incentivo que trouxesse mais gente ao campo. Pelo menos mais gente e rendimento do que os clubes presentemente trazem.

Verdade que o futebol, apesar de ser um negócio em muitos países, é igualmente parte da cultura geral. Que um governo, portanto, tenha como parte de seu orçamento os custos, ou subsídios, daquela fase cultural não é nada fora do ordinário. Por outra parte há que reconhecer que o orçamento tem que sair de qualquer parte. Aliás de gente que preferiria vê-lo empregado em tais benefícios como, por exemplo, a educação, cuidados médicos, etc. Portugal carece de muitas estruturas apesar de seu recente progresso. Há tempos, por exemplo, estive em Lisboa e arredores e, apesar de me haver sentido bem, tive ocasião de ver como aquela cidade insiste em não reconhecer que uma grande parte de humanos desabilitados não tem ainda meios para que possa utilizar aquela cidade como qualquer outra pessoa. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, não existem rampas para quem somente se pode movimentar em cadeiras de rodas. O mesmo se pode dizer de muitas outras vias principais da Capital. Verdade que Lisboa é uma cidade antiga e que a introdução de rampas nas vias principais representaria um custo que economicamente jamais justificar-se-ia. Por outra parte, quando uma actividade, como a Primeira Divisão, resulta numa perda anual de 14.000.000 de euros, talvez minha proposta não seja exagero. Pelo menos proponho um custo por uma só vez, e não anualmente como deve ser o caso com a Primeira Divisão do Futebol Português.

St. Louis, Missouri, 4 de Abril de 2000.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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