Quem tem lido estas crónicas, sabe que já visitei sessenta e cinco países por várias vezes. Houve até um tempo quando meus passaportes tinham tantas estampas que forçaram aquele documento a necessitar páginas adicionais. Meu último passaporte, no entanto, tem nada mais que três estampas - duas de S.Miguel (entrada e saída) e uma dos Estados Unidos (entrada), como se eu nunca tivesse viajado pera nenhuma outra parte. «Greenhorn Puro». O passaporte é novo e talvez dure mais tempo do que Deus tenha reservado para mim.
Lembro-me quando viajei fora dos Estados Unidos por primeira vez senti um certo orgulho na estampa que a Imigração mexicana marcou com aquele ardor que oficiais de imigração parecem reservar para quem entra num país. Tempos após, no entanto, ao entrar em Jamaica procedente de Puerto Rico, a Imigração nem sequer olhou para mim, forçando-me a pedir a alguém me marcasse o passaporte como comprovante de que eu havia visitado aquela ilha. O oficial concedeu o que pedia, adicionando no entanto a palavra «Souvenir» sob a estampa e provando de uma vez para sempre a insignificância de tais detalhes. Viajar, realmente, consiste de muito mais que as estampas que confirmam viagens. No caso desta minha última viagem, por exemplo, sinto que foi a primeira vez em que me senti totalmente grato a muita gente ainda antes de partir. Ironicamente foi esta a viagem que mais dinheiro me custou visto as anteriores terem sido sempre pagas por outros. Até mesmo quando eram viagens de férias.
Minha gratidão começou com a esposa do meu conterrâneo, Frederico Pacheco, proprietário da Bristol County Travel, Ins., 555 Matecom Avenue, Bristol, Rhode island, que sugeriu que eu viajasse na AZORES EXPRESS. Magnífica linha, com magnífico serviço. Partindo de Providence, a AZORES EXPRESS começa por oferecer seus serviços com o próprio aeroporto. Contrário ao que acontece com outros aeroportos, como Boston ou Newark, por exemplo, o de Providence não apresenta obstáculos de trânsito. Em segundo lugar, o passageiro não necessita batalhar com gente cujos destinos são outros além dos Açores. E, se tem que o fazer, o número de passageiros em Providence é relativamente pequeno quando comparado ao dos grandes centros. Lembro-me, por exemplo, de uma vez chegar a Boston e de necessitar aproximadamente uma hora para me despachar. No dia seguinte escrevi uma carta insultante ao meu congressista, James Symington, comparando o subdesenvolvimento bostoniano com a ineficácia de Dacca, Pakistão Leste (agora Bangla Desh). Em Nova Iorque, jurei que futuramente faria todo o possível para nunca mais usar o Kennedy International, a não ser que eu não tivesse outras opções. É um lugar infernal, sujo, fedorento, onde fumantes desrespeitam os não fumantes, barulhento, agressivo estilo Nova Iorque. Enfim, o mais reles que a humanidade civilizada possa oferecer. Providence, no entanto, não apresenta nenhum dos impedimentos encontrados nos outros lugares. Verdade que o local de chegadas internacionais (no velho aeroporto) carece de facilidades. Mas, mesmo assim, basta falar e os problemas se resolvem. Nunca, por exemplo, aluguei um automóvel tão facilmente como na Avis de Providence. E ao passo que em outros aeroportos necessito programar meus nervos num certo «mode» antes de ligar o carro para que possa batalhar metade do trânsito da cidade, em Providente tal é totalmente desnecessário.
Agradecimentos, no entanto, não seriam suficiente para o que devo à gente que fez desta minha última viagem um imenso prazer, e principalmente às muitas pessoas que demonstraram à minha mulher, Katherine, o ânimo da nossa gente. Por anos tentei convencê-la que ela jamais encontraria em nenhum lugar o que encontraria em São Miguel. Não porque Katherine tivesse dificuldade em me entender, mas, sim, por aquela falta de entendimento procedente dos pontos de vista étnicos que cada grupo introduz nos Estados Unidos a caminho do tal «American Dream». Verdade que Katherine conhecia meus pais, uma grande parte de meus parentes, pessoas de minhas relações de ascendência açoriana, e que por elas sempre foi respeitada e bem vista. Em câmbio, Katherine havia-lhes retribuído tal respeito. Infelizmente, no seu «psyche» viviam as más interpretações de sua juventude bostoniana que, em cinco gerações, haviam feito da ignorância uma pseudoverdade. Exemplo:
1 - Açorianos são portugueses.
2 - Portugueses são gente mediterrânea.
3 - Gente mediterrânea não quer nada com a igreja - a não ser para se baptizar, casar, e marchar...
Das três razões, a terceira era geralmente a mais asquerosa. Que açorianos haviam construído igrejas nos Estados Unidos era algo que pouco importava. Rezavam em português e ninguém que reze em língua que o americano não entende nunca rezará como deve. Tão forte era aquela obsessão que, quando me casei e ia à missa com Katherine, ela me forçava a não levar meu missal que eu havia trazido comigo de São Miguel. Um dia, aborrecido, joguei o missal no lixo, acto que eventualmente trouxe paz ao meu matrimónio, mas nunca mais me trouxe um missal - em qualquer outro idioma. Apesar de ter uma biblioteca mais ou menos razoável, aliás com vários livros religiosos, não conto um missal entre eles.
Por sorte, no entanto, chegou um dia em que Dom Humberto Medeiros, dos Arrifes, foi nomeado Cardeal de Boston - surpresa entre surpresas - transformando uma grande parte da tal antiga mentalidade. Já não éramos somente baptizados, casados, e despachados. Agora simultaneamente regíamos os verdadeiros «obedecedores» aos curas. Verdade que a nossa gente não temia em continuar piadas, ou contos, de curas inaptos, corruptos, vigaristas, etc. - coisa que o irlandês bostoniano da quinta geração jamais faria (DEUS NOS LIVRE, CURAS NÃO PECAM). Havia no entanto um outro factor além dos acima mencionados - o chouriço. Sim, o chouriço que nem o Padre José Ferreirta, de San Leandro, Califórnia, tem podido resolver. O Padre Ferreira é, na opinião de Katherine, talvez o último padre que peque. Apesar de fazê-lo por Larga Distância quando de quando em quando me envia um surtido de chouriços.
Para quem conhece a alta cozinha, não há comida comparável ao chouriço açoriano produzido nos Estados Unidos. Sem favorecer nenhuma casa em particular, sinto-me grato a Deus pela GASPAR (da Costa
Leste) ou pela SANTOS (da Costa Oeste). Sinto-me seguro que os dirigentes daquelas casas já possuem suas Poltronas de Primeira Classe no Paraíso desde que Deus provou suas delícias. Infelizmente, o chouriço açoriano, como o bacalhau seco português, nunca foi parte da dieta irlandesa de Boston da geração de minha mulher. E, como sabemos, a batalha humana mais difícil de vencer, é a «dietária». Os primeiros espanhois que povoaram Cuba, por exemplo, ilha repleta de frutas e outras comidas tropicais, morreram de fome uma vez que não consumiram as pobres comidas espanholas que trouxeram. Se o mundo não tivesse tido um açoriano corajoso, hoje os Açores estariam cobertos de deliciosas lapas - todas por comer. Enfim, o humano não é tão inteligente como pretende. É um problema que chega até a sábios. Nesta última viagem, por exemplo, contou-me não sei se foi o Gustavo Moura, ou o Rui Guilherme Morais, ou o Teófilo Damião de Medeiros que a última vez que estiveram com o nosso amigo mútuo, o Prof. Dr. Ramiro Carvalho Dutra, o Ramiro jamais mordia qualquer delícia antes de comentar de seu conteúdo químico e do que faria ao sistema. Desconheço que opinião o Ramiro tem do chouriço açoriano (de New Bedford, ou da Califórnia). Queira Deus que não seja comparável à que minha mulher mantém.
De qualquer forma, basta dizer que, apesar de ter viajado e estado em vários países, Katherine, que tantas desculpas inventou anteriormente para não visitar São Miguel, que tanta chatice me criou por minha inabilidade em convencê-la, sente-se inquieta para regressar. Talvez para, mais uma vez, nem só ver a beleza que Deus ofereceu ao micaelense, como pata mais uma vez conhecer o que a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres tenta dizer. Foi interessante como ela visitou a Igreja, mesmo após ter por lá passado em várias ocasiões. Foi todavia mais interessante como ela deixava dinheiro pelas grades do convento com pedidos. Queira Deus que alguém dentro fale inglês...
A visita, no entanto não foi para Katherine uma de perfeita paz. No sábado à tarde, por exemplo, assistímos à missa na Igreja de São José, onde a maior multidão que Katherine tivesse visto na sua vida dentro de uma igreja assistia à mesma missa, ocupando todos os assentos. No momento de comunhão, entrámos na fila como os demais. Centenas de pessoas - nós um pouco atrás da maioria. De repente, Katherine olhou para mim aflita. »Não vá haver Hóstias para todos.» O que me levou uma vez mais a convencê-la que a Igreja de São José já existia em Ponta Delgada há mais de um século e que nunca havia carecido de Hóstias durante as Festas do Senhor Santo Cristo - ou talvez em nenhuma outra ocasião. Não foi a falta de Hóstias no entanto sua única aflição. Por anos Katherine tem-me ouvido dizer o tal ditado da terra. «Tarde é o que nunca chega, e o que chega nunca é tarde.» Infelizmente Katherine é americana típica e altamente eficaz. Quando Katherine chega a casa, por exemplo, não sabe atirar o casaco seja para onde e sentar-se. Vem com um milhar de planos que está pronta a implementar. Eu, por minha parte, sou preguiçoso. Sei que quando Deus criou o tempo, deu-nos mais do que o homem usará. Sou tão preguiçoso que, se na Escola Feliciano do Castilho, em Ponta Delgada, houvesse um relatório de quem batia o recorde em chegar tarde, o nome de Manuel Luiz da Ponte Rezendes estaria talvez em primeiro lugar. Tão tarde chegava eu que, quando estava na terceira classe, o Sr. Manuel Cordeiro um dia gritou desesperadamente ao ver-me entrar: «Olha, de hoje em diante, depois do último chegar, ninguém mais entra. E o que chegar depois do último FICA FORA! (Utilizo maiúsculas para designar grito). Que Katherine, portanto, tenha vivido comigo por mais de quarenta anos tem sido um milagre em contrastes, e paciência. No entanto, graças à nossa viagem, Katherine entendeu que meus hábitos sejam talvez causados por algo que exista no DNA açoriano. Somos uma gente trabalhadora. No entanto, o trabalho é para nós um utensílio no processo de viver. Mesmo assim, Katherine já na AZORES EXPRESS, e a meio caminho da América, continuava preocupada pelas pessoas que dispuseram de seu tempo para nos ver partir. No entanto, enquanto meditava do tempo que nos tinha sido dispensado, me ia conhecendo melhor. O que realmente havia sido meu objectivo original após mais de quarenta anos.
Em crónicas futuras, espero descrever outros incidentes. Verdade que muitos não serão novidade para quem os ler. Falarei de pessoas como algumas que vivem todavia, como Álvaro Moura, Guilherme Pacheco, minha prima, Lídia de Melo Carreiro de Almeida, e de uma pequenina, Joana, que, apesar de eu ter seis netas extremamente bonitas e inteligentes, continua a fazer-me recordar de um precioso momento. Desconheço seu último nome. Sei somente que vive na Rua do Peru - «um peru velho, e sem dentes.» Joana tem quatro anos. Falarei igualmente de Francisco Bradford, amigo da escola desde a terceira classe, nascido na califórnia, que morreu em São Miguel, de Pedro Teves, que apesar de fundos limitados e de uma educação deficiente para os nossos tempos, sucedeu em introduzir um certo modernismo em São Miguel. Enfim, continuarei vivendo - tanto na tristeza da memória, como na alegria do presente.
Manuel L. Ponte
St. Louis, Missouri
15 de Maio de 1997
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas Participe no debate!Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.