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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas do Pensamento
Eu Controlador Me Confesso


Hoje, enquando passeava pelos campos junto à minha casa com o meu cão, através do rádio transistor que escutava, fiquei sabendo que aquele soldado que todos nós a uma altura ou outra tivemos a oportunidade de ver numa foto em alguma revista dos tempos da construção do muro de Berlin, aquele mesmo que se desfaz da espingarda, a atira para o chão para melhor escapulir para o Oeste, salta o arame farpado e apresenta-se no outro lado e na liberdade--esse soldado e herói já não vive a partir de hoje.

Ao ouvir essa mesma notícia parei no meio do prado onde o gado pastava e calei um momento, como se alguém conhecido se tratasse, mesmo como se tratasse de uma explosão nuclear algures dentro da esfera dos meus pensamentos que me tivesse atingido. Chocado, veio-me à mente a palavra Controladôr-- mais uma casualidade, um desastre pela estrada dos pensamentos fora. Neste caso trata-se de um herói que escolheu o risco à falta de liberdade do sistema comunista - neste caso trata-se da mesma pessoa a escolher.

Mas quem são os controladôres, perguntarão e o que os fazem proceder como procedem? Bem todos nós em gradação variada, somos controladores. Isso é, todos como pessoas humanas trazemos connosco essa herança de Cain, que hoje pode chegar aos jornais na forma dos diversos disturbios e confrontações quer de fans Ingleses, quer Alemães nos jogos de futebol em França, amanhã na forma de homicídios, suicídios, violações, brigas ou guerras -- pais que matam os filhos, de filhos que matam os pais, de irmãos que no seio das nossas famílias no dia à dia, tal maneira de ser insinua-se no simples berrar e acusar, bater portas ou barafustar, em discussões e brigas, no aluno que se droga e pouco se importa com o aprender na escola, no membro da família que se embebeda, naquela ou naquele que se rebela ou se prostitui, no que se afasta e faz o que lhe dá nas ganas por repisa; no que causa problemas, desgostos e vergonha, naquele que se zanga e faz disparates, não escuta a voz da razão.

É mesmo na adolescência que se acentuam mais as tendências controladôras em todos nós. Como jovens em transição, ainda incapazes de medirmos as consequências, agimos de acordo a uma simples lei, " Eu primeiro, e ninguém me manda. " É a fase que nós todos no nosso desenvolvimento tivemos que passar, na maneira em como das crianças obedientes e dependentes, passamos a exigir a nossa independência, a sermos nós -- como as crianças que aprendem a andar, assim, é na adolescência que se experimenta o contrôle.
A adolescência é pois a idade dos controladôres por excelência, quando se deixa de querer ouvir sermões, escutar a voz da razão ou que os outros continuem a pensar por nós. É o tempo de resmungarmos, provocarmos, não aceitarmos concelhos, avisos ou admoestações; o tempo de querer ter um "good time", permitir-se ao que a vida tem de melhor e proibído, mesmo que façamos sofrer, consumir, arder, apoquentar aqueles que nos amam - garantia afinal que alguém ainda se importa por nós depende até certa maneira do Depois, conforme encontramos a nossa expressão, o nosso equilibrio pessoal, gradualmente entramos nos eixos, começamos a aceitar as coisas como são e na medida do possível a seguir o tráfico, sem chamar a atenção, culpar ou acusar a todo o momento. Só os controladôres em si ao contrário, incapacitados de uma transição normal, fixam-se em tais maneiras de ser e tornam-se aqueles para sempre desequilibrados, os que se dão a exagêros, de muito zangar e exigir, de zobrolho cerrado, bruscos, malcriados, ora com, ora sem medo, os controladôres são aqueles que também não têm vergonha, os que fácilmente se entregam a vícios e maus hábitos. Sem vergonha, não têm respeito, nem sequer por si. Sem respeito não sabem dar amor, pouco se importam com os outros, ou no que os outros pensam ou sentem -- usam das pessoas, põem-nas à sua disposição. Não conhecem nem piedade, nem dó, nem caridade, nem cortesia. Só eles é que contam e por isso fácilmente chegam a posições de mando, de dar ordens, do mundo do "quero posso e mando. Assim como são, nenhumas forças armadas e quadros de polícia existiriam sem eles e as suas atitudes. São os possantes, os sem medo, que obrigam todos à sua roda de uma forma compulsiva, impulsiva, mesmo ao ponto de obcsessão e fanatismo.
Debaixo de perigo ou de provocação têm reacções descabidas. Não lhes falta a coragem, admiram a força e o poder pela intimidação. Dão-se até a vantagens ou façanhas de chamar a atenção. Populares às vezes, rodeiam-se de muitos amigos e conhecidos que os respeitam. É só ler o jornal e não faltam casos extremos de tais pessoas em acção. São os perpetradores e vítimas de mil trajédias que ocasionam, sim, por serem de naturezas infernizadas, cheias de si; por serem gente que vive de ânsias fora do normal, de ardimento, de ultra-sensibilidade, de vazio.

Fora dos eixos, eles rápidamente reagem a qualquer acusação, negam qualquer erro, problema ou fraqueza. Mantêm mesmo listas do que se lhes diz e do que se lhes faz, mesmo do que deram ou fizeram - -- contam com a paga. Acusam com muita facilidade como se o mundo lá fora é que tivesse a culpa de tudo -- especialmente se os seus desejos e vontades não foram satisfeitas. Quando alguém ou alguma coisa se lhes coloca em frente, armam logo um muro, amuam, ignoram quem não lhes convém, distanciam-se até das pessoa.
Em sumário, para ver como a idéia de "contrôle" funciona, voltemos às estradas e para isso denominadamente aquelas da área de Boston, por exemplo, que são das mais congestionadas da América do Norte. Uma viagem por essa estrada, fora da zona da grande cidade decorre sem grandes problemas, mas conforme nos aproximamos, mais volumoso se torna o tráfico, mais frequentes se tornam as entradas e saídas e mais caótico o tráfico, tornando-se mais necessário que prestemos a atenção.
Aí, quer queiramos ou não, Ora os controladôres por excelência-ou os fora de contrôle, são os que desrespeitando todos e tudo, resolvem por vontade idomável, feitos carros de corridas, camiões e motas, ignorar não só as leis da estrada, mas também aquelas da cortesia, respeito e humanidade. Antes possuiem muitas vezes uma natureza quase canina-falam aos berros e aos gritos, dizem palavrão obscenidade como forma de meter para fora o veneno e fogo que lhes arde dentro. Com tais atitudes bruscas, sem dó ou piedade, delicadeza, ou co. Depois, quando existe um acidente ou vão para a cadeia, ou ficam doentes apontam qualquer coisa lá fora das suas pessoas como a causa, o problema - "Não foi a minha culpa!" é na norma o que se lhes ouve dizer, mesmo no Inglês o "You make me sick!" -"Tu fazes-me doente! " No seu vocabulário é comum o palavrão, qualquer expressão que minimize, despache o próximo, o envelhaque. Comum também é o "Despacha-te!" "Vá lá!" "Sai da minha frente!" "Vai-te matar!" "Estás dormindo?" "Vai-te para o Inferno!" "Vem para Vivem de bodes expiatórios e tão focados em si próprios nunca conseguem querer vêr mais além, aceitar a sua culpa, corrigir-se ou modificar-se; antes procuram desculpas e razões para continuarem a fazer o que fazem ou a serem o que são. No fim, alguns tão concentrados em si caiem no vazio, na doença que os arrasta à droga, aos maus hábitos, à bebida, à prostituição, ao jogo, ao suicídio, à loucura. Coitados vítimas de si mesmo e do mundo, isolam-se na fúria, na mal disposição, no terror do seu vazio.

Antes de nos identificarmos como sendo ou não um dos tais, lembremo-nos de uma das últimas palavras do paradigma da pessoa humana, "Pai, perdoai, que eles não sabem o que fazem!"-- lembrem-nos que ser contrôladores é uma condição humana e que todos nós o somos de uma maneira ou outra, ainda que o não queiramos aceitar. Por fim, lembremo-nos que só por uma educação sem melindres e um aceitar as nossas faltas para as corrigir, é que se fará a pessoa mais saudável, mais alegre e equilibrada, mais humana.

Notem, quem vai à missa que um dos ritos logo de inicio é o da confissão, o de trazermos à mente as nossas faltas. No propósito de nos tornarmos melhores seres humanos e garantirmos um futuro de verdadeira liberdade, excelência e glória humana, há que acordarmos, sabermos o que estamos a fazer.

(Como se deve lidar com os controladores, ou pararmos de ser controladôres para a próxima edição)

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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