O carácter colectivo de qualquer povo insinua-se na maneira em como juntos comungam os seus valores, celebram o seu espirito, festejam a sua alegria, sua religiosidade, suas convicções--na maneira como se divertem.
Em Portugal onde cada dia da semana foi designado como "feira", Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta-feira, está claro que é em ocasiões como a Expo 98 e qualquer outra feira que o povo encontra a sua expressão. Aí compra e vende, procura e busca o expõe e exibe o que lhe vai na alma.
A Expo 98 é mesmo um bom catálogo do que se fez em Portugal, se faz e se planeia fazer para o futuro. Toda a expressão do nosso povo, a sua história, a sua ambição de mundo, o seu espirito sonhador e imaginativo, as suas ambições e fantasias para o futuro estão ali presentes, como os artigos da feira, a realidade bem outra do que o dia à dia, bem coberta, bem embrulhada, atraente à vista, à venda aos sentidos bem como comes bebes e todos os demais pequenos prazeres que apetitosamente nos satisfazem.
Nós Açoreanos também este Verão mais uma vez nos iremos juntar na cidade de Fall River para juntos celebrarmos as festas Do Santissimo Espírito Santo, que eu por viver aqui na Europa antes do início de tais festas desconheço, mas que posso adivinhar.
Representarão pois da mesma maneira o intimo do nosso povo na religiosidade, curiosidade, necessidade de nos sintetizarmos uns aos outros como povo: nos reencontrarmos, reconstruirmos por uns dias o mundo que deixamos atrás nos Açores, com procissões e costumes de eras medievais, que preservamos na memória e no dia em dia como a nossa filosofia de viver que o mundo das ilhas, a natureza instável, cruel e isolamento nos impressionou numa fé carismática.
Combinamos esses traços com o carácter Português de se sonhar acordados, por instantes se suspender a realidade e viver da fantasia, do belo e bom, do impossível. Como numa feira ali para se vender e comprar, buscar e encontrar, para um pouco de conversa, para se saber de notícias, ver e descobrir alguém, ir com fulano e beltrano, passar-se um bom tempo, expôrmos, exibirmos ,mostrarmos mesmo a nossa importância em roupa e sapato, criticar ou falar mal ao som de um Pah-Pah de banda de música da nossa terra, ao cheiro do chouriço e das sardinhas, ao som pela noite dentro de fados e música de se bater o pé, de até aliviar o corpo, esquecer a fábrica, o trabalho a realidade.
Ao contrário do Açoreano e do Português que atrás ficou, que sente a necessidade de se actualizar optando por se tornar o último grito do moderno, do fino, do Europeu 150 por cento, o Português emigrado, em tais festas mantêm na regra geral o cariz da sua terra, do mundo que deixou atrás há vinte, trinta, quarenta e cinquenta anos, aquele mundo idealizado que conheceu nos seus tempos e de que se viu arrancado por circunstâncias da vida - um Portugal em movimento lento.
Já na Expo da mesma forma religiosa e sonhadora, a devoção, o sonhar é outro. Assim como as madames do passado se consciencializavam que o usarem cintas apertadas até quase lhe cortarem a respiração, era chic, o faziam com o perigo de saúde só porque o mundo assim o exigia, na expo vive-se o ambiente que tem de ser o último grito, o mais, o que a Europa toda já faz; à noite não faltar o hard rock, o ambiente hipnótico, hyped-up de música alta, se Portuguesa, irreconhecível, à qual uma caterva de gente nova se move e se diz deliciar porque seriam considerados idiotas e ultrapasados se não aderissem, não tolerassem o ruído, o som de arrebentar os ouvidos, se não fizessem da noite dia e do dia noite como todos os vampiros que se prezam, e se não precisassem de óculos escuros no fim para cobrir os olhos encaveirados, negros e feios pelo abuso de alcoól, droga, e noites sem dormir. Ali encontra-se Portugal a movimento rápido.
Seguindo a mesma linha de pensamento, na Alemanha, mesmo este fim de semana, também houve uma grande celebração nas avenidas de Berlin onde congregaram cerca de um milhão de jovens numa parada denominada como a Love Parade.
Da mesma forma, nessa celebração, que é a nona desde 1990, insinuou-se o carácter germânico da juventude alemã, como até é o mesmo daquele do Fasching ou Carnaval--- um espirito indomável, bárbaro, carnavalesco, de vigor, de virilidade em festa, as mulheres só precisando pêlo no peito para serem iguais aos homens.
Essa parada juntou o culto do discó e da música techno, mais os adeptos do porno e das zonas da cidades que denominamos de "red light districts", mais os que gostam de uma boa pinga ou droga e muita juventude e muitos curiosos, um mundo de balbúrdia, de música de arrebentar os ouvidos , do todo permitido e escandaloso onde se urinou livremente em público e não só, mesmo debaixo de chuva se exibiram à vontade e à larga os seios, músculos e muitos corajosos e destemidos, mesmo os genitais masculinos para chocar. Beijaram-se e roçaram-se em pleno público, treparam postos, deixaram lixo de garrafas, copos e bebidas e está claro urina por todos os lados. Comportaram-se como se comportam quando vão para o estrangeiro onde para chocarem fazem espalhafato, brigam, destroiem, fazem um banzé, criam destúrbios embaraçantes, dão-se à perversidade sem limites - um milhão de jovens num fernesim vigoroso que nem o Carnaval do rio se pode igualar.
Assim, os mestres da ordem e do método, Ordnung muss sein, os donos da Europa em tais celebrações provam a sua natureza congenitamente bárbara, seu espirito de tasca. Com um pouco de bebida e juntos uns com os outros passam a não respeitar ninguém, a não ter pudôr algum, a fazerem exagêros que nem os primitivos mais néscios, dão-se a um ambiente de graças sem graça, galhofada e palhaçadas e exagêros de malta embriagada que às vezes chega mesmo a abusos, a vitimar os que se lhes não associem ou com quem não se querem associar. Transformam-se juntos em hooligans, gangs dispostos a tudo para se divertirem e se afirmarem como grupo.
É mesmo essa natureza idomável que demonstram nas suas celebrações, tanto no Oktoberfest, como durante o Fasching e agora em Berlin, a energia motriz que também os levou aos exagêros do Holocausto--- até a maneira que os NAZIS celebraram o seu subir ao poder no templo de Hitler foi também já em paradas nudistas, de semelhante euforia de bebida e corpo, onde milhares de pessoas do culto nudista se exibiram como os melhores specimens da raça pura e bela em cortejos à noite onde tudo se devia quanto mais baixa fosse a alma.
Um povo que se vangloria ser um país de pensadores, filósofos, poetas, mestres do pensar, mostra assim no fernesim libertino, pouco cortês, bruto mesmo, a modalidade de deixar de pensar, de se importar, de sentir pelos outros, de pôr de lado a sua própria humanidade para pertencer ao grupo que os faz ter atitudes mais próprias de uma penitenciária onde o acto mais atrevido, mais afoite, com mais falta de respeito, mais violento, mais baixo, mais impudico consegue o respeito de todos. Senhores de si, transformam-se numa quase criação à parte, para quem a consciência e o remorso pouco dizem.
Doctor Jeckyl and Hyde, o Alemão assim, reúne em si duas naturezas e quem conhece uma não pode compreender como a outra é possível mas vivem como parte do seu carácter no dia à dia, especialmente se se estudar a maneira como impõe a sua vontade.
Ao contrário de nós Portugueses não perdem tempo a sonhar, a encantar, a fantasiar, a embrulhar para enganar os sentidos. Lidam numa forma directa, concreta, real, apresentam as coisas como são "take it or leave it" de uma forma crua e cruel, ainda que não correcta às vezes. A sua vontade manda, eleva-se à vontade de tudo e de todos.
Ora, enquanto as celebrações Portuguesas possuiem uma qualidade de sonho e fantasia, um meter-se a dormir a realidade--- as procissões, anjinhos e andôres, mesmo trechos com elementos dos sonhos, as celebrações alemães são para acordar a realidade, os instintos, não deixar mesmo ninguém dormir. Como o barulho, as asneiras e espalhafato que fazem, quem é que pode ou quer sonhar ou dormir acordado? Precisa antes estar atento, muito atento, até beber e dançar, transformar-se em força animal igual.
Afinal um povo que cresceu numa zona em constante guerra, vítimas de vicissitudes bélicas de horrendas catástrofes, filhos da guerra, eles desenvolveram uma vontade que usam como uma arma perigosa para defesa pessoal. Por isso até na fisionomia demonstram esse facto com as suas carrancas odiosas, olhares furiosos, especialmente quando em situações que fogem ao familiar, ou na presença de estrangeiros, no dia à dia na sua tensão e nervosismo miúdinho que só o vinho consegue conquistar.
Assim, até são terapêuticas as suas festas, fazem-lhe bem ao espirito amarrado, escravo da
preocupação da luta do dia à dia--- têm a sua razão.
Em resumo, tanto as celebrações Portuguesas, Açoreanas e Alemães tem uma qualidade de caça - vai-se à caça de alegria, de divertimento, de atenção. Diria mesmo que os povos de qualidade mais caçadora são também os povos que mais festas têm. Tentar impedir que as celebrem é o conseguir o mesmo desfeixe dos Irlandeses Protestantes da Irlanda do Norte que feitos mulas não arredam pé se a sua vontade lhes não fôr feita. Pois, quando um povo celebra é parte da sua alma, da sua maneira de ser, e sugerir que o deixe de fazer é em parte sugerir a sua extinção. A própria festa do Natal é um exemplo de tal, uma festa que até a igreja católica não teve outro remédio senão incluir no seu repertório de festas principais, se quisesse manter fiéis. Cada festa, quer o aceitemos ou não tem uma razão profunda a que obedece, por mais que chocante, por mais que ilógica nos possa parecer, devemos respeitar isso.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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