Por estas paragens do Norte, vem-me muitas vezes à mente a memória de Inês Deisler, uma brasileira que conhecemos na Holanda quando para lá nos mudamos hà catorze anos. Inês Deisler tinha-se casado com um alemão, colega meu do AFCENT International School. Tinham-se conhecido na Soborne na França. Tocava maravilhosamente o piano e dava concertos acompanhada do marido à guitarra em muitos saraus. Falava fluentemente alemão, francês, espanhol e russo -- detestava o inglês-americano. Quase no fim da nossa estadia na Holanda, ela adoeceu com um tumor no célebro. Essa doença aproximou-nos mais dela e da família. Muitas vezes, antes de morrer, Inês Deisler afirmava,
sinceramente que a sua doença era psicosomática, que a cultura alemã e a sua adaptação à maneira de ser alemã a tinham afectado até chegar ao ponto em que estava. Durante a sua doença, nunca ninguém da família do marido se dignou vi-la visitar. Ela tinha olhos azuis e cabelo claro, mas era de qualquer maneira brasileira, portanto estrangeira -- uma
vez até o marido, que falava perfeito português, na sua dor os acusou
de NAZIS. Mesmo no fim, lutando com essa terrível doença, Inês
afirmava que não deveria ter-se isolado tanto da sua cultura e de gente da sua estirpe; mantido uma maior ligação com a outra sua maneira de ser, talvez a sua doença não teria chegado ao que chegou. Morreu em Aachen entre seu marido, mãe, irmã, vindas propositadamente de S.Paulo, Brasil, e eu, que as havia conduzido até ao hospital. Foi uma palmeira que se secou por estas paragens onde imperam os coníferos.
Dizer que faço estas críticas que tenho feito ultimamente nas estradas do pensar por não atingir as velocidades aqui pratica-das é falso. Quer queiramos ou não, no dia a dia, especialmente, quando ensino alemão para as crianças americanas num programa de imersão/bilingue, ficamos no fim enculturados nas maneiras de pensar e de actuar desta cultura. Por isso, nos meus contactos profissionais aprendi que, por exemplo, Bruxelas é aquela capital nórdica que divide o mundo nórdico do latino. Até conforme confidências de um holandês tipo neo-nazi, isso já lá vão uns poucos anos, essa é mesma a razão porque as companhias dos países do Sul e as do Norte aí fazem competição umas com as outras, fazendo com que os carros e outros produtos aí sejam mais baratos, para atrair qualquer comprador de ambos os lados a optarem pelos seus produtos. É como a fenda que há no meio do Atlântico, onde mesmo à beira de vulcões desenvolvem-se diferentes tipos de vida aquática. Bruxelas é essa fenda mesmo à beira da magma humana em ebulição de maneiras de ser imperceptíveis, mas de qualquer modo reais e profundas que dividem o Norte do Sul.
Depois de já catorze anos feitos aqui nesta área da Europa, por fim a nossa perspectiva sobre a nossa própria cultura muda. Noto-o quando participo em festas portuguesas. Lembro-me de uma em Wiesbaden onde havia uma celebração da Canção do Emigrante. Fez-me uma grande impressão o ver o nosso povo com os olhos da Alemanha. Numa festa cultural que tanto me entusiasmara, deparei com um grupo de gente muito preocupada em olhar e ser-se olhado, inspecionar o que os outros vestem ou deixam de vestir, falando alto e comendo sem parar, e fazendo tal lbúrdia, que era impossível apreciar qualquer canção que fosse, tanto mais o
fado. Depois deixavam os filhos em liberdade total. Alguns trepavam por escadas, corriam entre as pessoas e rebolavam-se até no chão. Conhecendo o íntimo do alemão notei como até os guardas de segurança do teatro, basbacados, conglomeravam-se para, de uma forma imperceptível, se rirem sem serem notados de tanta algazarra e falta de ordem e harmonia. Para além disso, fumava-se a torto e a direito, desrespeitando totalmente os avisos por todo o lado.
Aqui perto, em Kaiserslautern, todos o anos há uma festa de danças folclóricas. Aí de novo, o mesmo ambiente de fumo, comer e beber e desatino em se ver as linhas dos outros e mostrarem-se as suas e o falar-se sem controlo. Fala-se mais do que se escuta em Portugal -- o que é pena. A exibição e amor próprio muito desenvolvido são,decerto algumas das nossas características mais arreigadas, e fazem com que andemos, como Cesária Évora descreveu na revista Islands, como "caranguejos", isso é nunca para a
frente em termos de progresso, mas para trás e para o lado. Todas as vezes, apesar de ter um grande apreço pela nossa cultura saio mais cedo de tais locais irritado devido ao barulho, ao fumo e à falta de ordem e de consideração de todos em geral.
Da mesma maneira, este Inverno, revoltei-me ao estilo alemão quando na programação da RTPi apresentavam algumas mulheres de S. Miguel no seu chorar e carpir, que, peço desculpa, na maneira de ver nórdica, não passava de ridículo, especialmente quando logo a seguir apresentavam o presidente do Governo Regional a pedir que ajudassem, de certo numa forma muito séria e combalida, mas tudo num contexto que para a minha experiência da Alemanha me
chocava sobremaneira devido ao espectáculo que se faz em público de emoções que deviam ser de teor privado.
Esse uso do emocionalismo para resolver problemas, a propaganda ridícula sobre um problema, que se diga já de entrada devia ser responsabilidade do povo açoriano , irritava-me sobremaneira. Apesar da havermos presenceado tragédia em tantos outros lugares, incluindo há quatro e três anos as cheias da zona de Bad Kreuznach onde morámos, nunca se nos deparou reclames de tão mau gosto como os que partiam de S. Miguel.
Chocou-nos o facto de se usarem métodos de política emotiva, mesmo malabarismo descarado a nível das repúblicas das bananas, para se conseguir fundos dos emigrantes -- coitados, vitimas já desse sistema que nunca se importou com os seus dilemas, ânsias e ambições. Esses emigrantes que são para os que lá ficaram como as vacas da Índia, em parte adulados, em parte desprezados por aqueles de espírito supostamente mais moderno e mais em linha, de qualquer maneira nós todos perpetradores e vítimas de um sistema que faz a nossa Pátria a terra do José do Telhado -- um país
apático à sorte humana, senão indiferente à sorte de cada um,
eternamente irresponsável e injusto, onde há a necessidade de se fazer uma peça para conseguir a dó e a piedade dos outros para se resolver problemas.
Na Alemanha, em contrapartida, existe um espírito de cooperação
entre as pessoas, que vai desde o se reunirem em Stammtische, ou clubes locais que funcionam como juntas de freguesia onde se planeia em con-junto sobre diferentes projectos de interesse comum, enquanto se bebe e se confraterniza com os patrícios do lugar.
Muitos alemães afirmam mesmo que a primeira forma de democracia teve lugar aqui com tais organizações que datam desde o passado. Omilagre alemão está sim alicerçado nessa maneira de ser.
Toda a "sorte" deste povo está sim no seu quê que o une para o bem e para o mal, no esforço e carácter colectivo. Tomara os portugueses possuirem essas qualidades. Com elas, o povo alemão assegura o seu futuro, enfrenta o seu passado e afirma o presente. Em outras palvras, enquanto nós, portugueses, nos aglomeramos num espírito de boite, exibicionista, independente, individualista, alheio e indiferente a quem quer que nos é incapaz de satisfazer a vontade --quem a nós se não obriga ou quem não nos alimenta a proa -- enquanto o espírito alemão é sim aquele de kneipe(tasca) onde toda a gente que ali pertence é um amigo, um sócio, um "dos nossos", em quem podemos
confiar, encontrar apoio e solidariedade com quem cooperamos e nos ligamos com prazer.
Em termos de festejos, aqui, na Alemanha, portanto, não se chega aos exageros que se pratica entre os portugueses como apontamos acima. A natureza do alemão tem aquela qualidade dos campos e dos bosques; é amadora do silêncio e da ordem. Poder-se-ia dizer que o alemão é até um ser dos bosques. Nesta terra coberta no passado por bosques virgens, dá uma qualidade esquiva, nobre e ao mesmo tempo rude e selvagem do espírito das florestas. O barulho e a ameaça ao seu território e hábitos de rotina perturbam-os de tal maneira. Ser caçador é até um dos passatempos favoritos dos homens. Por todo o lado se distinguem com a presença de chifres de veado que expõem às portas, varandas ou por tascas e restaurantes. Em outras palavras, o alemão é ele todo um caçador. Nos seus festejos, portanto, dominam as marchas, as músicas que ligam a sua alma à natureza e à beleza das coisas como elas devem ser- seu wenn schon, denn schon.
Ao contrário dos portugueses e mesmo dos americanos, o Alemão de novo celebra num espírito colectivo. Ligam-se de braços dados e junta-se à música em Schwung, embalam-se aos ritmos do Up-pa-pa da música. Todo a gente participa. Batem-se palmas ao ritmo e canta-se em conjunto melodias antigas, ricas em ritmo e música.
Até o nosso colega do AFCENT costumava a dizer, que a alma portuguesa era poética, verbosa e declamante --como notas de músicas solitárias; a alma alemã estava ligada à música como uma orquestra, ou sinfonia. Onde houvesse uma boa marcha, se encontrava um bom alemão. Pessoas amigas nossas, afirmam também o mesmo, quando dizem que só a música é que liga e é universal -- uma boa canção, não importa em que língua for, agrada.
Também ao contrário de nós, portugueses, nos seus festejos, o
alemão come e bebe sem alarde ou algazarra - até que come com mais sobriedade do que nós. portugueses. Sabe apreciar um bom programa, sem interferir ou perturbar.
O ano passado por exemplo, quando fomos à América, como lugar de despedida escolhemos um restaurante português de certo prestígio na zona. Afiançaram-nos que haveria música. Agradou-nos a ideia devido ao julgarmos que seria como aqui, musica bonita e suave que iria até ajudar a digestão e as últimas horas de convívio familiar, mas quando lá chegamos deparamos com um conjunto apetrechado do mais moderno em termos de aparelhagem -- logo a seguir e num volume muito alto apresenta-ram-nos uma selecção de
música que logo nos tirou o apetite.
O som era assim tão alto que até pecava contra a música -- era mais ruído do que outra coisa. O famoso restaurante, afinal não passava de um lugar de disco disfarçado. Tudo bem, se não tivéssemos que comer, se tivés-semos só que beber, mas quando depois de longa espera nos trouxeram o jantar, já estávamos cheios e saturados. Saímos de lá prontos a vomitar. Aprendemos nessa curta experiência a apreciar a harmonia e bom gosto da Alemanha.
A ordem afinal tem o seu lugar e é saudável, especialmente se encher a barriga ou pelo menos não estragar a digestão. Deve-se tolerar a desordem, mas certamente, não com um estômago vazio.
Desconhecendo se tenho ou não público, faço-o como alguém que fala para si mesmo e por isso atrevo-me à liberdade de andar para um lado e para o outro como o faço às vezes a altas horas, quando a estrada está vazia. Aos leitores, as minhas desculpas se me seguem atentamente -- são coisas de estradas, e até à próxima.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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