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Manuel L. Ponte


CARTA DA AMÉRICA - DE NIXON AO PRESIDENTE "ARBUSTO"


Houve uma manhã em Maio de 1970, quando Richard Nixon não podia dormir. Tanto que, às 4 da madrugada, abandonou a Casa Branca, e, acompanhado por seu valet e membros do Serviço Secreto designados à protecção presidencial, dirigiu-se ao local do Lincoln Memorial, onde se encampavam estudantes, os quais protestavam a recente invasão da Cambódia.

Numa cena inacreditável, aproximando algo parcialmente psicótico, o presidente dirigiu-se aos estudantes como se eles tivessam necessitado escutar sua confissão pessoal. Falando de várias etapas de sua vida, Nixon referiu-se a várias situações desde seu "quakerismo" a seus conhecimentos do futebol universitário americano. O evento, naturalmente, foi uma enorme abertura para psicanalistas, os quais já muitas vezes haviam observado a forma como o presidente se tranformava conforme a ocasião. Na época, por exemplo, Nixon buscava aprovação entre seus críticos da forma agressiva como os americanos conduziam a guerra no Vietnam. Simultaneamente, sentia nos críticos algo semelhante ao que havia encontrado na sua juventude. Tão grande era sua obsessão de ser aprovado popularmente, que, querendo ou não, Nixon acabou sendo o presidente mais psicanalisado na História Presidencial Americana. Até hoje psicanalistas seguem tentando, nem só em descrever, mas em conhecer definitivamente quem era, ou foi, Richard Nixon:

Seu pai havia sido um homem violento cujo carácter sem dúvida instalou no futuro presidente um ar vingativo. Sua mãe, no entanto, foi extremamente rígida, talvez incpaz de projectar um sentido de amor ao filho. A morte inesperada de dois irmãos deixou-o talvez com uma certa desconfiança da vida, ou com uma paranóia que só apontava para os perigos do mundo.Dizer portanto que Nixon desconfiava de quem não aprovava completamente seus valores não seria exagerar. Além disso, Nixon possuia uma noção do que seu cargo realmente representava. Até hoje, ninguém sabe se sua sugestão, por exemplo, que o serviço de guarda da Casa Branca, ou de outros estabeliciments presidencias, se apresentasse publicamente fardado num estilo similar ao britânico "Beefeater" tivesse talvez sido por seu sentido de que, enquanto era presidente, ele seria igualmente rei.

Felizmente, Nixon nunca levou sua alegada paranóia a um ponto onde a nação acabou devidamente vitimada. Aliás, apesar de sua debilidade mental, Nixon sentiu mais a necessidade de inspiração proporcionada em conferências noctunars com os quadros presidencias da Casa Branca que, como Comandante em Chefe das Forças Armadas, em fazer destas um elemento contra a nação - facto que, uma vez mais, força psicanalistas a um mais detalhado estudo da personalidade enigmática daquele presidente.

Não duvido que tal enigma continuará a ser estudado e a motivar as decisões finais do eleitorado americano. Já Gerald Ford, por exemplo, o qual nunca foi eleito presidente, projectou na sua presidência uma certa forma de populismo. Seu sucessor, Jimmy Carter, apesar de seus vastos conhecimentos, apoiou-se mais no seu carácter de que em sua oportunidade de liderar a nação. Por outra parte, Ronald Reagan, se apresentou mais como uma figura paternal dentro duma família cujas debilidades se transformavam em méritos. Tão grande era aprovação popular de Reagan que, apesar da criminalidade e, em algumas ocasiões, a infantilidade de sua administração, nada parecia atingir o presidente. Por outra parte, George H. W. Bush, deixou à nação um sentido de que, realmente, os Estados Unidos eram um país de promessa. É dizer, prometia por um lado da boca, enquanto escondendo sua promessa pelo outro.

Quanto a Clinton, bem, sem dúvida os psicanalistas e os pseudomoralistas terão uma mina. Primeiro, no entanto, há que esperar até ver onde Hillary chegará politicamente...

E, quanto ao presente Presidente "Arbusto"... É interessante que, talvez reconhecendo como cães determinam seus territórios, George W., talvez por querer andar de calças e pernas secas, ainda não tenha introduzido cachorro nenhum na Casa Branca.

St. Louis, Missouri, 9 de Novembro de 2001.
Manuel L. Ponte
mlp@fclass.net

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