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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas e Caminhos do Pensamento
Der Deutsche Mitchel


Der Deutsche Mitchel é para os Alemães o que o Zé Povinho é para nós Portugueses, uma figura fictícia que personifica o seu carácter como povo.

Nunca ninguém em si se quer caracterizar como o Zé Povinho ou na Alemanha como ein Deutsche Mitchel, esses são sempre os vizinhos, os outros, o resto do povo, mas cada um em si foge à caricatura de divertida a idiota que essas figuras representam.

Der Deutsche Mitchel é assim aquela figura de campónio entre idiota a astuto, com um semblante de homem do campo, uma falta de civilidade, sem sentido nenhum de etiqueta que faz e diz o que todo o Alemão gostaria de dizer ou fazer.

Na Idade Média era ele era aquele que não sabia falar, nem ler, nem tão pouco querer perceber Latin, Francês, Espanhol ou Grego, que só se interessava em ser Alemão e que o deixassem em paz, que todos os estrangeiros refinados ficassem lá por fora, os próprios padres e Papa, que ele não tinha nenhuma necessidade deles.

Em regra geral ama dormir e é conhecido pelo seu capucho de cama. No seu dormir sonha e tem pesadêlos. Ele é aquele ora alguém com grandes idéias que nunca chegam a ser executadas por falta de energia e discrição , outras vezes, especialmente há cinquenta e tal anos, aquele directamente oposto, guerreando e fazendo a sua vontade valer, com base em idéias não muito discretas. Desta forma tanto os seus sonhos como pesadêlos passam a torná-lo vítima da sua apatia, a sua maneira de ser morrinhosa, ou ao contrário, da sua actividade exagerada que o torna o inimigo número um de todos à roda, de todo o mundo até.

Der Deutsche Mitchel é assim aquele coitado e ao mesmo tempo aquele espertalhão que diz e exige a justiça e a atenção à sua maneira, de uma forma congenial a todo o Alemão. Torna-se pois o herói que glorifica a maneira de pensar do Alemão, ao mesmo tempo que é o que "paga as favas" por tudo, como se dizia na minha terra. Em outras palavras quem pela sua falta de descrição é culpado de certos exagêros e abusos que povo todo comete com a sua maneira de ser.

Há cinquenta e tal anos, tanto Hitler como Göbble e o partido NAZI tentaram dar expressão a esse indivíduo e como ele defender direitos e maneiras de pensar como o povo em geral, "para seu bem", "para bem da Nação" de uma forma tenaz, rude, sem escrúpulos ou outra consciência a não ser a de levar para a frente a vontade do povo. Acordaram com essa maneira de ser arrogante, indiferente a tudo e todos que não a si próprios e os seus desígnios, uma atitude que os mergulhou num mundo de pesadêlos sem precedentes.

Na América, é o Uncle Sam que personifica o povo americano. Ele é um velho de chapéu alto, barbicha pontiaguda, pronto para qualquer parada patriótica, de fisionomia e carácter forte de um tio qualquer cuja a vontade se imponha a qualquer outra vontade, a quem se deve obedecer de alma e coração, com estima e com respeito, isso para "bem da Nação", de todos nós.
Vestido com um smoking azul e vermelho, da cor da bandeira, esse ancião representa pois uma nação nova de altos valôres, raramente amesquinhado, na forma em como entre todas as figuras do povo, raramente é visto como o idiota ou o simplório do Deutsche Mitchel ou do Zé Povinho. Venerado e defendido por todos na terra do Tio Sam, ele é o simbolo da grande nação em que vivemos e não tolera que o tornem em motivo de gozo. Diria até que atinge quase a figura de um sábio ou feiticeiro, na forma como aponta o seu dedo todo poderoso e carrega o sobrôlho, como um controladôr que se preza, para todos e exige respeito e obediência - ele é que sabe melhor, não consente provocação ou que lhe ponham em causa, exige reverência incondicional.

Nestes dias de hoje em que o mundo se globaliza---uma outra palavra para um catolocismo comercial, seria interesante convidar para uma gala qualquer os Zés Povinhos de todo o mundo. O Mundo, esse, de cabeça em forma de globo, sentado como alguém com dôres de dentes, a lamentar a sua sorte, seria o rei deles todos num panorama bizarro de identidades cómicas-onde o único sério seria o Uncle Sam a passear para um lado e o outro, a cumprimentar este e aquele e a distribuir sorrisos e fazer promessas---às escondidas.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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