Quem é Quem Portugal em Linha

Noé Filimão Massango


Aos 23 de Outubro de 1972 trepidou a palhota do meu arquivado avô ante o reboar dum grito uníssono refinado, característico da primeira candura ressonando desafectos e cepticismo quando pela primeira vez emergi lentejado do massacre perpetrado naturalmente das vísceras maternas, e a caligem nos olhos catracegando a lisura de tantas paciências e esperanças reacesas iluminando-me hostilidades estereotipadas em cada gesto imperceptível, mas prontos a luz!
Pressagiava-se logo a rústica patuscada, minha alma nua amontoada de versos no regaço da morte, quem anunciaria a poesia? Roncaram-se tambores de núncio, rituais folclóricos dos recantos do meu campo vegetante e acolheram-me deusas de florestas, homens de calos que pelo invisto defluíam do fogo da enxada, definhados todos da dor do vento no meu sedento Matanato, meu vácuo natal de olhos espalhados e atentos na calema do sul onde a bafagem do indico me traz a tradicional respiração do meu eldorado Moçambique.
E na balança do pensamento alheio orçado em cinco anos de chileto e palmatória sentado no banco fofo de areia nada mais que quatro categorias altas cedidas no horizonte da lucidez em 1983 do meu esquivo Matanato.
Com os tentáculos do pensamento reflorescendo o miolo vim-me arredado para sempre do regaço dos meus despóticos pais internado nas masmorras daqueles inóspitos armazéns incondimentados de Mavila; será que haviam mesmo homens epistemologicamente inteligíveis? Nada astral que um bandalho que nem eu acrescer as duas categorias disponíveis até aquele ano de 1986 quando já planeavam-me o despejo a algures do rio Inharrime que dá pela santa Igreja de Mocumbí. Veja só um cavaleiro dogmático da selva irresistível a percursos de densas florestas errático em cada friesta sólita desflorando a paisagem mística onde a claridade é a brancura do orvalho que a reveste, agora no soalho duro da modernidade, chi... Ê ê ê eu sei muito bem que acolheu-me Mocumbí naquela chuva de balas que apoquentava intermitentemente aquelas divindades ali reprimidas ao cerco do rio onde banhava-mos o sangue dos nossos afogados e devorados colegas para depois voltarmos desalmoçar o milho amarelo descozido e despeliculado dos pilões que despertavam a insânia daqueles homens atrozes e intrusos para além de carnívoros que não pedem quando sentem fome. Oh confrades conformados, é assim mesmo? Três anos esbanjados injunjia-me a termo o nono ano de sabedoria descabida em 1989 naquele vento estuante que até soprava alguns conhecimentos desamparados. E expediram-me delido até aos ossos devorados pela sequidão da fome e pergunto, viver é aquilo? Lembro-me que até ganhei o sorteio dos meninos magros humanamente intactos na apoteose que nunca mereceria sinceramente sem o roteiro de suspiros na aula nefanda da desgraça que a vida intentara.
E despiciendo que estava estorvei tráfegos pelas avenidas da capital Maputo descalço e zombado sem saber porquê. Afinal de contas proibiam-se calos, e curiosas desatenções pelas cidades. E assim vim-me de novo internado na Munhuana onde completava o lote dos meninos desajeitados, e contumazes aventureiros da Manyanga; nível apurado aos homens da boa fama, é disto que querem que fale?
Pousou-me o silencio e o tempo sensato consumiu-se vertiginosamente delindo os dois anos de memorizar vitoriosamente o 11º diploma na angústia forjada em cada lágrima efémera de esperança soterrada.
Em 1990 minha triste esperança começa e claudica "candidato desclassificado pela insuficiência de provisão" e na nota final vinha: apartado pelo porte incomprovado dos dez mil meticais equivalentes a menos de um dólar para o ingresso na universidade. E aí estava mais um desgraçado em defeso, na verdadeira sina de ser pobre.
Mas sempre no regaço levei meu sonho aceso de médico frustrado que até hoje me detém a cupidez nas réstias dos homens nobres da terapia como estudante vagabundo. Onde está a lisura da vida? Cada instante da minha desvivência com a alma, em cada morte alvitrada o cepticismo de viver na combustão da arte, sozinho no vácuo onde se torturam as palavras, será isto vida artística? Cristalizado em cada espaço de desinformação literatorturado, perfilando o tempo sem manso nenhum de páginas onde estendemos a morte depois do verso, cosmopolita mundano que vende baratas publicidades da negritude as vezes internado na Internet e pergunto será isso ascender?
Espertina na formatura do injunjido prazer de servir a vida e a morte em leitos exânimes da arte no conhecimento mágico da vaga celestial que me acompanha ao sossego na minha convulsão de suspiros, sólito, na minha balança da respiração, e prontos; o que digo então da biografia?

Os Contos de Noé



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