Artigos de Opinião PortugalEmLinha logo

Silvério Gabriel de Melo


Pelas Estradas do Pensamento - Cosmologia dos Índios Americanos


Habituamo-nos a pensar dos Índios Norte Americanos como selvagens sem conhecimentos alguns, povos ignorantes, semi-nus e deprovidos de cultura. Contudo, ainda antes da chegada do homem de pele branca ao novo mundo, já tinham eles refinado o ópio e morfina usando-os como são usados hoje nos melhores hospitais. Eles eram também capazes de curarem infecções com aplicações de barro que continham penicilina em estado natural. Conheciam também maneiras de aliviarem as dores de cabeça pelo uso de salicilato que extraíam dos testículos de castores. Da planta denominada como dedaleira, extraíam a digitalina que usavam para curar problemas cardíacos. Isso tudo conseguiram numa época em que na Europa ainda se procediam a sangrias para se remover espiritos maus.
Eram portanto sem o terem havido sido reconhecidos, excelentes cientistas, astrónomos e médicos.

Num mundo cada dia, cada vez a encolher mais, quando no shuttle ou vaivém espacial, reconhecemos a verdadeira pequenez do nosso mundo, é que podemos melhor compreender esse espírito dos Índios, o seu respeito e reverência pela natureza, a sua natureza grandíloqua que percebia a fragilidade e santidade da natureza e do mundo que o reodeava, alguém capacitado da sua dimensão no plano da natureza e vivia de acordo com leis naturais tão essenciais como a própria vida.

Quando apresento o Starlab, um planetário portátil, identifico-me com esse espirito simples, mas grandiloquo, na maneira em como Starlab nos oferece um sentido verdadeiro do nosso globo e do oceano de ar que nos rodeia, onde facilmente nos capacitamos que este mundo é uma pequena tenda ou barraca de campanha estendida sobre a superfície de um planeta, que nem é o maior do sistema solar aí também desenvolvemos uma maneira de olhar para este planeta de uma forma responsável e amadurecida, que não o espírito de amebas amorfas e destituídas de inteligência que é a civilização a que pertencemos, onde quem come, quer comer mais, e onde quem mata e emporcalha, mais prestígio e Lebenraum consegue para si e os seus e até mais respeito de todos os outros da mesma espécie.

Invariávelmente portanto, começo a apresentação sobre as constelações com um reflector que indica algumas das constelações como os Indíos as envisionavam. Para eles, o firmamento era sagrado. Assim como hoje usamos os computadores ou os livros e aí registamos as nossas crenças e maneiras de pensar e de agir, para a mente do aborígene Americano, as formas que julgavam ver no céu, eram associações de idéias, o seu écran gigante de onde estavam escritas as lições de moral e valores intrínsecos a toda a sua realidade. Para ele o mundo do firmamento era um mundo invertido a este, onde as árvores e seus galhos com todas as ramificações apontado para o fundo como se a superfície de um lago vista do fundo do mesmo lago, na óptica dos peixes. No Inverno certas constelações desapareciam da planície do firmamento, assim como qualquer guerreiro na procura de melhor erva e melhor clima (Índios Pahute). Toda a memória de gerações ficava assim ali registada como um livro de história, ou uma Bíblia.

A comologia das tribos dos Zunis, explica o principio das coisas da seguinte maneira:

No princípio o Pai Sol que vivia no espaço e do espaço podia enchergar tudo, notou que o mundo por todo o lado estava coberto de água. O Pai Sol então esfregou as mãos e delas obteve dois pedaços de pele. De seguida, ele tomou um desses pedaços e rolou-o numa esfera que atirou para a água. A esfera absorveu muito da água que cobria o mundo e transformou-se na Mãe Terra.
A seguir, ele tomou o segundo pedaço da pele das suas mãos e de novo lhe deu a forma de uma esfera. Atirou-a para a água que ainda cobria partes do mundo, e essa esfera com a primeira absorveu toda a água que restava e se transformou no Pai Céu. Como a Terra, o Pai Céu é composto em grande parte de água-especialmente quando chove e pela côr azul que possui.

Mais tarde, a Mãe Terra e o Pai Céu tiveram filhos. Nós, todos os seres sobre a Terra somos seus filhos, e por isso também somos compostos em parte de água, como se nota quando chorámos e como se nota quando os bébés nascem.

A Lua, para as tribos de Iroquois era a esposa do Sol, o qual zangado com ela se afasta dela, mesmo se opõe a ela no grande salão do firmamento. Ela desfaz-se e desaparece por fim, mas a Tartaruga que apoia o firmamento e que é sua amiga ajuda-a a comer até ela ficar denovo gorda e bonita no céu que é para encantar a vista do Sol, mas o Sol ao vê-la continua a ignorá-la e lá volta ela gradualmente a enfinhar e a desaparecer, o ciclo repetindo-se assim todos os meses.

Segundo as tribos de Algonquin a Lua é uma velha bisbolhiteira que ofende muita gente e importuna Manitou para saber a data do fim da Terra. Manitou em concelho com os anciãos resolveu o caso com a resposta de que a data do fim da Terra lhe seria entregue, quando ela conseguisse fiar um saco onde se pudesse meter a luz do dia para iluminar a treva à noite. Esperançosa de vir a conhecer primeiro que todos a data do fim, a Lua colocou-se com os seus apetrechos de fiar, assim como um tacho com sopa de milho a cozer e por companhia, um gato ao seu lado. Todos os meses, quando ela está prestes a terminar o saco p'ra luz, a sopa começa a ferver e ela tem de meter de lado o seu trabalho. O gatinho que lhe faz companhia, por ordens de Manitou enriça-lhe a meada e solta a luz que ela conseguiu apanhar. Assim a sua bisbolhetice continua e também continua ela sem saber a data do todo o fim, pois que nunca dá cabo à meada e porque há certos factos que nunca poderão ser revelados a ninguém, nem mesmo a Lua.

Para as tribos de Cherokee, Sirius, a terceira estrela mais próximo da Terra, era um cão que encontraríamos depois de morrer, na entrada para a Estrada de Santiago que nos levaria para a Terra dos Espiritos.
Connosco teríamos que trazer um saco cheio de actos de valor e bravura para lhe dar de comer. Se o saco viesse vazio, interdita ficava a passagem para o outro mundo. Se o cão se satisfizesse com o que havíamos trazido, deixava então livre a passagem. Ia-se depois daí pela Estrada de Santiago fora, no fim da qual se encontraria um segundo cão - a segunda morte. A este de novo ter-se-ia de alimentar com que havia restado do primeiro encontro com o primeiro cão, senão--almas penadas, ficar-se-ia para sempre de um lado para o outro entre os dois cães sem poder voltar, nem poder seguir, por toda a eternidade.

A Estrada de Santiago em si para muitas tribos de diferentes etnias, era a ponte que levaria as almas ao Mundo dos Espiritos, mas para os Seminoles da região onde hoje se encontra a Florida, a Estrada de Santiago, tratava-se de uma marcha dos mortos a caminho do Mundo dos Espiritos. Para outros Índios, essa fita de estrelas no céu eram os braços de Manitou Todo Poderoso a abraçar o mundo. Sossegavam-se as crianças que tinham medo do escuro afiançando-as que a Estrada de Santiago se tratava do Pai Céu que as protegia e as embalava do alto.

Quanto à Ursa Maior e Cassiopeia, essas constelações eram para as tribos de Navaho, respectivamente, o Primeiro Homem e a Primeira Mulher. A Primeira Mulher, até por coincidência na forma de um W, certas ocasiões do ano e na forma de M, outras ocasiões. O Primeiro homem era formado pela rectângulo da Ursa Maior e por ironia seguido pelas três estrelas que formam a cauda da Ursa, dando-lhe um aspecto de macaco - ainda que eles o não admitissem. Essas duas constelações circundavam como um carroussel sem parar à volta de uma estrela que eles denominavam como a fogueira de acampamento-que se trata da Estrela Polar, que brilha todas as noites na mesma área escura do firmamento indicando o caminho aqueles perdidos nos bosques ou na pradaria.

Para as tribos Pahute, a Estrela Polar, contudo, é uma cabra montês que se mete por uma montanha acima e conforme avança vai destruindo as únicas orlas de acesso. Assim, não pode voltar para baixo, e por fim ali fica no centro e topo do firmamento sem poder ir mais alto, nem tão pouco voltar para baixo. As outras estrelas à roda são todas outras cabras monteses que dão rodas à montanha para encontrarem um caminho que as possa levar até ao cimo, onde a outra cabra está presa.

Para alguns as estrelas são furos no toldo do firmamento, que deixam trespassar a luz de um mundo de luz que fica por detrás desse mesmo toldo.

Os planetas em si, não tinham muita importância para os Índios que não confiavam na maneira em como vagueavam pelo céu como os lobos pelos campos. Eles chamavam mesmo a ecliptica do céu por onde seguem os planetas como o Caminho de Lobos. Contudo Venus, por ser mais brilhante , julgavam eles que era a irmã do Céu. Mercúrio por sua vez como Vénus , próximo do horizonte tanto de manhã como à noite, tratava-se, por ser mais escuro, do irmão da Terra. De vez enquando passavam um perto do outro e então atiravam setas um para o outro, que constavam afinal de meteoros que se lançam na atmosfera (Chippewa).


Continua na próxima edição


(Estas notas foram obtidas do manual de apresentação de Starlab do Learning Technologies, e por Doris Forror do Walter Schuele Planetarium, Lake Erie Junior Natureand Science Center, Bay Village, Ohio.)

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas
Participe no debate! Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.


Notas biográficas | Voltar à página de artigos | Voltar à página principal

PortugalEmLinha Logo
E-mail: info@portugal-linha.pt
Envie-nos o seu comentário para admin@portugal-linha.pt