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Oscildo de Sousa



Saudade ou Respeito?


Recentemente fui a um enterro. Nada de anormal, pois que presentemente atingi a idade preveligiada de ver partir Amigos e Familiares. O que faço sempre com um sentimento de muita saudade, olhando o meu futuro e certamente que aguardando a minha vez...

Neste caso, "um rapaz" com cincoenta e dois anos tendo-lhe sido ceifada a vida, por acidente estupido, num cruzamento, onde um semáfero vermelho näo foi respeitado e o bólide conduzido por outro jovem, muito mais novo, ali e naquele momento ceifou inexorávelmente duas vidas: a dele, por morte intantânea e a da esposa, que veio a falecer uma semana depois, muito embora, tenha permanecido hospitalisada por uma longa semana, e finalmente, desligada das máquinas de suporte e receber a morte com dignidade.

Certamente algo de que ela näo se apercebeu, produto do seu estado de "vida". onde se pensa em Eutanásia ali e no momento preciso, depois de um diagnóstico que näo oferecia nenhuma hipótese de vida. Apenas prolongando uma vida (?) que na realidade näo existia já.

E, de diversos pontos do Canadá e Estados Unidos, ele, na morte, conseguiu reunir sete irmäos: seis raparigas e ele, no caixäo que o levou para a ultima morada.

As irmäs vieram de diversos pontos dos Estados Unidos onde vivem. Uma dela, a de mais perto, dos lados de New Bedford, Massassuchets, sendo portanto a que vive mais perto. Esta, também, com muito para contar, pois que vivia próximo da Mäe que morreu num incêndio tentando salvar uma neta...

Vida de cäo de imigrante, afastado de tudo que continuamos a amar, mas e que apenas e só depois da morte, somos conhecidos pelos nossos bons e maus momentos da vida...

Este, filho de um velho Amigo, dos tempos do Rádio Clube de Angra, do qual ele foi o fundador e grande entusiasta, teve uma morte que certamente näo sentiu. Mas que a familia, dois filhos e seis irmäs, cunhados e sobrinhos certamente näo väo esquecer pelos próximos anos.

Näo lhes bastava a recordaçäo da morte da Mäe, para agora aliar a essa, esta outra näo menos impressionante e brutal.

Na casa funerária, encontram-se sempre Amigos que já näo viamos há anos; com eles entabulamos conversas onde a Saudade é permanente.
Fala-se disto e daquilo e como näo podia deixar de ser, das noticias da morte de velhos Amigos. Onde exclamaçöes de "morreu? Näo sabia", entremeadas de "pobre rapaz, era bom moço. Nunca mais o vi..."

Säo locais que respeitamos, na ansiedade de saber-mos, ao vivo, noticias que näo lemos na Internet ou nos jornais da terra... porque os näo recebemos. Ou, se essas mortes neste imenso país se verifica, só muito mais tarde depois dos eventos se passarem deles sabemos. Continuamos a ser apenas um gräo de areia neste grande jogo da vida, onde cada qual trata de si e vive os seus problemas adentro de portas.

Só na morte nos juntamos e carpimos a dor da separaçäo, do afastamento imposto por dogmas ou necessidades, muitas das vezes ensombradas por interesses mesquinhos, ou por vergonhas de termos falhado no País de acolhimento, sem aceitar o facto de que o mesmo poderia ter acontecido, estivéssemos nós na terra onde nascemos...

E nesse enterro, um facto foi declarado, insofismável, de verdadeiro amor pela terra onde se nasceu, e que rápidamente conto.

E que me perdoe um velho e respeitado Amigo de muitos anos, Monsenhor Eduardo Resendes, que numa viagem - o ano passado - aos Açôres, teve a maravilhosa ideia de, de lá trazer, dois pequenos sacos com terra daquelas abençoadas ilhas.

A razäo? De moto próprio, em enterros de gente Açoriana, um pedaço dessa terra é espargido sobre o cadáver, antes de ser fechado o caixäo; da terra que näo nos foi madrasta, mas sim as gentes...

Abençoada terra que tais filhos tendes (mesmo sendo imigrantes...)

Oscildo Couto de Sousa
Brampton, Canadá
oscildosousa@sprint.ca

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