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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas e Caminhos do Pensamento
Donos dos Seus Narizes


O ilícito, a maçã proíbida, é a mais apetecível. Na natureza humana, o que é negado ou interdito, o que se esconde e se cobre, não se permite ou não se deve revelar é o que mais tenta, mais seduz, mais atrai e distrai.

Quando por exemplo juntamos duas aulas de crianças alemãs e americanas em programas especiais, notamos que se a actividade se trata de recortar revistas alemãs onde por acaso se encontrem figuras de mulheres ou homens nus, logo a criança americana pára tudo para fazer uma jacota, rir, comentar e apontar, enquanto lado a lado, as crianças alemãs passam a sorrisos e a comentários sobre esse banzé a que se dedicam as crianças americanas por uma coisa para eles tão normal, mesmo trivial.

Da mesma forma, quando ensinamos no laboratório de computadores da nossa escola, apesar dos vários programas que o laboratório oferece desde o Multi-Media ao livre acesso à internet, uso de cameras digitais, etc. para alguns alunos mestres em computadores, o fascinante porém, como devem adivinhar, é sim o proíbido, o não permitido. No momento em que não estejamos atentos logo um ou outro se atreve a querer manipular o programa em si, a abrir fichas que lhes deviam estar interditas, ou mesmo implantar algum virus para assim demonstrar a sua perícia nesse domínio. Assim conseguem divertir-se por conta própria--- isso à custa do dano que produzem com tais acções.

Há mesmo até professores que seguindo a mesma lei do interdito, de se quererem demonstrar autoridades nos seus conhecimentos e perícias, se atrevem a actividades ilícitas. Sabe-se por exemplo que algures numa escola do nosso sistema, no fim de semana, qualquer professor incauto ligou para um home-page pornográfico e esteve ligado por umas boas sete horas desse fim de semana.
Julgava por ser um Ás na informática que ninguém o iria interceptar ou apanhá-lo em flagrante. Tal facto tornou a chacota do ano. Para nos divertirmos basta perguntarmos, " Há quantas horas é que já estás no Internet?" e todos nós sabemos a que nos referimos.

Contudo, nem sempre passa a brincadeira qualquer atrevimento produzido às escondidas. Na Europa este fim de semana, por exemplo, há uma grande indignação contra o sistema jurídico americano. As pessoas exaltam-se ao tomarem conhecimento de que o piloto Ashby, 31, de Mission Viejo, California, que foi responsável pela morte de vinte pessoas em Cavalese na Itália foi perdoado pelo acidente que produziu quando numa manobra à Rambo americana atreveu-se a baixar o seu EA-6 Prowler jet a uma altura não permitida. Como resultado desse acto, o seu avião arrastou consigo os cabos que seguravam uma gondola alpina, fazendo com que essa se despenhasse, produzindo a morte imediata a mais ou menos vinte turistas de diferentes partes da Europa.

Esse caso irresponsável que se tornou em tragédia tanto para gente inocente como para o próprio piloto, advêm de uma atitude moderna de cada um ser uma "autoridade" com o direito à livre acção, onde se desrespeitam as leis, as convenções, as intransigências de qualquer instituição, governo ou tradição, onde a lei "própria" O "quero, posso e mando" e o "Arreda-te, que eu quero passar", é que manda ---onde cada um é dono do seu nariz, é seu rei e senhor.

Depois, se analizarmos tais atitudes descobrimos que essa atitude humana de desobediência e de curiosidade que nos leva a querer descobrir o que nos é interdito ou negado, se nota cada vez mais no campo do religioso, do espiritual, no plano sacro.

Quem visita qualquer livraria nota por exemplo que se tornou uma "tinha" os livros sobre os anjos e arcanjos, experiências depois morte, emissários de luz, ovnis, e outros fenómenos de ordem transcendente que buscam explicar o programa da nossa realidade.

Asim como essa literatura barata que busca a sensação do sacro, não faltam os filmes sobre espiritos ou anjos que voltam para aconselhar, se vingarem deste ou daquele, fazerem a sua justiça, mesmo até beijar a moça bonita sem que essa se aperceba, e outras idiotices de ordem transcendente que abordam mais a feiticeirice. Isso tudo está claro com efeitos especiais à Hollywood. Fazem, a meu ver uma comédia de dogmas de fé e banalizam o sacro ao ponto de produzir uma apatia mesmo da pessoa mais religiosa por o que quer que seja divino.

Isso é, o divino torna-se como uma extensão do tecnológico—o céu um Disney World na quarta dimensão com mensageiros de luz com dons especiais de voarem, de comunicarem com os humanos, de se deslocarem à Star Treck para aqui e para ali, e o aplicarem uma diplomacia quase política da necessidade de se seguir este ou aquele plano cósmico.

Numa era de comunicações via satélite, telefones portatéis, telecomunicações tão rápidas como a luz, cada vez mais se conceptualiza um céu ou um mundo de sonhos aos moldes da técnica—um reino que satisfaça os sentidos, onde se venha a receber, a conseguir um bem estar nunca antes concebido.

Susceptível como católico a tais fenómenos e experiências, revolta-me, pois, a maneira em como se sensacionaliza esse mundo quase ao ponto da comercialização, sublimação descarada. Tornam o acto de morrer quase até uma coisa agradável, o de se pode antever por reportagens tiradas na beira da cama de defuntos, esse reino de além com efeitos especiais e figuras angélicas --um mundo parque de diversão na quarta dimensão, condicionado para os sentidos e pelos sentidos, um acto fascinante de encontro e reunião com uma realidade à "E Tudo o Vento Levou."

Que há muito escritor e produtor de filmes a enriquecer à custa de tais dogmas de fé e ingenuidade religiosa, podem estar certos. Que não falta gente que ávidamente lê tais livros ou se senta a ver programação sobre anjos e mensageiros do além com uma devoção fora de normal, é uma outra realidade. Cada vez mais encontramos pessoas mais interessadas em o que o seu anjo da guarda, brilhante, envolto em luz e belo, lhe possa querer dizer, do que falar com a pessoa mais próxima, especialmente se essa pessoa não lhes agradar à vista, fôr velha, doente, feia, pobre ou suja.

Assim, vemos uma humanidade de uma forma atrevida e indiscreta explorar o mundo do espirito –meter o nariz onde não devia meter. Vive-se, uma era onde se expõe e vulgariza dogmas de fé depois de os vasculhar e os deitar por terra, onde falar com os anjos, usar de telepatia, antever o mundo do além, falar com mortos e espiritos, terem-se visões a torto e a direito, e observarem-se milagres a qualquer tempo, é a coisa mais normal. No fim, consegue-se um caos no domínio da fé que não nos leva a nenhum lado mas à indiferência e apatia e esse o maior dano que se possa infligir ao espirito--- a banalização da fé.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha



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