Artigos de Opinião PortugalEmLinha logo

Silvério Gabriel de Melo


Controlador Por Estradas do Pensamento
Os Controladores - Infernizados e Infernizadores


"Pai perdoai-lhes, que não sabem o que fazem!". Esta foi uma das últimas frases que Cristo balbuciou na cruz.

Passado que são dois mil anos e apesar do progresso, do muito se conhecer pela tecnologia e ciência, a psicologia e psiquiatria , continuamos a não saber ao certo exactamente o que fazemos e quem somos na realidade; o que fazemos com a nossa maneira de viver e porque o fazemos.

Existe na "Trust Psychology" de William Glasser, o autor de Positive Addiction, e Control Theory, entre outros, uma tentativa de explicar a pessoa humana de uma forma a perceber a mecânica do contrôle, a forma como nos relacionamos uns com os outros e como passamos por esta via da vida no nosso dia à dia.

Assim, segundo Dennis M. McLaughlin, estudante e assistente de William Glasser, e o criador e fundador do movimento de Excellence in Teaching Creed, existem quatro princípios humanos que determinam o bom equilibrio da pessoa humana e o que ele denomina como ARFF, do Inglês, Achievement, Respect, Fun and Freedom . Isso é a personalidade de qualquer pessoa funciona sobre quatro eixos, assim como qualquer veículo roda sobre quatro rodas, ou uma cadeira assenta sobre quatro pernas.

Da mesma forma que os pneus movimentam um carro, qualquer carro, esses quatro elementos mantêm em equilibrio a pessoa humana. Deles depende a saúde, todo uma maneira de viver e de marcarmos a nossa presença sobre este planeta, a nossa felicidade e sentido de harmonia, o nosso equilibrio pessoal.

O primeiro desses atributos é o sentido de valor próprio que já um bébé pratica quando chora e chama a atenção. Por menos que uma pessoa seja, é sempre alguém, e possui portanto esse sentido que fá-la ter o seu lugar, esse direito de ser a pessoa humana que é, com um valor próprio e dignidade.

Uns conseguem tal atenção através de qualquer particularaidade ou "graça" pessoal-- um físico invulgar, um belo rosto, um corpo bem feito, um sentido de humor, uma constituição atraente, um físico musculoso, ou qualquer outra qualidade, dom ou "queda" particular.

Ainda outros adquirem esse sentido por qualquer talento ou mesmo maneira de ser----uns cantam, outros actuam, uns escrevem, outros possuiem paleio e coragem, outros têm um geito especial nesta ou naquela área, etc. Cada um à sua maneira se manifesta com a melhor das suas capacidades ou particularidades como pessoa humana. É que num stand de venda de carros, todo o carro chama a atenção. Todo o carro se vende no fim.

O segundo atributo sobre o qual deslizamos na nossa passagem pela estrada da vida, é o sentido de respeito que conseguimos dos outros e que obtemos acatando as normas quer de família como da sociedade. Esse respeito afirma-se pelo amor, a tolerância, a prática da honestidade, da confiança. É assim o sentido de pertencermos e obedecermos a um grupo e suas normas.

Cada um de nós nasce com a necessidade desse respeito que nos faz seres sociais, aceites ou não pelos outros. É o nosso sentido de honra e de lealdade, o de nos conformarmos quer à família, quer à sociedade e aos seus valores. Quantas vezes na televisão, qualquer criminoso ao saber-se filmado esconde o rosto. É que a vergonha é o resultado da falta desse sentido. Uma pessoa sem vergonha, quer queira o não é como um carro com um pneu vazio, sabe que se esvaziou, sabe que está em falta.

Depois, o terceiro eixo da pessoa humana é a necessidade que temos de procurarmos o prazer, o gozo, o bem estar, o sermos felizes, o divertirmo-nos, procurarmos o descanso, a recreação, o nos distrairmos. Pois afinal, o que a gente leva desta vida "é o que se come e se bebe, ai, ai!", assim como já dizia um canção antiga. Escutar música, ir a uma festa, apreciar a natureza, o podermo-nos sentar e não fazer nada de vez em quando, é uma outra necessidade intrínseca à natureza humana. Por isso foi criado o Domingo, o dia de se descansar "não fazer nada".

Por fim, a quarta e última modalidade é o sentido de liberdade, de independência, de autodomínio, e autonomia---de podermos ser ou fazer o que nos apetece sem sermos controlados ou limitados pelos outros. Já de bebé se possui esse atributo que gradualmente se intensifica e se afirma na adolescência. De tal forma que, quem cresce a ser controlado, ou não respeitado, chega a essa altura se rebelia ao ponto mesmo de quebrar, contestar a autoridade daqueles à sua roda de forma abusiva--- o que também confirma o facto de que os filhos de abusadores eventualmente se tornam também em abusadores.

Ora assim como os pneus cheios e em boa condição pouca atenção chamam, ou uma cadeira bem equilibrada faz aquilo para que foi criada, sem grandes observações, do mesmo modo esses quatro componentes da natureza humana pouco se insinuam, até que algo produza um desequilibrio ----e pela estrada fora da vida não faltam as ocasiões para a desintegração da perfeição desse sistema que trouxemos ao nascer.

Numa cadeira, tal desequilibrio provoca logo um reparo, será que é segura? Num pneu, da mesma forma, qualquer pequeno esvaziamento aponta para um perigo. Tal desequilibrio na pessoa humana transforma-a em controladores/ manipuladores, pessoas vitimas de si próprias, com falta de contrôle, que se agarram a todos à roda como um naufrágo que tudo arrasta consigo, gente infernizada ou infernizadora, "controladora".

A própria palavra "infernizamento", já diz tudo. Quem é controlador é também um infernizado, partilha com o inferno maneiras de ser que os consomem, os devoram, assim como consomem e destroem aqueles à sua roda. É que o infernizamento ou o sentido de "contrôle" é a fonte da doença, do desequilibrio, da falta de paz e de harmonia. Como num carro cujo o esvaziamento de um mero pneu pode interferir no seu livre movimento, a pessoa controladora gradualmente se torna numa pessoa doente, vitima e perpetradora, dona de si e escrava de si mesmo ao mesmo tempo.
Portanto, quando alguém por ser um ninguém, ou por qualquer complexo de inferioridade, sente dentro uma necessidade de a todo o custo e de forma exagerada provar-se alguém, pode para preencher esse desequilibrio, apoiar-se nos outros três atributos, denominadamente o sentido de respeito, o sentido de diversão, ou sentido de liberdade: isso é, para recompôr o seu equilibrio, fazem-se grandes, manipulam os outros e dão-se a exageros.

Desta forma uma pessoa controladora pode ser uma que, mesmo com o perigo de banca rota, compra a casa melhor, o carro mais vistoso, a toilette mais provocante. Com toda a energia que possuem, tentam chamar a atenção, tornar-se o centro. Na sua maneira de ser, roubam a liberdade dos outros, obrigam-nos às suas vontades e caprichos de uma forma obcessiva ou compulsiva, tornam-se como os Brasileiros o expressariam---autênticas drogas às vezes. São os que fácilmente na sua expressão mais avançada e desequilibrada se zangam ou são dados a ataques de fúria. São os que fazem mil problemas para resolver um problema, os que se mostram eternamente insatisfeitos e inconsoláveis.

Não consentem que ninguém seja melhor ou mesmo igual a eles, nem que os façam ver o erro. São dados a amuos e por dá cá aquela palha afastam-se daqueles que os amam. Muitos mesmo chegam a tornar-se um perigo ou uma tortura para os que lhes estão à roda. Exigem que o mundo lhes obedeça e se conforme a todos os seus caprichos e exigências. Com facilidade ameaçam e fazem chantagem; manipulam os outros . Alguns chegam mesmo a formas de abuso que os levam a actos que vão desde a violência sem contrôle, ao homicidio, ou a qualquer outro disparate que gradualmente os desgraça, como o beber, drogar-se, prostituir-se e até no extremo dessa doença, ao suicidio, a forma mais drástica e chocante, mais doente desse estado de espirito.

Quanto ao segundo desequilibrio há aquele sentido de respeito e responsabilidade exarcebada. A pessoa que se desequilibra nesse segundo atributo, apoia-se depois no ser alguém, usar da sua liberdade e sentido de prazer para se recompôr. Por isso quantos de nós nos tornamos "workoholics" ou fanáticos quer religiosos ou políticos, passando o nosso tempo todo no tabalho, ou no escritório ou na igreja dando o nosso todo para uma causa, sacrificando o nosso tempo livre, a nossa liberdade, família, tudo. Quantos no fim, rápidamente se desfinham, se revoltam ou se tornam doentes quando se reformam ou perdem o emprego ou a posição que tinham, coitados.

Quantos gerentes de negócios nessa modalidade se vão desta para outra sem nunca ter vivido realmente-antes viveram para trabalhar. Tornam-se alguém ao custo da sua liberdade, do seu apreciar a vida como deviam, tão fixos no sentido de respeito e honra própria que o trabalho lhes concede de onde vão buscar todo o prazer, toda a liberdade e toda a sua forma de ser alguém, em que investam toda a sua atenção mesmo chegando a sacrificar a sua saúde e bem estar. O modêlo da União Soviética, e mesmo do mundo industrial era, é esse, onde o trabalho, a responsabilidade se torna o centro de tudo, consome toda a liberdade, toda a alegria de viver, toda a dignidade humana.

Depois há aqueles cujo o desequilibrio toma a forma da falta de responsabilidade e desinteresse no seu respeito próprio; optando o prazer, o gozo a todo o custo, perdendo mesmo no fim a sua liberdade. Vivem de festas e festins, de amizades superficiais, do copo de champagne, à garrafa de wisky, à cama mais devassa, ao vício mais inveterado, quer seja de fumar, beber, jogar, apostar, exercitar, e nas suas expressões mais extremas mesmo ao abuso da droga, da bebida, do vício impertinente. Empregam toda a falta de respeito por si e pelos outros, toda a sua pessoa nas tendências do prazer sem contrôle ---- que os torna no fim em meros farrapos humanos. São os que são conhecidos como eternamente estando numa "boa", "having a good time", "the cool ones". Que tudo julgam "bacana" e "legal", mas que tem problemas em ou formar família ou manter uma relação familiar saudável, eternamente desequilibrados, e irresponsáveis pelo que fazem ou dizem.

A quarta forma de desequilibrio é aquela daqueles que tomam a liberdade em suas mãos tornando-se no fim uma ameaça constante ao próximo, à própria família que mantêm como reféns da sua maneira de ser abusiva, violenta, perturbada. São os que constantemente acusam e culpam todos e tudo por qualquer problema que tenham, nunca se acham os culpados de nada. São os que andam nas corridas pelas estradas fora, em velocidades suicidas. São os que berram e dão pontapés para fazer valer a sua vontade. São os que se enchem de bofes, se tornam em pequenos dragões, por dá cá a aquela palha. Muitos deles acabam ou por detrás de grades ou em posições de abuso Sadam e Hitler sendo um deles no seu culto próprio. A este grupo pertence o suicida que obriga a liberdade, a própria dignidade daqueles que os amam à doença que os consome e os vitamiza no fim. São os eternamente irresponsáveis que acusam os outros com o "Foi a tua culpa", ou "Eu não fiz nada!" ou o "You made me do it!"

Depois, assim como um carro cujo um mero pneu pode descontrolar, mesmo produzir um acidente, é fácil reconhecer-se a pessoa em desequilíbrio ou o "controlador". É que na norma são aqueles que chamam a atenção de uma forma exagerada. Se estão alegres ou tristes, estão-no de uma forma exibidora-- ou gargalham ou carpem. Se se zangam, barafustam e fazem um banzé; andam mesmo sempre de sobrolho carregado. O rostos deles expressam o que sentem muito facilmente. Fazem mesmo esgares ou caretas quando falam, ou quando gostam ou não gostam do que estão a ouvir. Quando aborrecidos respiram fundo e sopram pelo nariz. Também gostam de bater com as coisas de uma forma intimidadora que é para produzir o medo e forçar o respeito às sua pessoas.

Na regra geral, muitos adolescentes reagem dessa maneira, como um pouco de bater de portas e acusar todo o mundo pelos seus males e nunca admitir a realidade, virar as costas de quem se lhes tenta aproximar - coitados nem sabendo o que fazem.

Que todos nós temos iguais altos e baixos, mossas ou esfaziamento ocasional, é uma realidade. Afinal quem não se identifica com todos esses pontos até certo grau. É que no fim, somos todos controladores, todos em fricção com o piso que a vida abre perante nós, de maneira que por mais justos, mais honestos, mais em equilibrio nos julguemos , há sempre aquela ocasião na altura errada que nos faz querer controlar uma situação pela zanga, o mau humor, a crítica mordaz ou o virar as costas e cortar relações, fechar as portas a quem não nos obedece ou respeita, o pregar sermões a torto e a direito, o apontar o dedo. É a nossa condição humana e maneira de viver.

Julgo porém, que antes de tentarmos resolver o problema da droga ou do crime investindo mais dinheiro em polícias ou acções contra droga, precisamos todos mais conhecermos mais sobre a pessoa humana e o que nos faz manter ou perder o equilibrio, em outras palavras sabermos o que estamos a fazer. É que cada vez mais a estrada em que rodamos se está a tornar numa super-auto-estrada onde maneiras de conduzir torpes e carros de sucata não devem ter lugar; são um perigo para o livre avanço de todos nós.

Para terminar, também devo dizer que até aquele que constantemente aconselha, dá opiniões e tenta mudar as idéias dos outros quer pela política, ou pelo fanaticismo religioso ou intelectual, é tão controlador como qualquer outro. Assim, dou-me eu próprio a mão à palmatória. Só espero que a minha forma de controlar seja um contrôle positivo para todos e que saibamos aprender quem somos ou o porque somos o que somos para um mundo mais lúcido e mais humano, mais responsável pelo que faz.

(Para ser continuado)

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha

Mclaughlin, Dennis Excellence in Teaching, 7430 Shepard Mesa Road, Carpinteria, California 93013

Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas
Participe no debate! Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.


Notas biográficas | Voltar à página de artigos | Voltar à página principal

PortugalEmLinha Logo
E-mail: info@portugal-linha.pt
Envie-nos o seu comentário para admin@portugal-linha.pt