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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas do Pensamento - Ein "Báto", Eine "Schande"


No carro em direcção a Ramstein, começou a minha esposa a relatar-me o buffet das suas amigas espanholas a noite antes. Conheceu ela uma moça de Zaragosa casada com um militar e através dela outras Sevilhanas e Castelhanas de raça. No âmbito de língua e gente germânica, neste oceano de cultura Nórdica, cedeu ela ao impulso ibérico de aceitar o convite que essas últimas lhe fizeram - sem maridos.

As Espanholas quando falam a sua língua falam depressa e com gana, diz-me a minha mulher. O "party" foi assim um de rir e falar entre o comer. Uma das histórias que muito divertiu a minha esposa foi uma contada sobre uma peripécia de Verão e o tal problema da língua não muito diferente daquele que os nossos emigrantes conhecem por experiência.

Ora numa noitinha de Verão, na casa de uma das Espanholas, pela janela da cozinha dentro a certa altura entrou um morcego - bem, segundo a minha mulher, "non um mórcego, pêro una mórcega" e isto explicado com gestos relativos indicando os seios.

Ora, com a entrada da morcega, gerou o pânico na família. Uma das crianças aos gritos arrumou-se de baixo da mesa, a outra por detrás de um cortinado e a morcega à vontade pela casa dentro e a sombra amiga.

Entre exaltação desce o marido à casa dos vizinhos para pedir ajuda. Em baixo, um casal americano, fá-lo lembrar que é contra a lei matar morcegos na Alemanha, mas que têm que ter cuidado pois que pode haver morcegos rábidos e isso um perigo. Caso não solucionado, volta o homem à sua casa e decide chamar a polícia.

Chega a polícia e aí o problema da língua. Como se diz morcego ou morcega em Alemão. Entre exaltação tenta-se explicar ao polícia que se trata de um morcego, e acreditando que o Alemão se trata de uma deturpação do Inglês escolhem a palavra "bat", mas à alemã " ein báto, ein báto". O polícia na sua dignidade germância de nova horas olha para eles sem perceber o que está a acontecer----uma criança de cócoras debaixo de uma mesa, outra espreitando entre o cortinado com olhar angustioso e uma estrangeira exaltada a falar de um "báto". Na sua irritação germânica dispara um "Was? Was geht hier vor?" ao que eles voltam a repetir "ein báto, ein báto", isso ajudado por um sacudir de braços ao que a polícia mais enfáticamente volta a repetir o seu "Was!?"

Por fim entre "ein báto" e "Was?!", de um recanto escuro da casa lá apareceu a mãe morcega no seu vôo. Com uma expressão gozona, o polícia exlama "eine Fledermaus," abre de par em par as janela e ordena que se fechem as luzes. Assim, tão majésticamente como entrou lá saiu a morcega--- da mesma maneira, momentos a seguir "die Polizei" na sua maneira inexpressiva sem mais comentário ou reacção com a família que devem ter tomado como malucos, também sai e o caso resolvido.

Assim dá em rir essa tribulação de gente hispânica em terras da Alemanha. Da mesma maneira, o caso de Clinton na Europa é um caso entre ridículo e patético. Para a mentalidade Europeia, não se compreende como os chefes do mundo de hoje em dia podem cair em tal estupidez tanto no agir de um chefe de estado feito galo ou menino de rua apanhado em flagrante, (ele que involvido em actos sexuais descobre um vocabulário próprio para o chamar de outra coisa), como de uma nação inteira engalfinhada no assumpto numa excitação quer apologética quer acusativa de um povo tão excitado e fora de si, como se tais actos tivessem sido uma descarga violenta do Sol - que também se fez sentir este Verão pela segunda vez neste últimos dois anos e a que se deverá vulcões, tremores de terra e efeitos atmosféricos que todos nós convenientemente culparemos por efeitos do "el Nino."

Assim, na Alemanha reage-se ao caso de Clinton com um riso escarninho imperceptível como aqueles da polícia na casa da Espanhola este Verão e quase como dever de aliados se inclui tal informação nos noticiários diários para quem queira rir um pouco ou ficar a saber a que ponto de estupidez se pôde chegar no país de computadores e técnica espacial.

Pessoalmente, tais acontecimentos confirmam para mim a lei de que, quem obedece à lei do galinheiro expõe-se à bicada. O Presidente Clinton, não é néscio nenhum, que não soubesse o que estava a fazer. Não era talvez a sua primeira vez em erro--- seu, um hábito apoiado em erro. Como pessoa inteligente e responsável por um país, cedeu a instinctos baixos e nisso demonstrou-se o rapaz da rua, vulgar e irresponsável, aquele que depois de fazer uma asneira, se cobre e se protege com truques de lógica, comédia para que tenham piedade do seu êrro (hábito) , isso um perigo para quem tem nas mãos o poder e a força num mundo que contrôla.

Inserido num contexto militar, com tal chefe no poder, até poderemos vir a ter generais que nesse modêlo encontrem o apoio para as suas própias orgias de oficio e o que se permite ao general, permitido é ao soldado. Assim como uma pai pulha ofende uma família, a figura do Presidente foi atingida de uma forma que marcará a presidência americana por muitos anos. Mesmo os filhos de relações extra-maritais se revoltam contra ou uma mãe ou um pai devasso apanhado em flagrante.

Quantas crianças que servimos sofrem o trauma de descobrir que o pai ou a mãe não passam de máquinas sexuais. Nas nossas aulas tal trauma é bastante comum devido à realidade militar. Ao contrário das aulas convencionais, os nossos alunos são mais impertinentes, mais violentos, mais sem amor próprio, mais safados, sem respeito algum por ninguém, pudôr, ou mêdo. ---tudo lhes é indiferente. Neste âmbito é muito comum o serem expostos a cenas e actos de soldados em folga, a terem acesso aos videos pornográficos, senão tantas vezes mesmo a orgias conjugais ou extra-conjugais, vítimas mesmo de incesto e outros actos de intimos a perversos. Lidamos com tais crianças e é fácil compreender como tantos vão daí à violência, ao abuso, à droga, à perversidade, loucura e crime e para eles precisamos de usar de muita compreensão, tolerância e paciência. São crianças em termos humanos vítimas de aberrações de comportamento humano e o seu rancor real.

Assim, o Presidente da América com o seu acto irresponsável afectou-nos todos de uma forma quase roubo à inocência. Depois de Nixon, capacitamos que os presidentes podem ser ladrões, assim como alguém pode ter um pai menos honesto, um trafulha, mas quando se descobre que um pai, infundindo respeito e amor, é um sem amor ou pelo menos de amores de ordem baixa, uma pessoa escrava de actos que o colocam ao nível dos animais--- então se apanhado no acto, quer queira ou não, cêdo ou tarde virá a rejeição ou a intolerância filial, o ódio ou a violência, mesmo nojo que se traduz em confusão, em desespêro, em falta de intolerância e confiança-- especialmente quando esse pai tenta continuar a impôr-se como simbolo de lei e ordem, de dedicação e de valores superiores. Diria mesmo, que o Presidente pela sua atitude - isso e o facto de confirmar em público tais actos, pôs-se em perigo de vida. Numa sociedade violenta como é a americana roubou-lhe o último vestígio de decência e de razão. Criou um ambiente onde uma pequena provocação da sua vontade sobre a do povo agora, e ter-se-há rastilho para uma bomba.

Clinton e o seu erro, (que é mais um hábito do que êrro), espelha sim a América toda na sua qualidade de obcessão genital - que nem sequer é sexual, se seguirmos a lógica de Clinton. Portanto nesse dilema, não é só ele que está em causa, é todo o país. É que na América brinca-se ao sentido de propriety, de infalibilidade moral, quando às escondidas se pratica toda a imoralidade que a liberdade consente.

Assim como Hitler reflectiu toda uma maneira de sentir germância, foi o pináculo da cultura e pensamento alemão, Clinton da mesma forma acentua a América de todos nós quando praticamos ou sancionamos a liberdade do prazer, do deboche, do seja feita a minha vontade, do consentirmos o êrro, o exagêro como direito americano.

Assim, como uma criança, o povo americano finalmente exposto ao vivo à realidade de um pai degenerado, confirmando com os seus próprios olhos orgias e vicios menos galantes, menos de nível de pai - neste caso de presidente, esta é uma ocasião de sentir pena não pelo Presidente, mas pelo próprio povo, testemunha de uma baixeza naquele que o respresenta e o espelha. É o compreender a confusão, o sentido de revolta, nojo, raiva e dôr de uma nação vilificada mais do que por um erro, por um hábito baixo, arrogante, indecente que destroi toda a pretensão de virtude, caracter, amor ou honra. É que um hábito é uma série de êrros aceite como modus vivendi, maneira de querer, de actuar, de viver e o mero dizer "I am sorry," e o querer continuar a executar um trabalho de honra em nome do povo, é uma mentira, uma artimanha de alguém que de livre vontade, uma , muitas vezes optou ser irresponsável, errar pela força do prazer.

Portanto, esta não é a ocasião de rir, e os verdadeiros aliados do espirito e valores americanos devem sentir pena e compaixão por esse povo que testemunha de realidades que se tentou esconder e negar, olhará o mundo com uma nova raiva, mais se tornará desconfiado; sem amor próprio, pouco se importará com aquele dos outros, mais descarado não guardará respeito a ninguém, nem nenhuma coisa, sem piedade fará pagar essa presidência pelos seus vicios e pecados.

Ao mesmo tempo, vejamos, para os povos árabes, essa é a confirmação da degeneração do sistema que lhes convém destruir, e para muitos outros povos a confirmação que o Presidente, a América na pessoa dele, não só se faz munir de um baseball bat, mas de um charuto para sancionar as suas relações mais baixas, com os países mais fracos e mais susceptíveis. De qualquer modo "eine Schande" como se diz por cá, algo que marcará a América e o seu povo por algum tempo.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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