ARTIGOS DE OPINIÃO

Matosinhos, Novembro de 2000
Exmo Senhor Roberto Júnior
Li atentamente os dois artigos que escreveu, intitulados "Por trás dos transplantes - 1ª e 2ª Parte".
Reconhecendo o direito de liberdade de expressão que lhe assiste, invoco agora o mesmo para lhe transmitir a minha opinião acerca deles.
Resumidamente, o seu primeiro texto está alicerçado num pensamento base: o estabelecimento de uma analogia entre a forma como o povo alemão foi enganado pela propaganda nazi, e a forma como os defensores dos transplantes foram igualmente iludidos, pela classe médica e comunicação social, quanto aos reais benefícios destes.
No segundo, V.Exa apresenta ao leitor alguns estereótipos usados em defesa dos transplantes, contestando-os depois.
Como instrumento de afirmação das suas opiniões, a ideia de apresentar aquela analogia, seguida de um texto que supostamente a corrobora, não é má, reconheço.
O que já não me parece tão boa ideia é V.Exa, ao longo dos seus artigos, defender uma tese assente, - única e exclusivamente - em meras convicções religiosas, insusceptíveis pela sua natureza de ser provadas, mas apresentadas ao leitor com a "aparência de verdades cristalinas" (sic). Corre o risco de ninguém o levar a sério.
Não vou comentar as suas considerações sobre a Alemanha: independentemente de o objectivo que o levou a escrevê-las ter sido criar as bases da analogia que desenvolve ao longo do texto, a sua interpretação desse triste período vai de encontro, "grossu modu", à da maioria dos historiadores.
Passo, por esta razão, a comentar os momentos que considero mais representativos do seu pensamento, começando pelo primeiro artigo.
A dúvida que tem em relação à alegria dos transplantados e a classificação que faz dos seus sorrisos ("...alegres (?) transplantados, guarnecidos dos seus invariáveis sorrisos estáticos...") denota, além de um grande cinismo, um desconhecimento confrangedor da realidade. Posso garantir-lhe, porque conheço vários, que essa alegria em momento algum pode ser posta em causa e que os seus sorrisos, longe de serem invariavelmente estáticos, espelham invariavelmente um dinamismo vivificante.
A comparação que seguidamente estabelece, entre a Estrela de David e a aposição do carimbo de "não doador", é passível de ser apresentada sob outra perspectiva, radicalmente oposta à sua. Acredito que esta seja bem mais consentânea com a verdade: enquanto os judeus caminhavam (esses sim, de forma compulsória) para a morte, os "não doadores" recusam, sem que ninguém os obrigue a isso, a vida a terceiros.
Seguidamente, proclama V.Exa " A operação pioneira do Dr. Barnard abre espaço para a consolidação da mentira do século, a de que os transplantes de órgãos são intervenções úteis e não causam danos a doadores e receptores. As imensas dificuldades de rejeição e os inúmeros problemas pós-operatórios são apresentados como detalhes sem importância, desagradáveis estorvos passageiros. Raros são os que vêem nesses sinais advertências claras da natureza, e praticamente ninguém se preocupa com possíveis danos anímicos e espirituais decorrentes dessas práticas. E, no entanto, esses danos existem! E são gravíssimos, tanto para doadores como para receptores de órgãos! ".
Pergunto-lhe: porque é que os transplantes são intervenções inúteis? Como e quem define essa inutilidade?
Quais são esses gravíssimos danos anímicos e espirituais? Como se manifestam no dador? E no receptor? Como funciona a relação de causa e efeito entre os transplantes e os danos? Esse nexo de causalidade é susceptível de ser demonstrado, obedecendo a parâmetros racionais e científicos? Ou estamos, apenas, no mero campo das suas convicções religiosas?
Seguidamente, vem V.Exa dizer, com o dogmatismo que caracteriza todo o seu pensamento, que: " Os transplantes são, sim, crimes contra as leis da natureza, e todos os que participam desses experimentos macabros têm o seu quinhão de culpa, sejam médicos, doadores, receptores ou simples apologistas de causas alheias.
A suposição de que doar órgãos é um ato nobre e altruísta e de que o transplante é uma fantástica conquista da ciência, não constitui uma circunstância atenuante para esse crime, e sim agravante, já que contribui para que o delito seja aceito socialmente e praticado indefinidamente. Quem compartilha dessa crença dá mostras de que aceita sem refletir qualquer novidade que surja à sua frente, bastando que lhe seja apresentada numa bela forma. É o cunho da incapacidade ou preguiça de pensar por si mesmo, e de analisar tais assuntos com a seriedade que eles requerem".
Pergunto-lhe: crimes contra as leis da natureza ou crimes contra aquilo em que V.Exa acredita? Tentando seguir o seu raciocínio, também serão, então, crimes contra as leis da natureza a prática de cesarianas e as transfusões de sangue ?
V.Exa não fundamenta as sua afirmações, não fornece qualquer explicação, não apresenta nenhum argumento, não estrutura raciocínio algum.
Limita-se a peremptoriamente sentenciar que os transplantes são crimes e presume que quem o lê se satisfaz apenas com isso. Francamente! Os tempos da Escolástica e do "Magister Dixit" já lá vão há uns bons séculos.
V.Exa incorre assim, ( interrogo-me se de boa fé...) exactamente no mesmo erro que tão bem soube criticar, quando afirma que "Quem compartilha dessa crença dá mostras de que aceita sem refletir qualquer novidade que surja à sua frente, bastando que lhe seja apresentada numa bela forma. É o cunho da incapacidade ou preguiça de pensar por si mesmo, e de analisar tais assuntos com a seriedade que eles requerem".
Ou seja, V.Exa pretende que o leitor adira à sua crença (adopto igualmente a palavra "crença" para me referir às suas convicções, pois ela afigura-se-me perfeita para as caracterizar) sem reflectir, sem sujeitar as suas palavras ao crivo da razão, comprometendo deste modo a seriedade da análise que V.Exa tanto requer na abordagem deste tema.
Em seguida, rotula de criminosos não só os que participam directamente nos transplantes ( médicos, receptores e dadores) mas ainda aqueles a quem apelida de " simples apologistas de causas alheias ".
Subentendo que com esta última frase esteja a referir-se a todos os seres humanos defensores dos transplantes, à maior parte das pessoas que - como por si é reconhecido na introdução ao seu segundo artigo - os aceitam. V.Exa está então, de acordo com o critério do seu julgamento, cercado por criminosos! Assustador, sem dúvida.
Refuto a afirmação pela qual considera a temática dos transplantes "causa alheia" para essas pessoas. Não é necessário viver na pele um assunto para que ele se torne "a minha causa". Não tenho que ser timorense para defender a causa dos timorenses, não preciso ser um condenado à morte para defender a causa dos que contestam a pena capital.
Para sossego de algum católico que se tenha deixado impressionar com as palavras do senhor Roberto Júnior, e receie ser "criminoso", lembro que já em 1967 o Papa Paulo VI apoiava, de forma inequívoca, a prática dos transplantes: "Continui su questa strada, per il bene della famiglia umana", disse Paolo VI al professor Christian Barnard, autore del primo trapianto di cuore su un uomo. Il ministro Umberto Veronesi ha mobilitato il suo staff e si è fatto procurare l'articolo dell' Osservatore Romano in cui, alla fine degli anni '60, si tessevano le lodi dello scienziato e - soprattutto - dove la Chiesa dava il suo placet ai trapianti sull'uomo." .
(Jornal italiano "La Repubblica", de 24 de Agosto de 2000).
Passemos para o exame da segunda parte do seu artigo.
Começo por discordar em absoluto do sentido que atribui à palavra "facto": na verdade, "facto" significa algo que é real, algo que não pode, de boa fé, ser contestado, algo que existe "de per si" e que não admite dúvidas na constatação da sua existência, passada ou presente. Por esta razão, penso que seria mais correcto da parte de V.Exa não atribuir às palavras que exprimem a sua mera opinião a classificação abusiva de "factos".
Seria bem menos arrogante ter-lhes chamado "contra-alegação", por antonímia ao que classifica de "alegação".
Clarificado este aspecto, passo então a comentar as posições defendidas por V.Exa. (Para simplificar a exposição, opto por comentar cada um dos supostos "factos", sob a epígrafe "Resposta", depois de reproduzir integralmente as "alegações").
"Vamos procurar desvendar o que se esconde atrás das pretensas "verdades"
divulgadas sobre os transplantes de órgãos, tão ávida e insensatamente aceitas pela
maior parte das pessoas:
1. Alegação: Doar órgãos é um ato de nobreza e altruísmo.
Fatos: Seria mais acertado dizer que quem doa seus órgãos pretende ficar livre de ser tachado de torpe e egoísta. Também outras motivações, nem um pouco nobres, dão ensejo a isso, como o receio de não seguir com a maioria e a crença acalentada de que essa boa ação será creditada no céu. Uma pessoa capaz de ponderar seriamente sobre o assunto e, sobretudo, que ainda ouve a voz da sua intuição, jamais doará os órgãos do seu corpo terreno sob qualquer pretexto."
Resposta:
A pretensa preocupação de o doador ser rotulado de "torpe" e "egoísta", caso não doe os seus órgãos, refere-se ao receio do juízo de valor que, enquanto vivo, farão dele aqueles que conhecem a sua decisão. (Presumo que a referida preocupação não se estenda aos que, por qualquer razão, viessem a ter conhecimento da sua vontade depois de morto...).
Não compreendo a referida preocupação: quem desejar proibir a colheita dos seus órgãos depois de morrer, fá-lo-á, certamente, por uma de duas razões: fruto de uma reflexão amadurecida, durante a qual pesou todas as implicações que a sua decisão comporta. Neste caso, o receio de ser apelidado de "egoísta" e epítetos semelhantes, em nada o afectarão. Tais adjectivações, a terem lugar, passar-lhe-ão ao largo.
Segunda razão, por motivos que se prendem com a ignorância das condições médico-legais em que as colheitas são efectuadas, receando algum tipo de sofrimento ou temendo que a equipa médica pretira a sua vida à do receptor.
Será que aqueles que se enquadram nesta segunda razão, se importam verdadeiramente com o que os outros pensarão a seu respeito? Ou, como me parece mais lógico, não terão antes um raciocínio deste género: "quero lá saber que os outros me chamem egoísta, o que eu não quero é sofrer ou "ir" antes da minha hora, só porque um médico apressado decidiu que eu já não tenho hipóteses de me salvar"?
Para estes, o peso da censura e da crítica de terceiros também não terá qualquer importância, comparativamente aos "riscos" que desejam evitar.
Relativamente ao citado "desejo de seguir com a maioria", é um argumento que não colhe, na minha opinião. Acredito que, num assunto desta importância, poucos serão os que seguem a maioria apenas por "espírito de rebanho".
Pelo contrário, devido à delicadeza deste tema, e às suas implicações ético-religiosas, creio que apenas alguns seguirão a maioria sem terem conhecimento do que ela pensa ou sente acerca da doação. Por isso, se as convicções de alguém se identificam com o sentimento geral de uma maioria, não pode V.Exa inverter a questão.
No que respeita à asserção de que as pessoas doam os seus órgãos em vida com o intuito de obter "créditos" no Céu, V.Exa parte de um premissa errada: nem todos os doadores acreditam no "Céu"...! Mas , mesmo que todo o universo de doadores nele acreditassem, tal não implica necessariamente que a doação seja um acto interesseiro, visando eventuais recompensas celestes. Ou será que V.Exa não consegue aceitar a existências de actos desinteressados, que não carecem de prémios para serem praticados, e nos julga a todos focas de circo à espera da sardinha atirada pelo treinador?
"2. Alegação: A retirada de órgãos para transplantes é absolutamente indolor, já que ocorre somente depois de constatada a morte cerebral.
Fatos: Infelizmente até hoje nenhum doador pôde confirmar essa suposição. O conceito de morte foi convenientemente alterado para permitir a prática dos transplantes. Antigamente uma pessoa era declarada morta quando cessava a perfusão de sangue. Hoje, com a inovação da morte cerebral morre-se bem antes disso, com todos os órgãos vitais funcionando, inclusive o coração. Para serem aproveitados em transplantes, pulmões, rins, fígado, pâncreas e o próprio coração precisam ser retirados enquanto este último ainda estiver batendo. Mas acontece que enquanto a alma permanecer ligada ao corpo físico, o que geralmente perdura por alguns dias após a morte terrena, o doador sentirá do modo mais doloroso todo o processo de retirada dos seus órgãos.
É absolutamente irrelevante se na Terra ele acreditava ou não numa vida após a morte; sua crença ou ceticismo não o livra de experimentar esse horror, totalmente impotente,
logo após a chamada "morte cerebral"."
Resposta:
V.Exa utiliza uma argumentação que se contradiz em si mesma. Por um lado, afirma que nenhum doador pôde, até hoje, confirmar a suposição de que a retirada de órgãos para transplantes é absolutamente indolor.
Mas por outro, contudo, vem dizer que "Mas acontece que enquanto a alma permanecer ligada ao corpo físico.......o doador sentirá do modo mais doloroso todo o processo de retirada dos seus órgãos (...)sua crença ou cepticismo não o livra de experimentar esse horror....logo após a chamada "morte cerebral"."
Pergunto-lhe: V.Exa já passou por essa experiência? Já morreu e teve algum dos seus órgãos retirados? Já falou com alguém que tenha morrido e a quem tenha sido extraído algum órgão? Não?
Então, qual a legitimidade que lhe assiste para afirmar, como se de um facto incontestável se tratasse, que o processo de colheita de órgãos é doloroso e horroroso? Qual o fundamento das suas palavras, que não outro além das suas crenças religiosas?
Coloco-lhe ainda outra questão: como justifica o facto de, nas doações "inter-vivos", os doadores nunca se terem queixado de terem sentido "do modo mais doloroso todo o processo de retirada dos seus órgãos" ?
Não me refiro às dores pós-operatórias, evidentemente. Ou a sua teoria só se aplica a quem morreu? (Faço votos, em prol do sossego do seu sono, que quando V.Exa morrer não necessite de ser autopsiado, com a retirada inevitável dos órgãos do seu corpo, porque, se essa situação ocorrer, carimbo algum de "não doador" o livrará de tal "horror").
"3. Alegação: Atualmente o processo se rejeição é totalmente controlado.
Fatos: A rejeição natural do organismo à implantação de órgãos alheios pode ser contida com drogas, mas não eliminada. Não há "cura" para a rejeição. O transplantado nunca mais poderá deixar de tomar essas drogas, que na verdade inibem a capacidade do seu corpo de reagir a uma agressão externa. Justamente por ser um processo natural, a rejeição deveria ter servido de alerta contra a prática dos transplantes. Mas não. Seria esperar demais da ciência médica. Com seus antolhos intelectivos, divisando sempre o meramente terrenal diante de si, os pesquisadores preferiram desenvolver drogas imunodepressoras cada vez mais potentes, a fim de esticar artificialmente ao máximo a vida de suas cobaias humanas."
Resposta:
Esta "alegação" nº3 deixou-me perplexo: dizer que o processo de rejeição é totalmente controlado é uma afirmação que nunca poderia ter saído da boca de um médico, o que me leva a deduzir que ela é da sua autoria.
É sobejamente conhecido que não há, ainda, "cura" para a rejeição e que na actual fase da Medicina, o transplantado terá de tomar medicamentos imuno-supressores durante toda a sua vida.
Felizmente, (mas para grande tristeza de V.Exa.), os últimos avanços científicos neste campo permitem ter esperança de que a médio prazo essa situação se modifique.
"4. Alegação: A doação de órgãos é um ato de amor abnegado. Por isso, não é lícito uma pessoa vender um órgão para fins de transplante, nem tampouco se ver privada dele sem seu conhecimento ou autorização.
Fatos: Não é o que pensam algumas sumidades que se esmeram em aperfeiçoar continuamente a mentira do século, muito menos o que ocorre em várias partes do mundo: Num artigo publicado no Journal of Medical Ethics (ironia), um professor inglês tranquiliza a emergente classe de comerciantes nefrológicos: "Não existem argumentos morais conclusivos contra o pagamento pela doação de rins."
O gerente de uma instituição francesa especializada nessa atividade tem a consciência tranquila: "É um processo gratificante, porque se consegue tornar felizes duas pessoas." Um professor de Bioética - uma cadeira nova no ensino da medicina (inútil, sem dúvida) - está convencido de que a humanidade está passando por uma evolução de mercado: "No tempo da escravidão o homem era vendido inteiro; hoje, rins são comprados e vendidos com facilidade na Índia e em outros países." De fato, na Europa já existem agências de turismo que vendem por US$ 20 mil um pacote completo, incluindo passagem, internação, compra do rim e cirurgia de transplante. Em 1989, a revista The Lancet informava pela primeira vez que rins eram retirados de prisioneiros condenados à morte em Cantão, China. O rim é certamente a mercadoria mais procurada, mas já é possível encomendar no mercado internacional qualquer parte do corpo humano: córneas, fígados, pulmões, etc. Num artigo publicado na revista Philosophy, um cientista propôs a criação de uma "loteria da sobrevivência", em que cada pessoa receberia um número para participar de um sorteio compulsório. A escolhida seria morta e seus órgãos distribuídos para os membros do grupo que necessitassem de um ou mais transplantes; desse modo se poderia salvar várias vidas sacrificando-se uma só... A última novidade veio do Dr. James Watson, que do alto da sua autoridade de Prêmio Nobel de Medicina, ameaçou: "Quando pudermos produzir
um andróide com órgãos humanos perfeitos e sem cérebro, para nos fornecer órgãos
para transplantes, vamos fazê-lo e pronto!""
Resposta:
O que V.Exa se limitou a fazer foi citar sarcasticamente pseudo sumidades que, pelas suas declarações, refutam o conceito da doação como acto de amor abnegado e/ou defendem a legitimidade ética e legal da venda de órgãos.
Atente bem que em momento algum duvido da existência de seres humanos que defendam as posições inscritas nas suas citações. Não me interprete erradamente. O que eu contesto é a forma insidiosa como V.Exa defende a sua tese, o que eu critico é o seu facciosismo, a forma sistemática como apresenta e julga o todo pela parte. Espero que isto fique bem claro.
No que respeita à denúncia da existência de tráfico de órgãos humanos, as minhas palavras anteriores tem aqui cabal aplicação. Acrescento que não está provado que existam redes organizadas que se dediquem a esse crime. Mas, se V.Exa tem, de facto, conhecimento de "agências de turismo" (agências de turismo??!!!!!!) que na Europa " vendem por US$ 20 mil um pacote completo, incluindo passagem, internação, compra do rim e cirurgia de transplante.", é seu dever legal informar de imediato as autoridades policiais do seu país.
Ainda não o fez ?!
Porque será...?
"5. Alegação: Se você não doar seus órgãos eles serão comidos pelos vermes da terra após a morte; por isso, dê a eles uma destinação mais nobre.
Fatos: Com sua crônica ignorância em relação à vida espiritual e incurável propensão em aceitar qualquer coisa sem refletir, discernindo em tudo apenas efeitos exteriores, o ser humano é facilmente persuadido a acreditar em qualquer falácia. Tudo quanto ultrapassa seu estreito campo de visão material ele declara simplesmente como inexistente e se dá por satisfeito. Ou, então, na sua incorrigível indolência, aceita apaticamente algumas suposições religiosas sobre o além e vai dormir tranquilo o sono dos justos. O corpo humano não é uma máquina, cujas partes podem ser substituídas por peças originais de reposição assim que apresenta algum defeito. O corpo é o instrumento que possibilita a atuação do espírito na matéria. Ele é emprestado exclusivamente para um determinado espírito, durante a sua peregrinação na matéria, finda a qual deve ser devolvido à terra. Durante o tempo de utilização ele deve ser muito bem cuidado e conservado, sem o que o espírito não poderá atuar como deve. Se uma de suas partes apresenta um problema, é sinal de que não foi bem cuidada, ou então que o respectivo espírito trouxe consigo um lastro cármico que teve de se efetivar no corpo terreno, gerando doenças. Em ambos os casos, o responsável pela falha de algum órgão do corpo é o próprio ser humano, jamais é um "azar do destino". O que o transplante proporciona é a impossibilidade de o transplantado remir, através do reconhecimento, alguma culpa proveniente de vidas anteriores, além de sobrecarregá-lo com uma nova. Em relação ao doador, basta dizer que o espírito é ligado ao corpo na encarnação, e fica preso a partes desse corpo se elas continuam a viver em outros corpos. Por causa dos aprendizes de Frankenstein, os doadores de órgãos ficam impossibilitados de ascender a outros planos da Criação após suas mortes.
É isso. Mentiras sobre mentiras. E todas com a aparência de verdades cristalinas.
Se o ser humano faz questão de acreditar nas alegações da ciência médica sobre transplantes, isso é assunto dele unicamente. Mas o que ele não pode admitir, em hipótese alguma, é que lhe seja mostrada apenas uma das faces da moeda, situação que aliada à tendência humana de "fazer o que todo mundo faz" obscurece em muito a capacidade de decidir com isenção, quando não a impede totalmente.
Muito sofrimento talvez pudesse ter sido evitado na Alemanha nazista, se existisse naquela época uma imprensa realmente livre, imparcial e corajosa, que mesmo impossibilitada de se contrapor abertamente à ordem reinante, ao menos tivesse mostrado aos cidadãos do país o lado negro do regime. Na época atual, a tirânica ideologia mundial dos transplantes de órgãos praticamente não encontra adversários. É o Grande Irmão, que verga governos e povos sob uma ditadura compulsória e não pressentida. Contudo, ainda é tempo de se recuperar a liberdade perdida.
Pelo menos a liberdade de decidir."
Resposta:
Bem me parecia que no seu primeiro artigo V.Exa se tinha esquecido de aplicar à Humanidade mais alguns epítetos elogiosos...
Ficamos agora a saber que, além de criminosos, todos os seres humanos que não compartilham das suas teorias religiosas são ainda: espiritualmente ignorantes; dotados de uma capacidade intelectual semelhante à das galinhas; portadores, tal como os burros, de palas nos olhos; indolentes carneiros, que pastam apaticamente nos prados do obscurantismo, para seguidamente irem dormir um soninho reparador, livre de preocupações existencialistas.
Depois deste louvor à inteligência humana, encontramos uma dissertação sobre a sua crença na reencarnação, pela qual supostamente explica a origem das doenças humanas e a forma como os transplantes constituem um perigo espiritual para doadores e receptores.
Estamos no terreno da metafísica, do espiritual, onde cada um pode acreditar no que bem desejar. V.Exa é livre de acreditar na reencarnação, da mesma forma que eu sou livre de nela não acreditar. A ideia de que o meu corpo pode vir a pagar - sob a forma de doenças - os erros das minhas vidas anteriores, não me convence nem um bocadinho.
Onde está a justiça de o meu corpo poder vir a ser afectado por uma doença, gerada por um espírito portador de um "lastro cármico", sem que eu possa saber, pelo menos, qual foi o erro cometido pelo corpo do qual esse espírito saiu antes de vir para o meu?
Da forma como V.Exa expõe a sua teoria, o tal "lastro cármico" efectiva-se no meu corpo, gera nele uma doença, passo a minha vida toda a sofrer, redimindo o erro cometido por algum "eu" que viveu antes de mim,
sem poder saber qual foi esse erro, sem poder avisar terceiros para que não o cometam, sem ter a possibilidade de me arrepender e, depois da minha morte, como já redimi o erro, o espírito vai encarnar noutro "eu", a quem não vai provocar nenhuma doença, nem sequer uma gripezinha - a menos que esse outro "eu" não cuide bem do corpo, pois que do "lastro cármico" já se safou.
As suas convicções afiguram-se-me inspiradas no "Processo", de Kafka. Sou julgado e condenado sem saber porquê. O criador de Frankenstein, se comparado com o desta tese, é um aprendiz...
Parafraseando duas frases suas, penso que só uma pessoa que deixe de ouvir a voz da sua intuição e, sobretudo, que seja incapaz de ponderar seriamente sobre as suas palavras, poderá considerá-las mais do que meras "suposições religiosas sobre o além".
Depois de voltar a insistir na ideia da "mentira do século", etc, etc, V.Exa estabelece nova analogia, desta vez referenciada ao livro de O.Welles, terminando depois o seu artigo com um apelo à liberdade de decisão.
Também eu finalizo este comentário crítico ao seu artigo, lançando-lhe outro apelo: que V.Exa publique o documento legal ( carteira de identidade, de motorista, testamento, qualquer um, desde que esteja autenticado) no qual exprime a proibição de, em circunstância alguma, ser um dia RECEPTOR de um órgão humano, animal ou artificial.
Só assim a coerência das suas posições anti-transplantes poderá ser devidamente comprovada.
Ah, é verdade: convém que a data desse documento seja anterior à leitura deste comentário, por favor.
Pedro Novaes Machado
Matosinhos, Portugal
pedronmachado@clix.pt
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