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Silvério Gabriel de Melo


O Preto Americano e a Laranja


Quem olha para o mapa da Alemanha e procura Landstuhl ou Ramstein, nota que estes dois lugares situam-se quase a centro da Europa.

De todas as populações da Alemanha, a população desta zona, por isso mesmo, é a menos indígena. Isso é, cada zona da Alemanha traça as suas origens a tribos germânicas muito antigas. Esta zona por estar no centro da Europa foi uma zona constantemente invadida por exércitos quer vindos do Leste, quer do Oeste. Ora invadia um grupo e aqui se estabelecia. Logo outro grupo invadia e forçava o primeiro grupo para fora desta zona, isso século após século de ressaca; de forma que ao contrário dos povos da Bavária, Baden-Wurtenburg, etc. o povo que aqui reside deve a sua presença a alguma invasão antiga que os trouxe para este lugar, vindos sabe Deus de onde e os torna em cidadãos de natureza arreigada e bélica como confirmam os perto de dois mil agrupamentos neo- NAZIS. Até o chefe do maior agrupamento mora na mesma aldeia que eu, um cara de saltão humano, de palidez quase pûs e um sorriso Luciférico.

Fechados no seu mundo, segundo um colega Alemão, quando os Americanos chegaram a esta zona depois da Segunda Grande Guerra Mundial e estabeleceram-se nas suas bases, era como se alguma civilização extra-terrestre se tivesse colocado entre eles. As crianças principalmente olhavam para essas bases com um sentido de fascínio e terror, especialmente quando se tornou hábito os soldados americanos distribuírem guloseimas entre elas.

O meu tal colega até se lembra da primeira laranja que viu na sua vida. Um soldado negro visitou a escola, sorrindo e falando numa língua que eles desconheciam por completo ofereceu a cada criança uma laranja. Como as crianças Alemães nunca tinham visto um preto na sua vida, tanto menos uma laranja ficaram estarrecidos a olhar tanto para um como para o outro sem saber como reagir. Primeiro olharam para a laranja meios desconfiados, mas achando que a tal coisa vinha da América, deduziram que devia ser qualquer guloseima. Curiosos deram a sua primeira dentada. Só que ninguém lhes disse que a casca de uma laranja não era para se comer. Assim começaram a mastigar a casca da laranja como se tratasse de uma maçã, eine Apfelsinne. No momento em que notaram o amargo da casca, começaram a cuspir a laranja por todos os lados e a fazerem um banzé, acusando o diabo do prêto por os haver envenenado. O preto ao notar o que estava a acontecer de certo que riu---não lhe tinha passado pela cabeça que essas crianças não soubessem o que era uma laranja e como se a devia comer. Passou a uma lição de como descascar uma laranja, como se comer a polpa da mesma e cuspir as pevides.

Assim, esse contacto com duas culturas veio a contribuir para uma mentalidade mais acessível a um mundo mais complexo e vasto do que aquele em que estas populações estavam imersas e apesar do saudosismo de alguns racistas, de neo-NAZIS ou ultra nacionalistas, os muitos sentimentos bairristas, vive-se hoje um mundo que se abre à sua própria realidade complexa e multi-facetada. Pelo menos assim o indicam as recentes eleições na Alemanha que indicaram uma decrescência no voto extremista da direita e situaram a política em interesses mais próximos das realidade do povo alemão, mas ainda leal ao processo de união Europeia.

Assim, aqui na Europa, apesar de contra-marés, e a falta do espirito Cristão por excelência, constrói-se uma nova realidade---- à César, de certo, uma alicerçada em interesses comerciais e financeiros, mas de qualquer modo um passo para uma Europa menos divisiva e territorial, uma Europa mais consciente e responsável, mais discreta até.

Para muitos, porém, é como se alguém os quisesse envenenar. Protestam, anteveêm catastrofes e problemas e razões prementes para que se pare o processo de união e transformação desta Europa que durante milénios só conheceu renhimentos e lutas constantes. Apesar dos agrupamentos extremistas, porém, o espirito democrático e progressista do resto da população, banaliza a sua presença e marginaliza-os de forma ao seu impacto se tornar insignificante em termos de votação.

Voltar a um mundo de fronteiras e de intransigências estúpidas de governos nacionais seria um passo atrás para a mediocridade que caracterizou esta Europa de guerras idiotas, confrontos doentios e holocaustos monstruosos.

Por mais amarga, pois, que sejam as tansformações a que a Europa tenha que se submeter, isso valerá a pena. Tem-se que aprender a por de lado a casca, cuspir-se fora as pevides para mastigar a polpa doce e refrescante da Europa do futuro; praticar formas coerentes e humanas de se estar no mundo como europeus com honra e inteligência.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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