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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas do Pensamento
Julgando Os que Erram


Das minhas memórias de criança lembro-me como entretenimento passar longas horas em frente a um galinheiro no quintal. Moràvamos na Travessa das Laranjeiras mesmo entre a Travessa das Laranjeiras e a Barão das Laranjeiras na cidade de Ponta Delgada, nos Açores. Como os carros passavam nessa última a grandes velocidades, temiam os meus pais que fossemos atropelados se brincassemos lá fora na rua.

Assim, o nosso pequeno quintal e seu galinheiro era o nosso nada e nosso tudo, um mundo onde nos situavamos no mundo.

Foi aí que aprendi a calado observar o vai-vem do galináceo e notar, que as galinhas no seu dia à dia de comer, cacarejar, meter ovos, para não falar de outras actividades, possuiam atitudes, expressões, maneiras de ser tão à imagem das pessoas. Depois aos poucos observarmos a própria sociedade e o mundo dos homens com o mesmo desligamento, a mesma objectividade crítica do outro lado de lá da rede de galinheiro.

Se as galinhas se pareciam com certas pessoas que conhecíamos pela maneira de andar, de se relacionarem umas com as outras, assim também, as pessoas tinham reacções às vezes tão à galinheiro, tão à galináceo.
Era sem saber a minha primeira aula de sociologia, onde viria a aprender a fazer mandar a minha vontade sobre aquela da estupidez.

Havia ali o galo pimpão-todos os galos eram assim pimpões, como se mandassem no mundo. Também haviam aquelas galinhas cheias de si ou de nove horas que se passeavam nicando todas as outras à sua passagem, especialmente as mais fracas ou mais novas. Quantas vezes, depois de algum tempo de observação e de análise, era que eu penetrava nesse recinto e com prazer e veneta de menino brincava então a Deus todo poderoso. Com prazer sacudia a proa de todo o galináceo proento e humilhava todo os mais soberbos e fortes e saía depois daí, satisfeito por ter vingado os pobres e fracos desse mundo de bicos.

Houve mesmo um dia, depois de alguns dias de ter notado que algumas galinhas se davam ao luxo de consumir os seus próprios ovos, que me decidi ensinar uma lição a todas as galinhas e galos do galinheiro --- pagaram assim tanto as culpadas como as inocentes. Tomei uma boa tesoura e fui daí cortei os bicos a todas elas. Foi um holocausto de bicos cortados. Atrás deixei uma galinheiro inteiro a sangrar --estupefactos depois de tal chacinagem.

Os bicos voltavam em pouco tempo a crescer e voltei ainda mais alguma vez, mais selectamente a repetir a façanha.
Era assim, sou assim.

Aliás era eu ainda criança bébé de berço, ainda quando vivia na aldeia, lembro uma noite acordar entre a minha própria fúria. É que o bercinho onde dormia era daqueles de embalar, mas por ser já velho, todas as vezes que me virava nele acordava no meio do chão. Assim, quando todo o mundo dormia e entre o meu praguejar acordei eu próprio para a realidade que o bercinho que assim me torturava se tornava a cada pontapé meu e arremesso meras tábuas rachadas. Sei que já não voltei a dormir o resto da noite no tal bercinho-que deixou de existir, tinha eu apenas três ou quatro anos.

Como FRS-Faculty Representative, voltei a essa modulação, já lá vão uns nove anos e da mesma forma fiz mandar a justiça para com uma directora que foi no fim exonerada e colocada numa aula de segunda classe no remoto Panamá.
Como no tempo em que cortei os bicos a todo um galináceo voltou a realização e à pergunta---Será que vale a pena a justiça, a verdade, a honra e os valores mais altos, se os homens como as galinhas do mundo de galinheiro que observava quando era criança "coitados não sabem o que fazem," ou será que sabem e não se importam mesmo?

Assim vejo-me na figura do pato Português de uma história de Christien Andersen que no seu sentido de justiça um dia se prova tão injusto como o resto do mundo e peço perdão pelo meu "Portulak" prometendo a mim mesmo deixar o galinheiro ser galinheiro e o mundo ser mundo e não voltar a entrar em nenhum recinto onde mande a falta de humanidade e querer impôr a minha. Afinal também eu, não devo, nem posso arremessar a primeira pedra.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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