Carta da América - "LA CORRIDA Y EL AMERICANO EN PAMPLONA"
Dia de tourada. A cidade em festa. Restaurantes e bares superlotados. Quem havia chegado naquele dia sem reserva de hotel teria que seguir a qualquer outro ponto, ou dormir na rua. Enfim, um daqueles dias para ajudar ao mundo a esquecer o quotidiano.
Com dólares no bolso, e Wyoming na distância, Karl Cooper divertia-se, gritando quando os demais gritavam, bradando o tipico "olé" sem saber porquê, logo que os demais bradavam. De repente as luzes se apagaram no restaurante, incentivando a clientela a bradar todavia mais alto para que se ouvisse além da música que, como na arena, parecia celebrar uma nova corrida de touros. Desta vez, no entanto, nenhum touro apareceu. Em seu lugar, e pela porta que dava p'rá cozinha, apareceu "el mesero jefe", carregando com uma bandeja iluminada por uma luz procedente de varios ângulos, na qual se destacavam dois enormes testículos bovinos. Cooper mal sabia o que dizer, mantendo-se boquiaberto por primeira vez desde que havia entrado.
Logo o "mesero jefe" colocou a bandeja perto da mesa redonda rodeada de gente que, na assim assumiu Cooper, era sem dúvida importantíssima. O resto da clientela, no entanto, aplaudia tudo o que "el mesero jefe" fazia, bradando um enormíssimo "olé" quando, após haver coberto os testículos com meia garrafa de Carlos V, cujo aroma de finíssimo brandy pareceu dominar o ambiente, o "jefe" acendeu o fósforo, cuja pequena chama acabou criando um semi incêndio na bandeja. A música, no entanto, continuava, tamboreiros a cada nota incentivando a clientela com suas pancadas fortes. Por sua parte, o "jefe" esperava o morrer das chamas enquanto amolava uma enorme faca contra o garfo que em pouco penetraria nos testículos assados.
A gente à roda da mesa preparava-se, demonstrando em seus sorrisos o ardor de hienas em noite africana quando sua caça havia escapado o olfacto de seus adversários. Cooper observava boquiaberto. Em Wyoming, onde tinha um "ranch"/fazenda, ele havia muitas vezes disfrutado de testículos taurinos, aos quais era-lhes dado o nome local de ostras de prado. Mas, nunca na sua vida havia participado em rito igual - ou comido algo grande como as delícias na bandeja. Sem se poder conter mais, atreveu-se a usar todo o seu espanhol aprendido na Universidade de Wyoming, perguntando que necessitava fazer para disfrutar do maravilhoso prato.
A princípio, o "mesero" sentia-se incapaz de responder. Toda a gente na Espanha conhecia o evento sem que alguém o explicasse a ninguém. No entanto, reconhecendo que Cooper era estrangeiro, detalhou que, de quando em quando, havia uma tourada em Pamplona cujos touros abatidos acabavam com seus testículos assados, assim continuando a festa e o que ela representava. Infelizmente, nem todos os residentes de Pamplona podiam participar do prato. Aliás, havia uma enorme lista de espera. Cooper escutou. De repente, como propulsionado pelo positivismo de seu país, Cooper tirou mil dólares da carteira, e, acompanhando-os com seu seus vários endereços, entregou-os ao "mesero".
"Olhe," disse-lhe Cooper. "Aqui tem mil dólares como garantia que quero participar nesta festa, venha ela quando vier. Se eu morrer antes, você fica com o dinheiro. Por outra parte, quero meu nome na lista de espera, e como garantia que cá estarei uma vez que você me telefone, autorizo que me chame a cobrar. Sua chamada garante-lhe mil dolares adicionais - p'ra você. Você pode convidar pessoalmente quem participará comigo na farra. Quero a mesa cheia. Preto, branco, chinês, espanhol, ou português...Você manda."
O "mesero" prometeu que assim faria, e, como comprovante, chamou o gerente do restaurante para igualmente cumprir a promessa. A festa, no entanto, continuou enchendo o local de alegria, enquanto Cooper, sofrendo e molhado de águas na boca, observava aquela mesa abundante - cerca e simultaneamente distante.
No dia seguinte, sofrendo de desejo, Cooper regressou aos Estados Unidos.
Passaram-se dois anos. Um dia, no entanto, ao encontrar-se entre suas vacas, as quais representavam milhares de animais, chamaram-lhe urgentemente no seu telefone celular. Era o gerente espanhol, indicando-lhe que, em três dias, tocava-lhe a oportunidade de disfrutar da festa que já há tanto esperava. Cooper nem sequer pensou mais no que necessitava fazer. Regressando a casa, pegou na mala que há muito se encontrava preparada para a viagem que o levaria de Cheyenne a Denver, e eventualmente a Madrid. Mais de doze horas de viagem, descontado o tempo de Madrid a Pamplona. Chegou ao seu destino, no entanto, com tempo disponível, de tal forma que, já antes da festa, havia sido apresentado aos "convidados" que participariam com ele na famosa mesa redonda.
Pela tarde, era grande sua ansiedade. Nem à tourada foi, sofrendo o que lhe pareceu horas intermináveis até entrar no restaurante, onde muitos já o esperavam, com todas as honras.
De repente, como Cooper havia testemunhado antes, as luzes do local apagaram, levando a clientela novamente aos brados e "olés". Nada havia cambiado, como se os dois anos passados tivessem sido nada mais que um pequeno impedimento. Infelizmente, ao fitar a bandeja, Cooper percebeu que parecia estar vazia. O "mesero jefe" no entanto procedia com a garrafa de brandy. A diferença foi que, em vez de usar meio litro, como na última vez, o homem, cuidadosamente despejava dois pingos que mal encheriam um dedal sobre os dois minúsculos testículos no fundo da bandeja.
"Que é agora isso?" Perguntou Cooper abismadamente. "Vim cá para os maiores testículos do mundo, e é isso o que me serve?"
O "mesero jefe", com uma olhar paciente ensaiado por muitos anos, olhou para o americano sem se molestar com a pergunta. "Es que, caballero," respondeu. "La corrida, bien. Algunas veces se la gana el toro."
Comentário
Como podemos anotar, o acontecimento é nada mais que uma piada - um passatempo por palavras.
Verdade que nos Estados Unidos existe um prato conhecido no oeste como ostras do prado. Já o comi e
talvez o comeria novamente. Desconheço se prato similar existe nos Açores, ou se aproveitamos aquela parte do animal. Aliás, lembro-me de um dia ter "batalhado" com uns amigos de meu primo, António Francisco da Mota, usando como "arma" os testículos de um novilho capado no quintal de nosso avô materno. Por outra parte, deixando o incidente e regressando à piada, sua moral vá além do sorriso que, assim espero, suas palavras hajam proporcionado ao leitor.
A vida, assim supomos, é como a tal tourada onde é esperado que nós, seus toureiros, encontremos o exito que buscamos. Verdade que, de quando em quando, aparece quem jamais tenha que enfrentar touro, e para quem o festejo esteja constantemente pronto. Ao recordar-me da minha juventude, no entanto, lembro-me do dia em que passaram por frente da minha casa uns camponeses procedentes do Largo da Madalena, caminhando alegremente ao árduo trabalho que os esperava "lá p'rás terras do 'Estanqueiro'". Um vendedor de peixe, conhecido localmente por "José Cadela", e que após haver emigrado descobriu que seu nome legal nos Estados Unidos era realmente John Medeiros, ao ver-lhes passar perguntou: "Encontraram trabalho, eh?"
"Sim," respondeu um dos homens.
"Seis escudos?" Continuou o José Cadela.
"Seis e sessenta," respondeu um outro. "Seis e sessenta."
"Tiveram sorte," disse o José Cadela. E tiveram. Era a época da grande depressão mundial, quando
qualquer camponês com trabalho - particularmente nos Açres - podia se considerar beneficiado. Não sei se sorri ao ouvi-los comentar de sua grande felicidade. Sei, no entanto, que muitas vezes ao envelhecer, tenho pensado no incidente. Verdade que desconheço quanto seis escudos e sessenta representavam na época. O que sei é que um grupo de homens, talvez não muito mais velhos que eu, apesar de eu ter talvez menos que sete anos quando os escutei, sentia-se feliz apesar dos sacrifícios que em breve fariam para disfrutar um dia mais, talvez com um caldo de batatas que, desta vez, teria um pouco de carne. No entanto, que fariam no dia em que descobrissem que, na "tourada" quotidiana, talvez encontrariam muitos outros dias em que o touro não apareceria e que a única carne que lhes restaria seria seu próprio corpo - e nada mais. Festejariam? Talvez. E, contrário à pergunta do americano em Pamplona, jamais perderiam seu tempo para conhecerem o porquê de sua sina. Haviam nascido já sabendo que muitas vezes na arena de suas vidas era o touro que geralmente ganhava.
Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
28 de Agosto de 1994
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