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Silvério Gabriel de Melo


Perspectiva de um Luso-Americano na Alemanha
Sobre a Programação da RTPi e os Açores


Vivendo na Alemanha como Luso-Americano, rodeado tanto pela cultura americana como pela cultura alemã, de vez enquando damos uma olhadela à programação da RTPi para assim comungarmos dos laços que nos unem a Portugal, vermos o que se passa por lá.

Invariávelmente somos bemvindos a um programa ou de football, ou fotonovela, Jet Sete ou outra programação do belo e do fino apresentados com o mesmo zêlo e cuidado que os boieiros da minha terra demonstravam ao alimentarem as "rêzes" com "gavela"--- a horas certas e por conta larga. Últimamente temos até tido o prazer de presencearmos diferentes reportagens sobre a Expo, o luxo e orgulho do Portugal moderno, apesar de também já tomarmos conhecimento que, entretanto, nos bastidores não falte a trafulhice e batota à portuguêsa, como diriam os Italianos--administradores que entram e saiem.

Depois, como Açoreanos levamos à espera de um bom programa dos Açores que não seja dos tais que nos leve tão depressa como começa de mergulho pelos fundos do oceano e à caça marinha ou a visitar a miséria depois de alguma catástrofe como o recente terramoto no Faial, ou ainda, como a semana passada, uma menção honrosa, mas um tanto ou quanto para o banal do Dia dos Açores na Expo-- com a presença do Presidente e tudo, muito sorrisos, vénias e cumprimentos e a presença de intelectuais, o creme da nossa sociedade, mas tão longe dos Açores como as muitas léguas que separam o continente do arquipélago.

Assim, continuamos a esperar por uma presença mais real e assídua na RTPi sobre os Açores, pelo menos algo compatível às programações da Madeira, Cabo Verde e África, estas duas últimas regiões até parecendo dominar toda a programação ao ponto de aqui na Europa parecer que esse canal se trata mais de uma estação africana do que uma de expressão ibérica.

Como Português reconhêço a nossa ligação a esses povos por laços da história. Ao mesmo tempo, não posso calar o meu sentido crítica condicionada por largos anos de enculturação fora do nosso país, compreendendo tais esforços como ligados a grandes interesses de negócios e fito em lucro, mais do que a solidariedade só por si. Essa impressão cria-se, especialmente, quando continuamos à espera de programas não só de outras regiões de Portugal, mas também dos Açores onde somos oriundos, que talvez por insignificância em termos de lucro a longo prazo, passam por invisívéis, para a administração da RTPi tão mais distante do que Angola, Guiné, e outros países lusófonos.

Estou certo que, se os Açores fossem uma promessa igual de lucro rendoso-fonte de exploração, de certo que também figurariam na progamação da RTPi no mesmo nível e assiduidade que se nota em relação aos países lusófonos da África e Ásia, mas sendo umas ilhas insignificantes em termos de rendimento, não interessam a ninguém.

Assim, aqui na longíqua Europa continuaremos a ser expostos ao dia à dia da cultura africana: festas, festivais, palestras, reuniões, entrevistas, guerras, etc.--- realidades das ex-colónias, como se tratassem de Portugal próprio, enquanto a presença Açoreana e outras zonas de Portugal menos desejáveis em termos de comercialização ou exploração continuará pobre, rara mesmo, quase inexistente.

Para o luxo de Portugal tenta-se dar a impressão de sermos também mestres a nível do globo, especialmente com o nosso involvimento tanto nas ex-colónias africanas, como em Timor, mesmo agora como na Algéria e outros pontos do globo, oferecendo programas que quase deixam Portugal passar por um país africano, enquanto que o que é verdadeiramente nosso, mas peque por falta de nível e brilho (de qualidades de atracção Europeia ou da banca), se ignore, se deixe para o canto como Gata Borralheira a quem se tira o direito de presença. É pena.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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