Este fim de semana, que foi o Memorial Day weekend na América, fomos até Torino para visitarmos o Santo Sudário, exposto este ano nesta cidade a norte da Itália. Por acaso foi também o mesmo fim de semana que o Papa, devido à celebração da festa da Ascenção, visitou esta exposição.
Saimos aqui do norte na sexta-feira à tarde, sendo a segunda-feira um dia feriado para nós e portanto em nossa frente um fim de semana prolongado.
Depois de descermos pela Alemanha abaixo de autocarro, demos a meio da noite, entrada na Suíça. Levando um percurso em direçcão ao sul, cedo atravessámos os longos túneis que nos levaram lado a
lado a famosos lagos alpinos, por debaixo das montanhas dos Alpes, até bem dentro do norte de Itália. Ainda na Suíça e no cantão italiano, já a sinalização passou a ser em italiano, dando a impressão por algum tempo que já nos encontràvamos em Itália, facto que foi só desconfirmado ao chegarmos à fronteira, que até se fez quando a maior parte dos passageiros dormia.
Assim, depois de muitas horas de desconforto e sono, lá chegamos a Turim, uma cidade industrial e de onde o rei Vittorio Emanuele iniciou o movimento para a unificação da Itália. Era por volta das quatro horas e tal da manhã, quando demos entrada por uma avenida que nos levaria ao centro da cidade. Aí, gradualmente notamos a presença de moças da noite, Madalenas que se conglomeravam como num formigueiro pela avenida abaixo, vestidas de rendas, calções muito curtos, às vezes mesmo só pernas, muitas cobertas de casacos que até tapavam tudo e lá andavam para trás e para a frente à procura de clientes na mesmo azáfama que nos céus levavam os morcegos na sua busca de mosquitos. Era tal o impacto da sua presença, que o condutor alemão chegou mesmo levantar a voz com um "Momma Mia, das ist ja Itália!"
Com o amanhacer, passamos a vislumbrar um pouco do ambiente da cidade que, para nós que vínhamos de um mundo estruturado, metodicamente organizado, nos dava a impressão de aqui e ali estar-se a escangalhar. Eram as janelas com persianas velhas, os quintais entulhados, a falta de asseio e cuidado a que estamos habituados. Ao mesmo tempo, havia aquele ambiente latino de casas com telhados de ardósia, os ciprestes esguios e senhoris, as vilas apalaçadas e as fazendas com gosto ainda romano. Impunha-se no ambiente um temperamento despreocupado, à vontade, desarrumado, mas irónicamente saudável.
Conforme penetrámos na cidade, para trás ficavam então os lugares mais pobres, e a cidade exibia os seus palácios, praças e belos edifícios que faziam aqui e ali lembrar um pouco de Paris ou Bruxelas. Já cinco horas e a cidade acordava. Aqui era o mercado, ali a estação dos comboios pejada de gente. Afinal era bonita Turim, esta grande cidade do Piedmont alpino.
É nesta mesma cidade que o Santo Sudário se encontra desde Setembro 14, 1578, o qual foi transferido de Chambery na França pelo Duque Emanuel Philibert para assim trazer para mais perto do Arcebispo Carlos Barromeo que havia feito uma promessa de o visitar aquando a peste de 1576. Mais tarde, o mesmo duque decide no seu testamento deixar determinado que o dinheiro que fosse colectado para o seu enterro fosse empregado para a construção da Capela do Santo Sudário, na Catedral de S. João em Turin. A construção dessa capela foi pois iniciada em 1657 pelo engenheiro B. Quadri e depois mais tarde terminada pelo engenheiro Guarino Guarini. Foi só em Junho de 1694 que o Santo Sudário foi colocado
nessa capela onde ainda hoje se encontra e de onde só saiu entre os anos 1939 até 1946, altura em que foi guardado em segredo no Santuário de Montevergine em Avellino para assim o proteger da ganância alemã e os abusos da guerra.
Assim, depois de um pequeno almoço apressado, colocamo-nos na linha para irmos ver o Santo Sudário na Catedral de S. João. Ladeando a alameda, pela rampa fora até mesmo dentro da Capela do Santo Sudário, encontravam-se guardas vestidos de traje alpino com seus chapéus de penacho muito parecido aos chapéus de Tirol. Um peregrino americano atreveu-se mesmo perguntar-lhes se eram da Suíça ou da Áustria, o que os deixou a rir-se entre si. A sua presença dava a sensação de estarmos a subir uma montanha para ver o tal Sudário. A um ponto do trajecto, sinais pediam que houvesse silêncio, e assim, conforme nos aproximàmos da capela central onde estava exposto o pano que cobriu Cristo na sua passagem pelo túmulo e este mundo, a massa de gente calou-se e quedou-se em oração.
Ao entrarmos no recinto onde o Santo Sudário se encontrava, subiu o excitamento entre a massa de gente. Uns começaram a filmar, para assim preservarem esse momento para momentos futuros, outros acotevelaram-se para conseguirem a melhor posição de ver o Sudário. Alguns, para conseguirem mais uns segundos na observação do Sudário, tentavam voltar pra trás e contra a corrente de gente, mas os tais guardas alpinos agora não só ladeando o trajecto, misturavam-se entre a massa de gente e depois de uns curtos dois minutos obrigavam que a massa de gente movesse e desse lugar a outros. Um ou outro aventureiro fazia-se desentendido e tentava furar através da nave para voltar à linha do outro lado, mas guardas atentos conduziram-nos para fora do recinto. Depois da longa subida pelas rampas de acesso, de um momento para o outro, encontramo-nos no exterior e de novo no mundo real das coisas e para um sábado que acordava agora a cidade.
Do Sudário próprio conseguimos uma rápida impressão da sombra ténue de um corpo, frente e costas, rosto barbudo, longo cabelo, mãos sobrepostas como se estivessem atadas na parte inferior do corpo. Paralelamente, viam-se uns remendos que advieram do incêndio em 1532 e que acentuavam o efeito místico da peça.
Ali, em frente a esse vestígio do paragão da pessoa humana, Cristo, não podia calar um respeito e um sentimento de admiração por esse homem Deus que assim através dos séculos marcava a sua presença de uma forma mística e sublime. Ao mesmo tempo algo em mim repetia a frase do Domingo de Páscoa--"Aquele que procurais não está aqui!" "Aquele que procurais não está aqui!"
À minha roda observei pessoas com o mesmo sentido de respeito e curiosidade de que o meu e também aqui e ali um pouco daquela religiosidade exarcebada, de gente que procura no místico, a todo o momento um milagre e se relaciona com o sacro como qualquer jogador em Las Vegas, o debulhar Avé Marias como quem coloca moedas num slot machine qualquer e espera a qualquer momento uma vantajosa recompensa por todo o seu zelo, isso entre o puxar, furar, acotovelar, resmungar, exigir e refilar.
Mais do que o próprio Sudário exposto em Turim, deste fim de semana impressionou-me a mensagem da Virgem de San Damiano, que visitámos a duas horas de Turim, num lugarejo a sul de Piazensa.
Alí no que é denominado como a "Cidade das Rosas" ou "Jardim do Paraíso", há um lugar de aparições que nos fez muito lembrar Fátima, onde o espírito, como qualquer manifestação sísmica é para a Terra, é conhecido ter-se manifestado na forma da Virgem, e através da pessoa de Mama Rosa em aparições quase diárias até à sua morte fez conhecer a sua mensagem.
Essa mensagem da Senhora de San Damiano, na sua simplicidade e clareza, impressionou-me. Que a Virgem, nas suas aparições pediu que os homens mantivessem em mente como os dedos de uma mão cinco pontos importantes para um crescimento espiritual, isto é: rezai, rezai muito! Aprendei a amar-vos uns aos outros sem condições com todo o coração e mente! Perdoai-vos uns aos outros! Aceitai-vos uns aos outros como eu vos aceito. Oferecei todo o sacrifício e experiência humana a Deus, todos os pensamentos e acções. Sofrei com amor e paciência. Sofrei com paz e resignação em vossos corações. Inspirai-vos no silêncio e no escuro de vós próprios, que no vosso silêncio e meditação está a minha mensagem, a vossa santidade.
Mais que o Sudário nessa simples mensagem percebi essa presença viva do espírito entre nós, essa força que nos segue e guia, nos dá forma, esse chão e centro da nossa existência que é assim como a magma é para a Terra, pela força da gravidade nos une e nos modula, aqui e ali se revela e se insinua. Em outras palavras, como açoriano compreendo essas aparições, assim como compreendia na minha ilha aqueles fenómenos da terra a arder debaixo dos nossos pés -- o sentir aquela presença da Mãe Terra em tais manifestações naturais como as fumarolas, as caldeiras e lagoas de origem vulcânicas.
Foi pois a mensagem da Virgem em San Damiano, num lugar simplesmente modesto e insignificante, que culminou o nosso passeio a Itália e validou para mim essa peregrinação neste ano que em S. Damiano se considera o Ano do Espírito Santo. Me fez sentir aquela presença mística do Espírito, a Magma do Mundo
Novo, que Cristo nos prometeu.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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