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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas do Pensamento
Destino a Terras de Sol


Aqui no Norte a transição da estação do Estio para a do Outono é quase de um dia para o outro. Uma semana morre-se de calor, na outra já o céu se torna escuro e as madrugadas de qualidade tenebrosa e gelada.
É assim já no fim de Agosto---- Setembro sem dúvida um mês de Outono, já a tocar no Inverno, com a sombra a alastrar-se e o Sol a negar a sua presença.

Cedo olhando para o alto deparamos com a formação de V das aves migratórias, essas ciganas de asas que buscam o Sol emparagems mais a Sul. É a atraçcão do momento tais deslocações.

Quem as observa nota que a abrir o caminho é sempre singularmente alguma ave, que para a nossa modalidade humana se traduz na mais forte e poderosa, na mais macha talvez, na mais "Rambo," a que pode tornar a força das suas asas em atributo de chefe; de alguém que sabe mandar, guiar toda a sua espécie.

É que entre nós homens, quem mais forte ronca, mais músculo tenha, mais touro seja, mais intimide-quem ganha a guerra é quem manda. A arte de alguém que manda, do mandão é pois obrigar os outros às suas vontades, a serem servidos, obedecidos, respeitados pelo poder da bronca, da ameaça, do desrespeito-quanto mais Rambo, mais Clinton e o seu magnetismo mulheraço, melhor a posição.

Ora, quem observe melhor a mecânica desse voo das aves no Outono descobrirá, que entre as aves não é bem assim. A primeira ave é antes a que mais serve o resto do bando, a que mais de si dá para a causa colectiva. É porque, essas primeiras aves, as que vão na frente, são as que pelo seu esforço e sacrifício, concedem às que lhe seguem imediatamente atrás melhor suspensão de ar, de maneira que a tarefa de espanejar se torna mais fácil quanto mais para trás estiver uma ave. As aves em frente não só guiam. Também é de notar que uma ave que guia o seu bando, não o faz de uma forma permanente. Quando chega ao ponto de não poder mais, concede o seu lugar aquela ave que possa igual esforço e sacrifício. Na regra geral, a que mais lá atrás esteja, pois que usufruindo da propulsão de ar que as da frente produzem, é a que mais energia poupou e portanto a com mais energia ainda para dar.

Num mundo da Banca, da virilidade que se impõe pelo roncar mais forte, de uma humanidade cada vez mais propensa a viver passando rasteiras aos outros, de abuso de vontades, de exagero de poder, de egoísmo, ganância e instinctos que pouco elevam, é salutar o podermos em qualquer manhã de Outono pararmos para observar contra o cinzento opacto do céu essa forma de V das aves no seu destino a terras de Sol.

É nesses instantes, no silêncio de alguma madrugada triste que me assome uma alegria invulgar, pois que, sendo Cristão, de súbito compreendo o significado desse acto de Cristo na cruz. É mesmo seguindo algum bando de aves no céu, melhor do que em qualquer sessão de Bíblia ou sermão ao cheiro de velas que compreendo a mensagem de Cristo, nosso servo. Às aves que partem dirijo um "Ide com Deus!" e fico a vê-las singrando, afastar-se em direçcão às montanhas.

É assim pois, que passo a perceber a razão de um Cristão no fim no seu entusiasmo só passe a pensar, a falar, a referir-se a Cristo. O que para outros, fora do bando possa passar por fanatismo, doença mesmo, fixação, beatifiquice, é apenas propulsão, a força que esse próprio Cristo produziu e sobre a qual conseguimos a nossa própria elevação---é o seu jacto em nós, é só.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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