Imaginem um jovem, ainda de tenra idade, sem ter ainda suficiente conhecimento da vida, em que o seu destino é dirigido pelos Pais,
que o vestem, o alimentam, e o educam.
É trazido pelos seus progenitores, para uma terra diferente, da qual, nada conhece, nada sabe. Uma terra que logo de principio lhe
é inóspita, que, mesmo sem querer começa a odiar.
Vai para a escola e os seus Pais, procurando uma vida melhor, aquela vida que lhes foi negada na sua terra Natal, väo trabalhar,
bem duramente. De dia e de noite. De dia, na escola, sente-se acompanhado pelos novos amigos que lhe foram impostos e que, mal
sabe ele, de futuro, iräo ter uma grande influência na sua vida.
Os Pais, sabem que existem oportunidades e que para as agarrar e delas beneficiar, teem de trabalhar, aprender um pouco da lingua,
dos usos e dos costumes, para poderem vencer.
A sua preocupaçäo inicial será, a compra de uma casa. É que, com filhos, alugar um "flat" (andar) é por vezes dificil. O agregado
familiar é um factor muito importante no aluguer de um lugar para morar, com a agravante que será o barulho feito pelos filhos,
brincando ou questionando, e o receber visitas, que se teem de manter, elas também, sem provocar disturbios ou beber demasiado,
de ponderar.
Se bem que hoje esteja tudo muito diferente, há cerca de vinte anos, tudo era como acima é descrito e muito peor ainda. E mais,
beber uma cerveja ou um copo de vinho em público era crime, altamente combatido pela autoridade.
Um outro factor, era o castigar filhos, ou, até mesmo, com eles discutir. Estes chegados à escola, acusavam os Pais, aos
professores, que logo lhes "ensinavam" os seus direitos.
Para os que tinham familias, raramente estas näo afinavam pelo mesmo diapasäo. Casos mesmo havia, em que, apesar de
terem sido eles que lhes haviam feito "carta de chamada", portanto ficando responsáveis pelos iniciais cinco anos, mesmo antes de
verem esta responsabilidade terminada, já ansiavam ver-se "livre" deles, causando, em muitos casos traumas que perduraram e ainda
perduram por uma vida inteira.
Muito mais haveria para mencionar, mas estes, seräo os de mais profundidade e de grande impacto na vida dos casais, aliados, por
outro lado, com o ter de aprender um pouco da lingua, para que no trabalho, se pudessem "defender" e näo sofrer o vexamede se näo
fazerem compreender.
Olhados por muitos como imigrantes (os da França Imigrées), eram classificados como DP's e WOP's (displaced person), e nós,
Portugueses, como "pork chops" (costeletas de porco), "Port-gueese" (guardadores de patos), "fisherman" (na assumpçäo de
que todos os portugueses eram pescadores) "sardine-eaters" (comedores de sardinhas), etc.
E, certamente, que o desejo de integraçäo e independência era grande. Nucleos eram formados, e aqueles que já tinham casa,
iam-se associando com outros menos felizes, criavam-se os ajuntamentos, conversava-se, sabiam-se noticias da terra, e ia-se
vivendo...
Entretanto os filhos, integravam-se com mais facilidade neste nova vida. Aprendiam a lingua, criavam novos amigos e com eles iam
formando os habituais grupos e felizes daqueles para quem esses grupos eram bons, com boas raízes, boa moral e com uma boa
Familia, por detraz deles, que os tivésse ajudado.
Os outros, os que näo tiveram essa sorte, logo de imediato se viam a braços com a Lei. De principio os Pais sofriam o opróbrio da
vergonha dos pequenso crimes feitos pelos filhos, mas de mäos amarradas pela Lei que os condenava, näo tinham autoridade para os
castigarem e educarem à sua maneira.
Uma arma existia, mas que nunca foi usada, e foi por aí que muitos se perderam: a naturalisaçäo após cinco anos neste País, teria
sido a soluçäo para os problemas que a seu caminho vinham. Nunca se naturalisaram e consequentemente com eles, os filhos, que sendo de menor idade, automáticamente estariam naturalisados.
Ideias antiquadas de lealdade para com a Pátria deixada para traz, näo os deixava compreener que, agora, com vida já práticamente
organisada no País que os recebera, o caminho certo era tornarem-se cidadäos desse País, Näo era desertar o país onde
nasceram, era, isso sim, simplesmente, e já que haviam assentado a sua nova vida nesse País, um passo de segurança e de pensar no futuro.
Esse foi o erro cometido por muitas Familias, que as há ainda hoje.
Por outro lado, näo tendo vindo preparados para uma imigraçäo, com os básicos essenciais para enfrentar esta nova vida, viam-se
desamparados, relegados para um plano secundário de vida, párias impostos pela necessidade de um lugar ao Sol, viviam uma vida o
menos conhecida de outrem possivel.
Os filhos foram crescendo. Muitos milhares, venceram. Estudaram. Tornaram-se cidadäos dignos e profissionais de respeito. Mas, e
como sempre, os frutos maus iam sofrendo as consequências, a braços com a Lei, e, em dado momento, enfrentando o espectro da
repatriaçäo.
Eles que nunca em tal pensavam, que se consideravam täo naturais desta terra, como os outros nela nascidos. Sabiam que tinham
direito como os outros, tal lhes havia sido ensinado na escola.
Passados os anos, em certa altura, foram simplesmente como que arrebanhados para serem enviados para "a terra onde nasceram"...
Que desconheciam, pois que nunca haviam voltado, näo falavam a lingua, porque tinham tido de aprender a nova, nem täo pouco
sabiam se lá na "sua terra" teriam ou näo familiares que os quizéssem ajudar.
Teriam de voltar, quer quizéssem quer näo! Repatriados? Nunca! Desenrraísados, isso sim. Eram e foram arrancados do mundo que
sempre conheceram, de crime ou näo. Quer tivéssem ou näo contribuído para o desenvolvimento do País. Até mesmo como
criminosos, utilisando serviços que lhes eram facilitados "por direitos adquiridos" por terem permanecido tantos anos aqui e por
terem, quando trabalharam, pago as suas contribuiçöes, as suas taxas e impostos.
Para os que foram presos, nas cadeias, tinham direito a "cama, mudas de roupas pessoais ou de cama, pequeno almoço mais duas
refeiçöes diárias, televisäo, jogos, horas de recreio, direito a visitas e, quando doentes, medicaçäo" enfim, tudo e o mesmo que os
ladröes, os assassinos, etc. (como muitos deles) tinham.
Mas, de um momento para o outro, na prisäo aguardavam que fossem "arrancados pela raíz" e enviados, com escolta, via aérea, para o seu país "de origem".
Terminando , gostaria de vos contar rápidamente um recente caso.
Eddy Melo, veio dos Açores para o Canadá. A sua maneira de ser, rebelde, logo a partir dos onze anos se revelou. Encontrou campo
propício no boxe. Aprendeu a arte e tornou-se famoso, ao ponto de ter representado o Canadá em competiçöes internacionais ele, que é imigrante e näo tem cidadania canadiana.
Certo dia, vê-se a braços com uma situaçäo que lhe iria ser funesta na vida. Numa taberna é acostado por um "valente" que
reconhecendo-o o provoca. Eddy procura ignorá-lo, pois que, como profissional de boxe näo se pode dar ao luxo de uma briga fora da
arena de boxe. As provocaçöes säo continuas e o Eddy, com dois socos profissionais parte os queixos ao provocador.
É detido, preso e remetido a tribunal. Mais tarde é acusado de pequenos crimes sendo de todos ilibado de culpa. Deixa a vida de
boxe e dedica-se a construir a sua vida, agora que a mulher de quem tem duas filhas o deixa. Casa novamente e da segunda esposa
tem um menino, actualmente com três anos de idade.
É Presidente da International Mining and Exploration Corporation e da International Mineral Resources, ambas cotadas nas Bolsas de
Toronto e de New York.
Vê-se, agora, na contingência de ser repatriado (desenrraísado?...) e como näo tem familia nos Açores, pediu para ir para Lisboa. No momento actual, ainda está pendente a sentença final.
Esperemos que tudo lhe corra pelo melhor já que, por um lado o Governo Português o näo pode ajudar e o Canadiano o näo quer
fazer.
É que, sabem, nem todos podem ser um Elián González!
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