Bem. Talvez exagere. Trata-se de uma sanduíche americana chamada WHITE CASTLE. Não sei em quantos locais de costa a costa se vende. Sei que se vende aqui em St. Louis e em outras partes - mas não em todas as localidades de Missouri. Com isso não quero insinuar que não se coma por onde há quem não goste de boa comida. Aliás, en Columbia, Missouri, onde se encontram várias faculdades de todas espécies, a garotada parece perder corpo e alma por uma WHITE CASTLE. Ou melhor por meia dúzia - ou mais - de WHITE CASTLES durante uma sentada.
Descobri tal facto quando minha filha nos visitou num fim de semana e ela ainda estudava na Universidade de Missouri, em Columbia, quando ela me pediu que eu a acompanhasse ao WHITE CASTLE (O restaurante tem o mesmo nome da sanduíche) visto ela ter uma encomenda procedente de seu dormitório. De facto, ela havia recebido U.S. $42.00 de suas colegas, cujo valor equivalia a 100 sanduíches, as quais ela levaria ao dormitório. Não havia sido aquela a primeira vez que Mary Beth havia feito algo similar, assim me contou. Sempre que regressava de St. Louis à universidade - uma distância de aproximadamente 200 kms, representando uma viagem de duas horas no carro do noivo, a compra de WHITE CASTLES fazia parte de seus encargos. Não era ela a única a
fazê-lo. Qualquer outra que visitasse St. Louis, ou qualquer outro ponto onde WHITE CASTLES eram vendidos, geralmente recebia encargos similares. Columbia, Missouri, apesar de ter várias faculdades nos seus limites geográficos, não tinha um WHITE CASTLE na época. Era portanto imperativo encomendar aquelas merendas, as quais eram levadas pela estudante, ou estudantes, em sacolas de plástico e colocadas dentro dos congeladores dos dormitórios para aqueles momentos especiais em que havia "festa", ou então necessidade de matar saudades. Comprovante que aquela forma de nostalgia não é só hábito português.
Uma vez fora dos congeladores, as sanduíches eram aquecidas no "microondas" e devidamente servidas. Dúzias de WHITE CASTLES de repente desapareciam. Dúzias, sim, porque WHITE CASTLES para que sejam apreciadas geralmente não são comidas em quantidade.
Bem. Podia terminar esta crónica por aqui. Além disso, há a possiblidade que a WHITE CASTLE já tenha um restaurante em Columbia, o que faz com que estudantes daquela cidade universitária visitando St. Louis nem tenham noção da imensidade de restaurantes daquela firma temos por estas partes. No entanto não seria justo. A história de WHITE CASTLE em minha vida não nasceu, nem terminou, com minha filha.
Descobri o meu primeiro WHITE CASTLE quando ainda vivia em Long Island, New York. Um dia de chuva em 1956, quando ainda desconhecia aquela parte do país apesar de lá morar, necessitei ir a West Hempstead. Não sei se tinha fome quando, por acaso, dirigi o carro ao pequeno estacionamento do restaurante cujo nome desconhecia. Não descreverei o que passou em seguida, a não ser que fiquei entusiasmado como os preços. Imaginem: Um hamburguês WHITE CASTLE por doze centavos de dólar. O rapaz detrás do balcão, uma vez que me ouviu, perguntou: "Only one?" (Tradução: "Só um?"). Repondi afirmativamente.
O rapaz olhou para mim desconfiadamente. Em menos de trinta segundos, e após cobrar os doze centavos, seu companheiro me entregou uma bandeja onde se encontrava a sanduíche mais pequena que eu jamais havia visto. Tratava-se de um pequeno pão, cortado em duas partes onde, entre elas, se encontrava um pedacinho de carne moída com uma dimensão de 3,5 cm. X 3,5 cm. aproximadamente. Em cima da carne, encontrava-se uma tira de pepino envinagrado. Naturalmente, dizer que necessitei comprar sanduíches adicionais uma vez que terminei a primeira não seria exagerar. No entanto passei anos sem nunca mais regressar àquele local. De facto, não sei porque razão aquele restaurante existia em Long Island, visto que, após haver cambiado residência para St. Louis, onde WHITE CASTLE é talvez tão conhecido como a catedral, descobri que aquela firma defende seu "marketing"
religiosamente e que seus restaurantes só aparecem após intensivas pesquisas de mercados adjacentes uns aos outros onde os padrões da companhia possam ser mantidos e uniformes. Os restaurantes, portanto, apesar de seus números, não são proliferam no país, ou pelo mundo, como, por exemplo, BURGER KING, McDONALDS, WENDY'S, etc.. Contudo não quero insinuar que WHITE CASTLE não se haja aproveitado da tecnologia moderna. Hoje, por exemplo, talvez devido ao que minha filha e suas colegas faziam enquanto na universidade, podemos encontrar caixas de WHITE CASTLES na seccão de comidas congeladas em supermercados. Aliás, em várias ocasiões tenho encontrado sugestões do que se pode fazer com as sanduíches que o povo leva para casa, como, por exemplo, recheio de peru "a la WHITE CASTLE", sopa WHITE CASTLE, onde a pequena sanduíche é devidamente miolada, WHITE CASTLES servidas com ovos fritos e toucinho no pequeno almoço, etc..
Por acaso, minha mãe era perdida por WHITE CASTLES. Verdade que só conheceu aquela sanduíche em St. Louis e, coincidentalmente, em minha casa quando vivia connosco. Como o meu escritório era cerca, eu passava por casa à hora do almoço para ter a certeza que ela estava bem. Ao mesmo tempo aproveitava a ocasião para cuidar do meu cão, Murphy, por quem ela era perdida. Um dia ela viu-me tirar do congelador uma caixa de WHITE CASTLES e romper os pacotinhos de duas, as quais eu coloquei no "microondas". Perguntou-me o que era e eu, por minha parte expliquei.
"E é só isse que comes, e nada más," me perguntou novamente, o "corisquismo" de seu idioma ainda mais notável do que normalmente era.
"Não. Vou comer outra coisa," respondi. "As sanduíches não são para mim. Podia comê-las, mas, realmente, preparo-as para o Murphy." O que era verdade. Uma vez por semana Murphy comia duas WHITE CASTLES apesar de seu preço haver subido consideravelmente desde que as encontrei originalmente em New York. No entanto, Murphy, a meu ver, tinha direito a algo mais que comida de cão. Pelo menos uma vez por semana.
"São tão cheirosas. Fazem crescer água na boca. É só o cão que come?"
"Minha mãe gostaria de provar," perguntei. Não hesitou em responder positivamente. Então aqueci uma para ela. "Home," disse após haver terminado. "Me faz más uma. E isse como se chama?"
"WHITE CASTLE." Respondi sabendo que minha mãe jamais recordar-se-ia do nome.
No dia seguinte, quando passei novamente por casa, minha mãe me esperava, pronta para "más dous sanduíches do cão". Eis o novo nome da merenda - "sanduíches do cão." Tão forte era seu desejo, que de quando em quando me pedia que eu trouxesse pelo menos uma sempre que eu a visitasse na Mark Twain Nursing Home, sua última residência.. Após seu falecimento, e a morte do cão, no entanto, nunca mais me preocupei com WHITE CASTLES - nunca mais, até hoje à tarde. Não sei porquê, mas a caminho da COMPUTER CITY, onde meu computador estava sendo "upgraded", parei no primeiro WHITE CASTLE que encontrei. Pedi duas sanduíches e um café. Descobri que o antigo preço de doze centavos havia subido a sessenta, enquanto o sabor e tamanho eram o mesmo de há mais de quarenta anos. Quem sabe, talvez a carne seja ainda da mesma rez....
Quarenta e quatro anos, mais ou menos desde a sanduíche original em New York... Só Deus sabe onde comerei a próxima. No entanto, em quarenta e quatro anos mais, terei 113 e, assim queira Deus, já com aquela idade nem o pepino me importará.
St. Louis, Missouri, 14 de Maio de 2000. Manuel L. Ponte mlp@fclass.net
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