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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas e Caminhos do Pensamento
Os Corta Papéis


Lembro-me de já ter lido num comentário poético de um poeta português algures na Holanda sobre o facto dos livros Portugueses serem em grande parte fechados, isso é, as páginas ainda por cortar.
Tenho da mesma maneira livros em casa que aborreço ler devido página sim, página não estarem herméticamente seladas e interditas à livre leitura.

Realmente dá a impressão que em Portugal se lê com a faca na mão ou um corta papéis. Eu por achar isso incómodo simplesmente ou não leio à espera de melhor ocasião da tarefa aborrecida de abrir as páginas ou simplesmente introduzo o dedo com um certo grau de mal disposição e rasgo as páginas de uma forma irregular. Ao diabo tal livro!

Lembro-me da mesma forma notar que nas bibliotecas portuguesas invariávelmente consistiam de um reduzido número de volumes cuidadosamente alinhados dentro de armários fechados à chave e fora do acesso da livre prescrutação dos leitores. Para os conseguirmos teríamos de delicadamente pedir às biblioticárias em serviço licença para conseguirmos qualquer que fosse o livro.

Não é pois de admirar que a sociedade que pratica tais costumes, onde o livro além de ser caro e de má qualidade, vem parcialmente selado e é de difícil acesso, que haja pouco dedicação e amor do seu povo à leitura.

Da mesma forma não é de admirar que a participação literária em Portugal esteja em círculos fechados a si próprios, mesmo nesta época da internet. Noto isso por exemplo nas páginas do Açoreano Oriental, períodico reduzido a leitores e participantes de um clan reduzido a si próprio de personalidades do âmbito ilhéu. Ali não se admitem emigrantes e se permite a expressão livre de quem quer. Os critérios que usam noto, continuam a ser os mesmos dos livros selados, só possíveis com uma corta papéis na mão.
Admitem-se só os bem falantes, os intelectuais do seu âmbito segregado. Como tantas outras tornou-se um periódico das classes preveligiadas como políticos, empresários, banqueiros, engenheiros e industriais do meio insignificantes que são os Açores. Viram as costas ao resto da população como na cidade de Ponta Delgada se constróiem hotéis arranha céus que vedam a luz ao resto da cidade.

Nesse meio sufocado pelo poder dos ricos ou poderosos, desgraçado é aquele que se atreva falar da razão ou exprima alguma oposição, tanto mais se não se conformar às coisas como são. Assim, participar no Açoreano Oriental, é coisa de classe fina; de quem traga uma elegância de termos e de expressões feitas de aceitação a essa sociedade que busca o que brilha e o que dá lucro aos poucos, os Bensaúde e companhia, às famílias abrazonadas ou endinheiradas ou os intelectuais de meia tigela que o são no emprego de uma liguagem inacessível ao resto, como os livros dessa terra selados e interditos ao livro acesso, onde se precisa um corta papéis a todo o momento.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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