Meu cunhado, Thomas Henry Mulvey, Jr., faleceu a semana passada, o que me forçou a visitar Boston inesperadamente. Tom foi sepultado no Cemitério de São José, em West Roxbury, Massachusetts, onde as famílias Mulvey e Murray têm uma sepultura em conjunto - espaço suficiente para oito mortos. Tom será o último sepultado no local já que com seu enterro se encheu o total permitido legalmente para tais fins. Doravante, os demais membros das duas famílias terão que buscar outros locais onde depositar seus restos mortais. O que não será difícil, já que uma grande parte se encontra espalhada por todo o país - de New Hampshire, no Nordeste, à Virgínia, no Sul, em Missouri, no Oeste Central ("Midwest"), e no Hawaii, no Pacífico. A sociedade americana, talvez com a mesma impetuosidade que separou seus antecessores de suas raízes, pode se estagnar numa localidade por uns tempos - mas, geralmente, por pouco. No entanto, apesar de suas tendências migratórias, o americano vive geralmente buscando onde possa permanecer, mesmo abrangendo distâncias visivelmente insuperáveis. É dizer, a sociedade americana é, como as demais, uma constantemente buscando um ponto de referência. Em St. Louis, por exemplo, ninguém pergunta a um nativo em que bairro nasceu, mas, sim, em que "high school" estudou. Isto apesar de tais escolas terem pouco em comum com estudantes de tempos passados. Ontem à tarde, por exemplo, encontrava-me com minha esposa, Katherine, e minha cunhada e seu marido, Mary Jean e William O'Hara, almoçando no restaurante Coonamassett Inn, em Falmouth, Massachusetts, quando uma senhora na mesa ao lado se desculpou e disse: "Eu ouvi que dois de vocês residem em St. Louis. Em que parte? Eu sou originalmente de Overland e estudei na Ritenour High School." Para quem desconhece, Overland é uma antiga pequena cidade da zona metropolitana de St. Louis, consistindo de pequenas indústrias, comércios, etc., hoje numa transição total que faz daquele município um ponto de investimento relativamente arriscado, ou um onde recém chegados pousam a caminho do tal sonho americano. Ironicamente, apesar de admitirem suas origens em Overland, no entanto, tanto a senhora, como o marido, admitiram que a zona de Cape Cod, Massachusetts, era onde esperavam um dia morrer.
O português na América parece demonstrar tendências similares ao americano - mas com uma modificação. Além de seu clubinho, ao qual muitas vezes leva a "etnicidade" além do que parece normal, o português tende localizar sua "terra" em terra alheia. O nosso lugar de origem, portanto, parece fazer de nós uma gente desunida. A ironia é que o português. a meu ver, parece um ser constantemente buscando união - mas à sua maneira, mesmo quando ela seja totalmente paralela à que outros já tenham apresentado. Por exemplo:
Como sabemos, uma grande parte dos emigrantes/imigrantes portugueses chegou aos Estados Unidos com uma educação relativamente limitada. É irónico, no entanto, o grande número de "jornais" entre nós. Sempre que um português tenha opinião sobre qualquer assunto, assim parece, há sempre quem tenha que levá-la para a frente, muitas vezes quixoticamente, através de um novo jornal. Pouco lhe importa que, dos jornais que já existiam antes do assunto aparecer, muitos se encontravam dispostos a apresentar o caso, ou discussão, ao público, visto seus editores estarem frequentemente buscando quem saiba, ou possa, escrever. Infelizmente, o dialogar na mesma publicação parece não fazer parte de nossa mentalidade. Como no futebol, geralmente atiramo-nos para ganhar, visto na nossa mentalidade nem o empate nem a perda terem valor. Naturalmente, devido ao número de leitores ser relativamente limitado, e os novos anunciantes realizarem que talvez os novos jornais não justifiquem os custos da publicidade, tais jornais geralmente acabam na falência.
Por outra parte, há que reconhecer um outro factor no "jornalismo" luso americano que, enquanto ajudando a justificar a criação de novos jornais, simultaneamente impede o êxito de outros - as distâncias dentro do país e o facto que, com tempo, a nossa gente, para que possa suceder na América, necessita desenvolver uma mentalidade adaptável aos locais onde reside. Por exemplo: Há dias por curiosidade estive a ver na INTERNET se haviam algumas instituições portuguesas nos Estados Unidos com programas de bolsas de estudo universitário para descendentes de portugueses. Encontrei várias. Infelizmente todas apresentavam obstáculos. As bolsas oferecidas por organizações portuguesas na Califórnia, por exemplo, destinavam suas ofertas a residentes da Califórnia, as dos vários estados da Nova Inglaterra, a residentes de tais estados, etc. Meus netos, no entanto, vivem em Missouri (No centro do país) onde portugueses são raros como dentes de galinha. É dizer, vivem na terra dos esquecidos... Uma vez que eu me vá embora, e, caso não deixe nada escrito que justifique Portugal, podemos dizer que aquela fase da etnicidade parcial de meus netos será enterrada comigo.Os jornais portugueses na América sofrem da mesma realidade. Para que possam sobreviver necessitam serem mantidos por colónias locais. E, já que devem obedecer a tal realidade, acabam automaticamente eliminados nas demais localidades. No entanto, como disse, jornais parecem aparecer em colónias portuguesas neste país como novas flores pimaverais. Ao chegar de Boston, por exemplo, encontrei um novo jornal na minha caixa de correio com a seguinte designação: PORTUGUESE-AMERICAN CHRONICLE - Weekly Bilingual Serving All Portuguese-American Communities. Não sei como chegou à minha casa ou porquê. O PORTUGUESE-AMERICAN CHRONICLE é publicado na Cidade de Tracy, na Califórnia, no interior daquele estado, local que desconheço totalmente. Trata-se de um periódico bem feito que, por coincidência, apresenta na última página um anúncio comercial do restaurante Captain's Cove, em Monterey, Califórnia, o qual conheço. É um estabelecimento que deve ser patrocinado nem só por nossa gente, como por quem gosta de comida bem preparada e servida num ambiente agradável. Queira Deus que os esforços dos "aventureiros" que se lançaram a fundar aquele jornal, no entanto, venham a realizar seus sonhos . Porque, em realidade a nossa gente - e agora falo da nossa espalhada gente - necessita algo que a possa unir enquanto mantendo a grande riqueza da nossa separação. Em publicar um jornal bilingue, os editores tentam reconhecer que é impossível numa sociedade como a americana manter viva a língua portuguesa além da geração imigrante e que, portanto, há que abrir braços para os demais, visto o futuro de nosso idioma na América ser limitado por factores naturais causados pelo ambiente que nos rodeia. Além disso, há que manter certas normas de nossa cultura e a memória de nosso contributo à cultura americana mesmo que a língua se torne em impossibilidade total. O poeta Jorge de Sena, por exemplo, cuja esposa é portuguesa tem um poema onde desesperadamente descreve sua inutilidade em ouvir seus filhos nascidos em Portugal falando inglês. Que tal se passava na família Sena, onde a língua portuguesa era bandeira, imaginemos o que se passará em outros lares onde a língua não apresenta tão forte valor. Há dias, por exemplo, recebi uma carta de um micaelense - em português - na qual ele se desculpava da qualidade de sua linguagem visto haver chegado cá ainda pequeno. Hoje comunicamos um com o outro em inglês para que assim facilitemos nossos contactos. Imaginemos, no entanto, a realidade da gente que, como eu, casou com pessoa de ascendência não lusa, mas cujos filhos buscam algo de nossa terra natal - ou a possibilidade de melhor nos entender. Eis mais uma das razões que me levam a "torcer" pela nova publicação, esperando que, caso seja possível, com tempo se integre com outras no nosso idioma para que assim possa realizar seus objectivos económicos, intelectuais, e sociais.
Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
19 de Janeiro de 1998
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